Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

01/09/2014

Temporada de caça

  A pedido de um bispo, a candidata recuou em matéria de criminalização da homofobia.

Agora podem xingar, bater, matar:

 

a temporada de caça aos gays está aberta

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h36
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28/07/2014

Espaço Itaú de Cinema e os 4 “C”

 
 

Espaço Itaú de Cinema e os 4 “C”

A vinheta do Espaço Itaú de Cinema abre com movimento circular, entra o nome do banco que se afasta numa espécie de zoom out. Finalmente se fixa o logo do banco/cinema, ao lado do qual quatro objetos vão aparecer sucessivamente:

 uma Cadeira de lona dobrável, símbolo tradicional do diretor no set. Há fotos memoráveis de Hitchcock e Fellini nessa cadeira. Imagino que os diretores não usam mais esse assento, a não ser para ficar diante do vídeo-assist.

uma Claquete de bater ainda em uso mas em via de ser substituída pela claquete eletrônica.

uma Câmera digital que usa cartões de memória.

 

A série se encerra com um Carretel, o mesmo que dá circularidade ao movimento de abertura.

Tradicionalmente o carretel é uma roda na qual a película está enrolada. Ele serve para transportar e para projetar filmes. No projetor em funcionamento, a película é puxada do carretel carregado, passa pela janela e vai se enrolar no carretel de recepção.

 

O conjunto desses objetos traça o percurso da filmagem à projeção.

O carretel é hoje obsoleto. As projeções digitais, HD, RCP etc. o descartaram. Ainda presente em algumas projeções, seu destino é o museu.

 

Como entender a permanência dessa iconografia na vinheta?

Esses ícones já conquistaram seu espaço na nossa cultura, eles são rápida e amplamente inteligíveis. Embora defasados em relação às tecnologias atuais, eles remetem a uma tradição. Eles funcionam como um selo, uma garantia de qualidade assegurada pela história do cinema. Essa segurança da tradição está igualmente presente no lápis que alguns celulares mostram na página de escrever SMS.

 

Essa permanência aponta para outra questão: a dificuldade de criar imediatamente ícones claros e compreensíveis para tecnologias recentes e em constante mutação. É frequente novos sistemas manterem signos e representações de um sistema anterior em via de desaparecimento, enquanto novos ícones serão gerados lentamente. Como seria um ícone que representasse uma projeção digital?

 

Essa situação parece óbvia e natural. Acredito que não seja tão óbvia. A questão da permanência / geração de ícones espelha transformações sociais. E isso se dá num clima de tensão. Os ícones insistirão em permanecer, vão tentar se adaptar, mas a guerra não está ganha. Exemplo disso são diversos ícones em plena decadência, como a tela branca emoldurada de preto, derrubada pelas telas que proliferam na nossa sociedade. Ou o cone de luz que ligava o projetor à tela. Ou outro ainda cuja carreira foi brilhante: um pedacinho de película perfurada com fotogramas assinalados simbolizava o filme, o cinema. Pois ele sumiu.

 

Mas o carretel, que justamente tinha a função de carregar a película perfurada, ganhou uma sobrevida. Ironia da história. 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h47
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29/05/2014

Cristiano Burlan, os dois olhares – 1

 
 

Cristiano Burlan, os dois olhares – 1

Esta segunda entrevista com Cristiano Burlan foi feita em 9.5.2014. O ator Henrique Zanoni estava presente. A primeira entrevista foi postada nesse blog em 20.2.2014.

 

JC – Vamos retomar os dois olhares de que você falou na entrevista anterior?

CB – Os dois olhares? Não me lembro.

JC – Estranho você não se lembrar, eu achei marcante. É o seguinte: um olhar do lado de cá e um olhar do lado de lá do rio.

CB – Lembro.

JC – O que são esses dois olhares?

CB – Mesmo tendo consciência de ter passado por esses dois olhares, o meu olhar agora é sempre o olhar de fora.

JC – Ah bom!

CB – Por mais que eu tenha nascido no Capão Redondo e tenha consciência, hoje a perspectiva é diferente. Eu não consigo me colocar na perspectiva do outro.

JC – Quem é o outro agora?

CB – O que mora do outro lado do rio.

JC – No Capão Redondo?

CB – Aquele que é explorado pela minha câmera e de outras pessoas, aquele que é objeto de estudo. Por mais que eu tente, nunca vou conseguir me colocar nessa situação de novo.

JC – Mas antes você estava nessa situação.

CB – Sim, estava. Agora estou do outro lado, é um caminho sem volta. Por mais que eu voltasse a morar lá, convivesse com essas pessoas e tentasse resgatar o meu passado, já passei por coisas que me impediriam. Não tem como voltar a ser o que você foi.

JC – Quer dizer que você migrou de classe?

CB – Pode-se dizer que sim.

JC – E você se sente culpado?

CB – Não. Quem gosta de viver no meio da miséria e da violência? Ninguém. Eu acho que tenho a responsabilidade de sempre que puder dar voz ao outro. Como na premiação [Prêmio Governador do Estado 2014 para Mataram meu irmão], eu não tinha como não receber o prêmio e não dizer o que falei. É uma aberração o estado que matou meu irmão me entregar um prêmio. Eu poderia me regozijar, puxar o saco do PSDB. Em vez disso, eu falei o que precisava falar.

JC – Ao falar diante do governador, você acha que deu voz ao outro ou a si mesmo? Esse discurso contribuiu para o seu sucesso atual.

CB – É como se meu próprio irmão estivesse falando ali. É completamente estranho o que vou te falar, mesmo não podendo voltar a ser o que eu era e voltar a ter essa perspectiva, eu sinto que ela continua dentro de mim. Agora ela tem filtros, filtros convencionais. Ela tem a vaidade, as pretensões artísticas. Eu paguei um preço alto por ter realizado esse filme. É talvez o que me salva um pouco da mediocridade, não que eu não seja medíocre...

JC – Você se sente um traidor?

CB – Não, não tenho motivo para me sentir um traidor.

JC – Em relação aos seus amigos de antigamente ou à tua família?

CB – Não diria um traidor, mas acho que poderia fazer mais pelas pessoas. Me afastei completamente da minha família e do meio em que vivia, até do meu amigo que aparece no filme [Thiago]. Isso não é consciente, são questões que me abalam profundamente.

JC – Que questões te abalam?

CB – Essas questões do meu passado, da violência, de tudo o que vivi. Não tem um dia que eu acorde sem pensar em todas as pessoas que vi morrer.

JC – Todo dia?

CB – Todo dia. Eu tento não pensar, porque isso me impediria de viver. Mas eu não me sinto um traidor.

JC – Os olhares do lado de cá e do lado de lá já entraram em conflito?

CB – Sim, completamente. Há duas maneiras de ver esses dois olhares, a estética, e também o lado político e social.

JC – Quais são essas maneiras?

CB – Houve uma depuração do meu olhar, mas ao mesmo tempo eu perdi uma coisa primitiva que eu tinha quando eu morava na periferia. Tinha pretensões artísticas, primeiro no teatro e depois no cinema, eu tinha um olhar mais virgem. Eu saí de lá e fui estudar cinema, eu tive contato com obras literárias, com pensadores, pessoas que me influenciaram.

JC – Onde você estudou cinema?

CB – Numa escola de cinema, a AIC, onde leciono hoje. Mas eu fui expulso de lá.

JC – Por quê?

CB – Não tinha dinheiro. Eles queriam que eu trabalhasse lá. Não sou bom para trabalhar, sou preguiçoso.

JC – ...você disse o contrário na outra entrevista, que era trabalhador, obsessivo no trabalho...

CB – Eu tô falando dessa coisa cotidiana, do dia a dia. Se eu fui contraditório, isso me torna mais interessante. Se eu tentasse parecer coerente e repetisse o que já falei... Odeio trabalhar, não é natural. Eu não acho que cinema seja trabalho, nem teatro. Tenho tesão em fazer isso, até porque eu não recebo. Meu trabalho é dar aula.

JC – Voltando aos olhares, eles já entraram em conflito?

CB – Tão sempre em conflito e vou além. [...] Tem o olhar da pessoa comum, que só observa essas coisas, que vai ao museu e vê um quadro, assiste a um filme. O olhar dessa pessoa comum interessa mais do que o dos doutos saberes sobre cinema. Quando comecei a fazer filmes, eu tinha dificuldade de lidar com a crítica. Hoje para mim faz parte do processo, mas a crítica que realmente me interessa, é a do homem comum.

JC – Em geral o homem comum não critica porque não tem onde criticar. Ele vai assistir e ...

CB – Ele não faz critica numa revista especializada.

JC – ...comenta com amigos.

CB – A crítica dele vem de querer ou não assistir a um filme.

JC – Mas não chega até você.

CB – Não chega ou chega. Se pessoas não quiserem ver meus filmes, é uma forma de crítica, é um tipo de cinema a que “não quero assistir”...

JC – E tão mal divulgado. [...]

CB – Quero te fazer uma pergunta... o conteúdo dessa entrevista é o mesmo: o pobre que virou artista falar sobre essas coisas ou falar sobre estética. Eu queria falar sobre estética.

JC – Tá bom. Ainda tenho uma pergunta. Por que filmar é um crime?

CB – Tem um pensamento, acho que do Buñuel, que fala que o ato de fazer cinema se aproxima de um ato criminoso. É como se essa frase fosse minha. Primeiro porque eu não acho natural colocar uma câmera no rosto de uma pessoa, a câmera representa um órgão humano. Eu coloco um pau gigante no seu rosto e digo: seja natural e expressivo.

JC – Com essas 3 máquinas que você colocou em torno de mim, o assassinado sou eu.

CB – Nós dois! Pode parecer demagogo, mas eu sempre pergunto qual a grande discussão do cinema brasileiro hoje. Chego à conclusão que, mais importante que a estética, é a questão política do ato de fazer filmes, o dinheiro. Como conseguir dinheiro e, depois da obra feita, fazer o dinheiro voltar?

JC – Onde está o crime?

CB – Vou concluir meu pensamento. Eu viajei pelo país fazendo documentários etnográficos, conheço boa parte do Brasil. Percebi que ainda é um país miserável, quase 80% da população vive num estado de pobreza profunda. Eu fico imaginando essas pessoas que têm acesso ao dinheiro para produzir cinema, que responsabilidade é essa? Quase um ato criminoso. Pegar dinheiro de renúncia fiscal e gastar para fazer filme... Não tô dizendo que essas pessoas usem o dinheiro para outro fim [...] estou falando por baixo, fácil entrar num tiroteio quando você não tem acesso a esse dinheiro. Fácil pra mim falar mal das pessoas que usam dinheiro público para fazer filme.

JC – Você não tem acesso ou não quis ter acesso?

CB – Agora tenho. Há anos eu tento editais e nunca sou contemplado. Mandamos projetos da Bela Filmes para todos os lugares, até projeto de filmar velório. É sempre “não” [...] eu não tô reclamando. Quando um projeto nosso não é contemplado é que outro foi. Quem escolheu entendeu que o escolhido tem algo mais interessante a dizer do que eu e os meus parceiros.

JC – Você acaba de filmar Hamlet: foi um ato criminoso?

CB – Eu acredito que Shakespeare é atual por falar de questões inerentes ao ser humano em qualquer lugar da terra. Ele fala de amor, ódio e separação. Shakespeare é cinematográfico por usar elipses, o personagem está na floresta negra, vira para o lado e está num castelo, vira para a esquerda está num navio. Especificamente acho Hamlet rock and roll, um rebelde por essência e ao mesmo um cara mimado, ele é egoísta, ególatra, freudiano. Me sinto próximo da tragédia, da violência de Shakespeare. Principalmente Hamlet, eu trago um pouco para mim, para minha vida. Próximo também do momento que vivemos no país, em São Paulo, alguma coisa está fora dos eixos, tem uma névoa sobre a cidade, essa tensão pré-Copa, uma coisa ruim ou muito forte vai acontecer. Eu sou a favor das mudanças, o conflito te faz mudar.

JC – Por que você traz Hamlet para tua vida?

CB – Para minha vida ou para o filme?

JC – Você diz que é próximo de sua vida.

CB – Hamlet é próximo da minha personalidade. Ele questiona o status quo, ele acha que tem alguma coisa errada e realmente tem. Mas ele não vai para o embate. Fica a peça inteira sem se confrontar, não por decisão dele. É que você faz parte de uma engrenagem. É como se ele não tivesse força para ser senhor do seu destino. É como eu me sinto. Eu não sei viver, improviso.

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h34
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Cristiano Burlan, os dois olhares – 2

 
 

Cristiano Burlan, os dois olhares – 2

JC – Eu tenho uma ideia sobre sua relação com Hamlet. Na outra entrevista e em Mataram, fica claro a sua adesão a um universo de violência e a necessidade de se afastar para sobreviver e criar. Um dos aspectos de sua opção por Hamlet pode ser uma forma de tratar a violência familiar – na peça uma família desaparece – e de se distanciar através de Shakespeare. Escolher Hamlet é uma busca de equilíbrio.

CB – Nunca tive uma análise tão fria como essa.

JC – Você acha que sou frio?

CB – Não, você só tá analisando de fora, é um ponto de vista. Eu queria dizer – senão fica muito falocêntrico – que a ideia não foi só minha, foi também do meu parceiro, Henrique Zanoni [intérprete de Hamlet], parceiro criativo e coautor do filme. Cê faz perguntas difíceis...

JC – O que há de difícil na pergunta?

CB – Eu já tô acostumado a responder no automático. É que você tá numa situação confortável, você acaba de ver o 3º corte, você é ator do filme, então você não é um critico.

JC – Essa pergunta eu tinha preparado antes. Depois de ver o 3º corte as minhas perguntas são outrasDepois eu pergunto.

CB – Antes do 3º corte, então vou tentar responder. –  Eu vou fazer um comentário paralelo. Eu não consigo entender atores que dirigem a si próprios, eu jamais vou conseguir atuar e dirigir ao mesmo tempo, eu preciso de um distanciamento, preciso estar atrás da câmera. Antes de mais nada estamos falando de estética, por mais que eu pareça uma pessoa que está usando minhas questões pessoais, meus parangolés, todas as tragédias da  minha vida. Agora tentei fazer um filme a partir de uma obra famosa. Optar por Hamlet me traz conforto porque não preciso contar a história, todo mundo já sabe, é uma liberdade tremenda. – Se não me engano, é a 3ª adaptação cinematográfica de Hamlet no Brasil. A oficial é a do Candeias, A Herança. Sou apaixonado pela obra do Candeias. – Espero que as pessoas venham ver o filme sem agressividade...

JC – Você diz que todo mundo conhece a história. Todo mundo quem é?

CB – As pessoas que estão acostumadas a ir ao cinema, não o povo do outro lado do rio.

JC – Pois é!

CB – Essas pessoas não. Se eu não for até lá, elas provavelmente nem terão acesso ao filme.

JC – Não é “todo mundo”, é um pedacinho.

CB – É uma parte ínfima.

JC – Outra pergunta. Já conversamos a respeito e você pareceu concordar. Filmar Hamlet seria um crime também em outro sentido. Visto o seu meio cultural e social de origem e a trajetória em que você começa a ter acesso a grandes obras literárias no seu processo autodidático, filmar Hamlet é uma forma de apropriação de um dos maiores ícones da cultura ocidental e nesse sentido seria um roubo. É um roubo?

CB – Eu me sinto confortável porque Shakespeare escreveu poucas histórias originais. Todas as grandes peças são baseadas em histórias conhecidas na Europa ou que vieram do Oriente, histórias de domínio público. Se Shakespeare pode fazer isso, porque eu não posso? E mais, não tem que pagar direito...

JC – Naquela época se valer de narrativas que corriam pelo mundo não era problema, e quem as transformou em obras célebres da cultura ocidental é Shakespeare. Você recebe o ícone já pronto.

CB – Tem também esse desejo profundo de destruir, e depois reconstruir, claro. Essas grandes obras, porque tantos dedos ao se debruçar sobre elas. Parece que são intocáveis, você não pode emitir uma opinião, só se for Bárbara Heliodora. Se assistir ao filme, ela vai acabar comigo porque cortamos a peça. Tenho certeza absoluta que esse filme não é uma adaptação literal, talvez seja o documentário do nosso embate com a obra, meu,  de todos os parceiros, inclusive o senhor.

JC – O que é destruir Hamlet, você usou essa palavra.

CB – Tem que tomar cuidado com as palavras. [...] Uso ‘destruir’ no sentido bom de ‘destruir’, com desejo de reconstruir, é quase uma Fênix. Importa o embate com a obra literária. – Quando eu começo um filme, vou quase virginal. Se for para reproduzir um pensamento já pensado por pessoas mais competentes do que eu, não tem sentido. Para mim o filme é uma viagem. Não saí do filme mais entendedor da obra de Shakespeare, nem mesmo sobre Hamlet. Me despertou mais interesse montar Hamlet no teatro, existem tantas camadas ali.

JC – Onde?

CB – Na peça, nos personagens, no próprio Fantasma, tudo é tão dúbio, nada é dito diretamente. Quando o Fantasma fala pro Hamlet, o que ele realmente quer falar? Na obra toda, o que Shakespeare deixou de escrever entre as palavras, para mim é o principal.

JC – Vamos falar do 3º corte? Não é a peça. De tantas mortes, sobrou apenas a de Ofélia. A morte da família foi expulsa do filme. Eu não entendi essa operação. Eu pensava que filmar Hamlet era uma maneira de tratar a violência, inclusive a violência sofrida por sua família, de forma distanciada. Mas você simplesmente a expulsou. A tua cabeça antes da filmagem e a tua cabeça na montagem são diferentes.

CB – As duas cabeças, isso é óbvio. Num momento eu tô indo ao encontro da realização de um filme. Depois tenho de revelar o que foi esse encontro. A montagem é um ato de humildade, de consciência de que não atingiu uma ideia que tinha na cabeça. Montar tá mais em cortar e revelar o potencial que está ali, não tem muitas opções. Se tentar ir para outro lugar, você pode matar o que você conseguiu fazer de mais importante. Você fez uma análise precisa do 3º corte, não sei se é esse que vai ficar. Mas certeza absoluta, a morte de Ofélia...

JC – Certeza absoluta de quê?

CB – ...a morte de Ofélia na peça e no filme é a única morte que faz o conflito, é a transformação, é o grande plot. As outras são ilustrativas. Como a peça é conhecida, não precisa mostrar que todo mundo morre. Mostrar o que tá entre essas coisas é mais interessante. Tem a peça, a história, tem o verbo, o adjetivo, mas eu tô falando de imagem e som, de construção de atmosfera. Quando tô montando, isso me interessa mais do que ficar preso a Shakespeare.

JC – O 3º corte parece estar no meio do caminho, falta radicalismo, inclusive na destruição. Quando falo da tua cabeça antes e depois da filmagem, me refiro a um ponto que você abordou na outra entrevista, a sua vida afetiva. Penso que você montou o filme em função de uma mudança na sua vida afetiva, ou tô invadindo a tua privacidade?

CB – Não. Cê pode ter um pouco de razão. Mas o processo de montagem foi em cima do que eu filmei e não de como eu me sinto [...] montar não é só manipular material, é extrair alguma coisa que já tá ali. Se eu não conseguir é porque eu não consegui como diretor. Eu tenho fé no filme e tenho fé na montagem, até porque não terminei.

JC – Sinto que o material filmado, embora eu não o conheça, tem mais potencialidade do que resultou neste corte. É necessário revisitar o material e voltar a questioná-lo. [...]

CB – Quando lançamos Amador, você fez criticas ferozes, e você aceitou fazer outro filme comigo. E em princípio você aceitou fazer mais um.

JC – Sim.

CB – Porque você aceita fazer filmes com um cabra e depois critica ferozmente os filmes que você faz.

JC – Não sei se sou feroz, eu estou envolvido no projeto com você. Uma das regras do jogo é a honestidade.

CB – Sim, eu acho.

JC – Quando eu digo que Amador é mal montado, não é uma rejeição, isto não tira nada ao nosso pacto. Não exclui que eu critique, nunca terei com você uma relação de panos quentes.

CB – É o que eu espero. Sua análise sobre o filme é parecida com a do Henrique Zanoni, que é o protagonista.

JC – Então vamos ouvir o Henrique.

CB – Eu acho que vocês não têm distanciamento para fazer essa análise. Aí entra a vaidade do ator! Aqui não é o Sr. Jean-Claude critico analisando um filme. Você viu um corte, tem o problema da sua relação afetiva com as cenas que você realizou e que não estão no corte.

JC – Sim. O Fantasma quase sumiu.

CB – (rindo) ...não falei?

JC – Vi o corte hoje e me dei conta do que estava acontecendo comigo e com o fantasma. Mas falar da eliminação da morte da família e da violência não depende da minha vaidade nem do fantasma. Tentei me distanciar.

CB – Em 5 horas?

JC – Eu sou rápido. Reconheço que talvez eu não tenha um distanciamento suficiente. Mas só posso questioná-lo dentro da situação em que de fato nós nos encontramos, ou me calar.

CB – Discordo de você quando fala da violência. Na peça a violência não é visível. As mortes são quase caricaturas da morte. Eu posso falar disso com propriedade porque já vi muita violência. Não me interessa reproduzir essa violência, me interessa mais mentir sobre ela para chegar a alguma verdade. A violência como ela é não pode ser reproduzida no cinema ou em qualquer outro meio de expressão. Essa coisa que você chama de violência shakespeariana não tá na peça mas por trás das coisas, não é obvia. Isso eu já sabia antes da montagem. Eu não vou conseguir filmar realmente uma cena violenta. O cinema é limitador, a literatura tem mais potencial. Prefiro filmar uma parede branca e falar sobre a violência com uma voz off. Mostrar essa violência seria uma obviedade... puta, você me fodeu a vida agora, falar da análise critica do 3º corte, mas é bom porque me colocou em crise.

JC – Vamos passar a palavra a Hamlet?

HZ – Vou falar pouco porque esse espaço é de vocês dois. Tenho a mesma visão que JC, o filme segue outras potencialidades, não só em relação a Shakespeare, mas em relação aos atores, ao que fizemos no teatro, na rua. Tem mais coisas ali. Eu acho que virou quase Romeu & Julieta. Hamlet surta por causa da Ofélia, então o peso do Fantasma que o atazana, o peso de ele matar Polôn

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h33
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Cristiano Burlan, os dois olhares – 3

 
 

Cristiano Burlan, os dois olhares – 3

JC – Podemos abordar outro ponto. Genérico, não é um problema seu, tem a ver com uma geração de cineastas que trabalha num certo nível de produção: o montador. Há um apego narcisista ao material filmado que prejudica o distanciamento do realizador diante do seu material. O realizador – pode ser o caso do 3º corte – tende a montar em função do investimento que ele fez na filmagem, mais do que pelo resultado na imagem. Acho problemático não introduzir um terceiro olhar na montagem.

CB – Eu concordo em gênero, número e grau [...] mas acho que Hamlet não seria um material para trazer um outro olhar, é um filme íntimo...

JC – Por que íntimo?

CB – Para mim é um rito de passagem. Não é que eu precise me reinventar, mas é o ultimo filme que faço dessa maneira.

JC – Que maneira?

CB – Eu me sinto primitivo fazendo filmes, confio plenamente nos meus instintos. Às vezes percebo que preciso ser mais racional, mais rigoroso.

JC – Por que primitivo?

CB – Abdico da racionalidade quando me debruço sobre o material, eu confio completamente nos meus instintos.

JC – Na filmagem?

CB – Na filmagem eu tento fugir do planejamento, esperando que a epifania aconteça. Tenho descoberto nos últimos filmes que as coisas não acontecem assim. O que eu quero é tentar me experimentar de outra maneira, ser mais mecânico, talvez mais frio e preciso, mais rigoroso. Ter um lampejo de vida talvez seja esse rigor que perdi um pouco, perdi muito, fui rigoroso nos meus primeiros curtas, mas era um rigor frio.

JC – No Mataram você foi rigoroso?

CB – Fui, como nunca fui na minha vida.

JC – Pensando no Amador e no 3º corte me veio justamente isso: falta de rigor. Mataram tem planos longuíssimos, o do Thiago por exemplo, que se aguentam perfeitamente. No 3º corte há planos longos que não se sustentam. Por que teria havido perda de rigor?

CB – Acho que beira uma certa soberba, sabe? O Mataram me causou um mal... de repente eu começar a achar que sei fazer, que é só ligar a câmera e as coisas acontecem. É cruel fazer filme, cê sabe até onde você foi, o quanto você poderia ter ido, você tem total consciência, você nem precisa esperar o filme ser projetado, a maneira como você se relaciona tá no plano, ali! Quando você tem esse enquadramento, esse desenquadramento, quando você fotografa um rosto ali, o quanto de energia você coloca... O filme acabou comigo e com todas as pessoas que trabalharam, foi um dos filmes mais duros. Mesmo assim eu acho que não tá 100%, eu poderia ter ido mais longe.

JC – Com Hamlet?

CB – Com certeza e com Amador também.

JC – Ter ido mais longe, como? No set achei você claro e preciso, sempre. Nunca confuso. O que teria sido ir mais longe?

CB – Vou ser sincero, eu nunca falei isso com ninguém. Nunca fiz um filme da maneira que eu gostaria. O meu desejo é poder repetir as tomadas, eu não tô dando desculpa, mas eu não posso me dar ao luxo de fazer 10, 20, quiçá 80 para um. Tem a ver com falta de recurso e de estrutura. Quando tô fazendo uma tomada, não tô dando desculpa de novo, minha cabeça tá também em outro lugar, se vai ter comida para o ator, se amanhã vamos conseguir equipamento emprestado, se tem transporte para todos, se o dinheiro chega ao fim da semana. Se um dia eu tiver um produtor produzindo, se eu puder me concentrar na ‘mise en scène’, no que eu coloco diante da lente, eu não vou sair daqui enquanto não tirar tudo daquele plano.

JC – Na filmagem de Hamlet tal como ela aconteceu, você se sentiu insatisfeito?

CB – Não! É isto que te falo, eu descobri na montagem, a montagem é cruel. [...] eu percebo que deveria ter dado mais. [...] eu não sei se tô aprendendo a fazer cinema ou se algum dia vou aprender, mas eu começo a ter uma certa lucidez sobre as coisas e uma lucidez sobre meus defeitos e clichês. É salutar. Mas é cruel. [...]

JC – Que clichês?

CB – Em algum momento cê acaba baixando a guarda [...] É difícil ser sincero consigo mesmo o tempo todo, a cada fotograma, não resistir aos devaneios, às preensões estilísticas – no Mataram eu fiz isso, abdiquei completamente.

JC – No Hamlet quais são as pretensões estilísticas?

CB – Preto e branco por exemplo, é uma escolha consciente. Essas câmeras digitais são muito coloridas, me sinto Almodóvar filmando no Sul da Espanha com as tias dele – P&B, essa relação entre claro e escuro, os germes proliferam mais no escuro – eu não tenho dinheiro para fazer uma pósprodução como gostaria, anular essa saturação de cor – mas o P&B te coloca num lugar meio experimental, cult, descoladinho, é uma pecha que não me agrada – eu não consigo ver o mundo colorido, ele é cinza e P&B, sempre foi e provavelmente sempre será.

JC – No inicio cê disse que queria falar de estética, não queria fazer mais uma entrevista de pobre.

CB – Não, esse papo de estética é papo de boteco. Eu não trabalho bem com a raça dos artistas, nem conheço. Meus amigos não são artistas, não sou artista.

JC – E eu sou artista?

CB – Esse é um problema do senhor. Acho que é um trabalhador do cinema, eu gosto de trabalhadores do cinema, mesmo sendo vagabundo. Eu me coloco no cinema como um trabalhador, cinema é um ofício antes de mais nada. Eu me sinto mais um sapateiro do que uma pessoa que aparece em jornais e revistas, e quer ganhar o edital da ... Que mais Sr.Jean-Claude?

JC – Para mim tá bom.

CB – O senhor vai foder com minha vida.

JC – Por quê?

CB – Porque eu fico falando essas coisas e depois sai no seu blog, todo mundo lê, aí vão descobrir... mas é interessante...

JC – Eu tenho outra interpretação. Você é disponível, se expõe e aceita que essa abertura se torne pública. As pessoas costumam ficar na defensiva.

CB – Tem um outro lado da história. Eu tenho uma segurança que ninguém me tira: já fui bandido, entendeu? As pessoas acham que eu posso usar de violência, eu sou contra a violência, totalmente contra. Mas posso voltar para minha origem... resolver a coisa na bala.

JC – Então voltamos aos dois olhares.

CB – Vai que um crítico boçal fale alguma coisa que eu não goste. Posso ir até os meus primos no Capão Redondo, pedir o 38 carregado e resolver a coisa cara a cara. Seria engraçado: cineasta mata critico.

JC – Acho ridículo.

CB – Ridículo seria gastar toda a munição, uma bala só, não.

JC – No inicio você disse que não poderia voltar às origens.

CB – Eu não posso me contradizer?

JC – Pode. E eu posso tentar aprofundar.

CB – Deve.

JC – Por que você não levou o Mataram para o Capão Redondo?

CB – Não, mas levei para outros lugares.

JC – Quais?

CB – Vários lugares do país. Sempre que me pedem pra comprar o DVD, eu mando pros caras, não cobro nada, nem o correio. – Eu fui visitar um projeto no Jardim Romano. É uma peça de teatro que fala dos moradores dessa região que foi alagada pelo governo. Foi um ato terrorista. Foram expulsos para construir prédio para a Copa. Mas eu voltei a uma coisa que eu tinha perdido, o encontro com essa realidade. Para nós é uma notícia no jornal, ‘300 famílias desalojadas’. Conheci uma moça de 20 anos, tem duas filhas e a porta dela não fecha mais. É uma viela, tem tráfico, sequestradores, toda semana a policia invade e quebra a porta. São questões tão humanas e aí eu adapto Hamlet. Talvez seja mais importante colocar o seu ofício como plataforma para essas pessoas que não são escutadas. Talvez aí tenha sentido, isso me interessa mais.

JC – Os dois olhares ainda existem.

CB – Sempre.

JC – Vamos parar?

CB – Tô com a mandíbula doendo de tanto falar. Eu ia falar uma coisa, não falei, me  arrependi.

JC – Fala.

CB – Eu tenho pensado sobre meu ofício, talvez eu não dê para isso. Talvez seja um erro e eu tô pensando seriamente em voltar, é meio burrice falar isso, voltar a ser traficante. Já fui aviãozinho. Eu acho que tenho habilidade para ser traficante não para fazer filmes. O traficante ,não pensa só no lucro, ele sabe que vai trazer um pouco de felicidade falsa. Talvez se eu olhar o cinema como um papelote de cocaína boa que chegou da Colômbia... Em São Paulo não existe mais cocaína boa, não que eu faça um controle de qualidade, mas ninguém mais morre de overdose em São Paulo. Isso era comum nos anos 80.

JC – Isso se deve à baixa de qualidade?

CB – E à ganância. Até no crime cê tem que ter ética,  o que os criminosos de hoje perderem.

JC – Desligamos?

 

CB – Ok. 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h31
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28/04/2014

Boltanski, os Imigrantes

 
 

Boltanski, os Imigrantes

 

Entro no espaço. Selva de pedra de papelão. Opressivo, um pouco. Vozerio. Vozes da cidade. Reconheço um sentimento que tive da minha janela do 30º do Copan: um mar de prédios e as vozes da cidade sem rosto. Eu sei que uma dessas vozes é a minha. Não conseguirei encontrar minha voz no meio desse formigueiro. Anonimato. Minha voz é anônima. Eu sou anônimo. Estar perdido no meio do vozerio é quase mágico.

 

Caminho sinuosamente em busca de minha voz, eu sei que é em vão. Cruzo com a voz de um americano. Ele diz o que eu poderia ter dito, que São Paulo é acolhedora para os imigrantes. Concordo com ele, simpatizo com ele.

Meu amigo está parado perto de um prédio, me aproximo, reconheço a minha voz. Ele a achou. Identificada e localizada a minha voz, perco o anonimato e a exposição perde a magia.

Afasto-me. A magia vai se reorganizando em volta de mim. Deparo-me com uma uruguaia, veio a SP para viver com o marido que trabalha com cinema. Ela fala de um horizonte infinito de prédios, o que a assustou na chegada. Com outras palavras é o que falou minha mãe quando chegamos a SP e ela viu a cidade do alto do Hotel São Paulo: “Essa cidade me dá medo”. A vivência da uruguaia não é só dela, é também minha. A do americano também é minha. Esse vozerio é um coro, conta as histórias de todos os imigrantes, a experiência que achamos que é de cada um é a experiência de todos, só a maneira de dizer é pessoal, somos coletivos.

Continuo meu percurso urbano. Uma voz masculina, ele fazia com freqüência a viagem Montevideo / SP ida e volta e acabou se fixando em SP porque, como cineasta, aqui encontrava mais trabalho. Só pode ser o marido da uruguaia assustada. A impressão de que cada voz era solitária se matiza. Nesse panorama de solidão, há contatos, há ligações, há redes. Como percebi? Caminhando ao acaso entre os prédios de papelão. Por acaso.

 

[Exposição de Christian Boltanski, 19 924 458 +/– , SESC Pompeia]

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h32
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07/04/2014

Ricardo e Vivaldi

 
 

Ricardo e Vivaldi

Quando Ricardo Miranda morava em São Paulo, fui à casa dele em Higienópolis. Convermos um pouco. Os outros começaram a chegar, haveria uma reunião. Com quorum satisfatório, decidimos iniciar, Ricardo botou um disco e começamos. Eu não conseguia prestar atenção, não me concentrava, não entendia o que os colegas diziam. De repente, a pergunta eclodiu: “Ricardo, que disco é esse?”. Eu tinha reconhecido o primeiro concerto das Quatro estações, mas nunca tinha ouvido Vivaldi tocado dessa forma. Graças a Ricardo, descobri Il Giardino Armonico. Pedi a Ricardo que tirasse o disco, o que ele fez, não haveria como conversar.

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h20
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11/03/2014

Um dia na vida

 
 

Um dia na vida

 

Meu amigo Zeca que mora em Montreal,  me mandou esse e-mail no dia  5 de março de 2014

 

“Jean-Claude,

No dia 24 de maio de 2011 você me mandou a seguinte mensagem :”

 



”Zeca,
Uma mensagem rápida.
Cheguei a SP, espero que Coutinho tenha chegado ao Rio. Foi épico. Em Montreal,  Coutinho tinha sumido do computador da Air Canada., Karine [funcionaria da Cinemateca Quebequense] queria falar com a embaixada, num domingo.... Coutinho queria comprar outra passagem, Karine pensava levá-lo de volta ao hotel, mas aí o que fazer com ele? Finalmente, Coutinho comprou passagem por $ canadense 1.039.
O vôo até Toronto atrasou meia-hora, eu não tinha condição de esperar que esvaziasse o avião para que o guia viesse nos pegar. Pedi a um brasileiro que também ia para SP que nos levasse, tínhamos 25 min para chegar até o portão, tínhamos que correr, Coutinho não conseguia andar, eu gritava que se perdêssemos de vista o homem da camisa vermelha nunca chegaríamos ao portão 177, e o cara não queria perder o vôo. Chegamos e fomos os últimos, evidentemente não havia mais lugar nos bagageiros, uma comissária pediu que colocasse a mochila debaixo do assento da frente, eu respondi que sim se ela me dissesse onde colocaria as pernas. Finalmente tudo se assentou, estávamos sentados, 20h20 nada, 20h40 nada. Finalmente uma voz disse que havia uns problemas, o que foi repetido em francês e em português com sotaque português. Por volta de meia-noite e meia a voz portuguesa anuncia que havia uns probleminhas, o que foi o suficiente para Coutinho ter um treco e xingar a portuguesa de filha da puta aos brados.... 1 da manhã nos avisaram que não partiríamos,  que pegássemos as malas , passageiros em trânsito podiam pegar um voucher e ir pro hotel e estar de volta às 5h30... O voucher gerou uma fila gigantesca (tínhamos retirado nossas bagagens), já eram 2 da manhã, ficamos sabendo que o hotel ficava a 40 minutos do aeroporto... Convenci Coutinho a passar a noite no aeroporto.... às 4h, fila gigantesca para o check in, ainda fechado, Coutinho esgotado, deitado no chão escondendo-se atrás de malas para fumar... tentei levantá-lo, ele não ficava em pé, finalmente eu berrei I need help... eu cuidando do Coutinho, tentando segurar o lugar na fila, uma brasileira veio nos ajudar, trouxeram a cadeira de rodas, conseguimos check in prioritário... e tomamos muitos double expresso e finalmente embarcamos e chegamos às 19h30 a SP. No vôo entre Montreal e Toronto tive uma boa conversa com Coutinho. À noite minha amiga Heloísa me perguntou se eu tinha dó de Coutinho, não, não tenho dó, me sinto solidário e amigo."

Confesso que, ao reler esse relato, me emocionei.

Publique isso, pelo amor de deus! Sugestão de título : UM DIA NA VIDA

ABRAÇÃO

Zeca”

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h43
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26/02/2014

Coutinho e Carlos Nader

 
 

Coutinho e Carlos Nader

 

A respeito de Eduardo Coutinho, 7 de outubro: Coutinho diz que não há motivo para mudar a posição da câmera, Nader corta e muda de ângulo. Coutinho diz que não apresenta seus personagens de perfil, Nader mostra Coutinho de perfil. O filme está cheio de pequenas ironias gostosas.

O que preocupa o filme é o sujeito. Toda a entrevista e a montagem são orientadas em função da epifania do sujeito no ato de filmar. Não a filmagem da verdade, mas a verdade da filmagem.

A entrevista é complementada por trechos de filmes a partir de Santo forte. Nessa montagem, acontece que os fragmentos de Peões, Edifício Máster, Jogo de cena, Canções e outros têm o mesmo peso, se equivalem. Mas na obra de Coutinho não é assim.

Jogo de cena diz e desdiz, diz e duvida. A entrevista e a montagem do filme eliminam a dúvida. Trata-se de uma apropriação de Coutinho que trunca a complexidade de sua obra.

Acredito que Coutinho nunca tenha superado a dúvida de Jogo de cena. Se tiver, não foi com Moscou nem com Canções. Terá sido com Um dia na vida.

Depois do impasse (trágico) gerado por Jogo de cena – que impossibilita a epifania do sujeito – Coutinho, para reencontrar as mulheres do filme, quebrou o dispositivo de entrevistas e passou por outro circuito, inovador na sua obra: uma montagem de programas de TV a elas dirigidos e de que eram potenciais espectadoras. Isso penso eu, mas também pensava Coutinho, pelo menos numa conversa comigo, em que qualificou de “evidente” essa relação entre Jogo de cena e Um dia na vida.

Como o filme apresenta uma imagem simples (e simplificada) da obra, como Coutinho se mostra na sua fala cheio de vigor e energia, como o filme vem sendo apresentado após o falecimento, é provável que esta seja a imagem oficial que teremos do cineasta, pelo menos durante um bom tempo.

Uma pergunta permanece:  Pan-cinema permanente (Wally Salomão), cujo tema no fundo é o sujeito, era de uma complexidade que leva a estranhar a simplicidade de Eduardo Coutinho, 7 de outubro.

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h32
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20/02/2014

Cristiano Burlan, um relato de vida – 1

 
 

Cristiano Burlan, um relato de vida – 1

 

Entrevista realizada dia 30/01/14 na minha casa. Moro no Copan. Uma primeira tentativa feita na véspera não tinha funcionado por motivos ténicos.

 

JC – Continuemos, a pergunta inicial é essa , você nasceu, onde, em que família?

CB - Nasci em Porto Alegre em 1975, dia 21 de agosto, numa família de proletários da zona norte num bairro chamado Sarandi. Sou primogênito de uma família de 5 filhos, meu pai se chamava Vânio e minha mãe Isabel. Meu pai já faleceu e minha mãe também e um dos meus irmãos, Rafael, também morreu. Agora de uma família de sete somos em 4.

JC – Como era a vida em Porto Alegre?

CB - Sempre foi dura. Minha mãe era empregada doméstica e meu pai pedreiro, fazia serviços gerais. Muito cedo foi vitimado pelo alcoolismo e isso o tornou uma pessoa violenta e dura.

JC – Ele batia na sua mãe?

CB - É, um pouco sim, bastante na verdade. Mas ela reagia, porque ele era menor que ela, ele era baixinho e ela, uma mulher alta, então a porrada comia solta, desde muito jovem.

JC - Em você também?

CB – Pouco.

JC - Ontem, você disse que não suportava ver sua mãe humilhada, que humilhação?

CB - Na ultima fase da vida dela, quando morava em Uberlândia, eu me lembro de visitá-la e ela era empregada doméstica de algumas famílias ricas. Eu até te falei que uma dessas famílias eram os Naves [ref. ao filme O caso dos Irmãos Naves, de Person], ela era faxineira de um deles, eles pagavam mal, não só os Naves, as outras famílias também. Aquela sensação de perceber que sua mãe no final da vida, depois de uma vida tão sofrida, ainda tava limpando a merda dos outros e de pessoas insensíveis que pagavam pouco e a exploravam muito. Eu não sei se ela se sentia humilhada mas eu me sentia humilhado por ela. Ela precisava trabalhar, questão de sobrevivência, e a minha impotência de não poder mudar aquilo, a vida inteira percebendo isso.

JC – Voltamos a Porto Alegre: você ia à escola?

CB – Ia. Eu sempre fui bom aluno mas sempre achei que tive maus professores, tive poucos professores interessantes. Em Porto Alegre a escola era melhor. Em São Paulo, estudei numa escola pública no Capão Redondo, o nível era bem baixo. Eu terminei o  o 2º não terminei.

JC – Como você passa de Porto Alegre ao Capão Redondo, qual foi a trajetória?

CB – Depois de muita violência, minha mãe decide abandonar meu pai, ela foge para São Paulo. Meu pai vende nossa casa, casa com outra mulher que era alcoólatra também, fomos morar em Santa Catarina.

JC – Nesse momento já tem irmão?

CB – Sim. Éramos 3, eu, Rafael e Ricardo. Em São Paulo nasceram a Kelly, a menina, e o Tiago, meu irmão que hoje tá preso.

JC –Tiago é o mesmo nome do seu amigo?

CB – Sim, meu amigo que aparece na praia [em Mataram meu irmão]... Meu pai casa com essa nova esposa, me lembro até o nome dela – Sandra – era violenta, essa batia muito na gente, eu e meus irmãos passamos um ano apanhando. Minha mãe fica sabendo. Ela volta, meu pai manda a mulher embora, eles se casam de novo e viemos para São Paulo. Me lembro que essa viagem foi estranha, viajamos num caminhãozinho fechado, um baú, toda a família atrás.

JC – Porque isso?

CB – Porque não tinha dinheiro para o ônibus. Era uma mudança e a gente veio nesse caminhão baú. Chegamos aqui e fomos morar na Vila Joaniza, um quarto e cozinha onde morava meu tio. Passamos um mês lá, 15 pessoas dentro desse quarto e cozinha.

Depois meu pai conseguiu um trabalho na USP, lá ele conheceu um engenheiro que trabalhava na COHAB, e conseguiu um apartamento no Capão Redondo.

JC – Como ele conseguiu emprego na USP? O Capão Redondo não fica perto da USP.

CB – Um pouco até! É zona sul também. Um tio meu trabalhava no FUNDUSP , era amigo desse engenheiro, que era diretor de uma Fundação naPolitécnica, e aí muito rápido ele conseguiu trabalho e casa.

JC – Trabalho de quê?

CB – De eletricista.

JC – Ele bebia ainda?

CB – Bebia, sempre bebeu, a vida inteira. Parava quando entrava no AA (Alcoólicos Anônimos), mas era alguns meses só. Quando tinha recaída, voltava a beber com mais voracidade e ficava mais violento. Mas o problema do meu pai não era o álcool.

JC – Era o quê?

CB – Era uma tristeza profunda, frustração de não ter realizado as coisas que ele desejava, de que ele nunca me falou, mas tava no rosto dele. Aquela amargura das pessoas que não têm saída.

JC – O desejo de realizar o quê?

CB – Não sei, talvez ter sido um pai melhor, ter tido outra profissão. Os homens da minha família são... eu não sei se eles são border line, não sou especialista para definir isso, mas eles são sonhadores, têm aptidões, aprendem as coisas rápido, têm uma memória de elefante, têm uma sensibilidade extremada, e são todos loucos. Ou morrem de tristeza, ou morrem por morte matada ou morte morrida! É a sina dos homens da minha família. Eu tenho um pouco de medo disso. Quando entrevistei minha irmã para o documentário, ela falou dessa sina das mortes trágicas da nossa família. Ela olha para mim e pergunta: será que a gente vai ser assim também? Será que eu vou ser assim? Senti que ela tava perguntando para mim. Ás vezes eu sinto que meu fim também é trágico, uma morte bem bizarra. É meio soturno, mas é um pensamento que me acompanha há muitos anos.

JC – Todo dia?

CB – Todo dia.

JC – Voltemos ao Capão, os amigos, cê tinha que idade?

CB – Eu cheguei com 9 10 para anos, e saí de lá com 17.

JC – Bastante.

CB – 8 anos. Nós éramos uma turma de 12 – 10 morreram assassinados.

JC – Turma da escola?

CB – Turma da escola e de futebol ali do bairro. 10 morreram assassinados. Desses 10, 2 se tornaram bandidos e os outros 8 morreram por tar no lugar errado na hora errada ...

JC – Quem mata?

CB – A polícia. A polícia. Todos morreram pela arma da polícia e por uma polícia que acho a mais violenta, não tenho esses dados, mas deve ser uma das mais violentas do mundo, que é a ROTA. Tem até um clichê que se usava na época do Maluf: a ROTA atira primeiro, depois pergunta quem é. A propaganda do Maluf era essa. Se ele voltar ao poder, a ROTA vai para a rua. É um esquadrão de extermínio com legitimidade para matar. Isso existe até hoje, os números aparecem mas as pessoas se acostumaram. Ficou normal saber que as pessoas são assassinadas pela ROTA na periferia. São Paulo é uma cidade estranha pra mim, porque depois que eu atravessei o rio, parece que...

JC – Que rio?

CB – O rio Pinheiros , o rio Tietê.

JC – Ah, sim!

CB – As pessoas burguesas vivem dentro desse quadrilátero cercado por esses 2 rios.E toda a sujeira está fora desses rios. Na verdade eu acho que é o contrário, ela tá aqui dentro. Algumas pessoas dizem que você tem que ir pro trabalho de bicicleta. Como você vai falar para alguém que mora a 45 km do centro da cidade, uma cidade cheia de morros, que tem que deixar o carro ou o transporte público e ir trabalhar de bicicleta? É uma falta de consciência da geografia da cidade...

Foi uma infância muito violenta. Mesmo abordando a violência em alguns trabalhos meus, eu gostaria de não ter passado por isso. Isso deixa uma marca indelével.

JC – Qual é essa marca?

CB – Essa dor do imponderável, quando você percebe que as coisas têm finitude, o homem é um animal estranho, ele nasce sabendo que vai morrer e não pensa nisso. Quando você tem contato com a morte, tua perspectiva de vida muda. Eu não sei como é com as outras pessoas, comigo foi assim. Eu tinha 11 anos, tava jogando futebol com amigos numa quadra da escola e a ROTA chegou. Tinha um garoto fumando baseado e eles já chegaram agressivos e porque alguém falou alguma coisa, eles sacaram as armas e mataram 3 garotos na minha frente. Um deles era meu amigo e deram um tiro na cabeça. Foi extermínio. Foi a primeira vez que presenciei um assassinato. E parte do cérebro deles ficou na minha camiseta. Isso não passa impune, essa barbárie toda me deixou marcas.

Mas eu acho também impossível mensurar a dor. Você pode atravessar a rua e tropeçar numa pedra e isso pode te deixar uma dor mais profunda do que todas as tragédias que me acompanharam durante a vida. Todo mundo tem seus faros.

O que eu decidi por questão de sobrevivência – tenho forte instinto de sobrevivência –é que não faço o tipo suicida. Acho o suicídio legitimo, as pessoas que se suicidam são verdadeiros heróis, sou muito covarde para me suicidar. E para matar também. No filme que eu fiz sobre meu irmão, tem um momento que eu até editei, mas nunca usei. Pouca gente sabe disso, eu tentei matar os assassinos do meu irmão. Quando tinha 21 anos fui para a Legião Estrangeira. Meus tios do Sul me ensinaram – eu sei usar armas, – mesmo odiando e tendo paúra de violência – eu sei atirar com as duas mãos, sou bidestro, uma incongruência que tenho na minha personalidade.

Quando meu irmão foi assassinado, um amigo meu era traficante na região, fui até ele e ele me deu cocaína. Passei 2 semanas cheirando, com 2 armas na cintura e 2 caixas de balas – atrás dos caras. Descobri onde morava um deles.

JC – Qual?

CB – Eram 3, eram cupinchas de um policial da ROTA que comandava o tráfico da região, ele mandou matar meu irmão. Meu irmão tinha roubado um carro pra ele e queria receber pelo carro. Em vez de pagar, eles o mataram.

Passei uma noite inteira na frente da casa de um desses rapazes, esperando que ele saísse. Eu sei fazer coquetel molotov e outros explosivos caseiros. Eu tinha feito 4, é tática de guerrilha urbana, você joga fogo na casa, as pessoas saem com medo e você as mata. Fiquei a noite inteira cheirando, tava escondido no matagal e não tive coragem de meter fogo na casa. Lá pelas 5 da manhã, sai uma senhora com 3 crianças, indo para creche, assim meio piegas. Naquele momento descobri que não teria coragem de matar nem o cara, nem a mãe dele, nem as crianças ou qualquer coisa que rastejasse por ali. Aí voltei para casa, devolvi as armas pro cara e descobri que eu não era assassino.

JC – Você tinha que idade?

CB – Isso foi em 2001, quando meu irmão morreu, em outubro. Eu tinha 20 e... às vezes esqueço até minha idade. Passei por tanta coisa, que parece que vivi mais do que eu realmente... um pouco fantasiosa essa história...

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h22
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Cristiano Burlan, um relato de vida – 2

 
 

Cristiano Burlan, um relato de vida – 2

 

JC – Volte ao Capão, essa história da escola, como foi?

CB – Primeiro que as escolas na periferia têm sempre muitas grades e portões, quando você entra, as portas vão se fechando atrás de você. Quando pela primeira vez eu fui visitar meu irmão numa cadeia em São Paulo, eu tive a mesma sensação que tinha quando entrava na escola. Uma escola na periferia é sempre cinza, concreto, não tem cor nenhuma e parece que você está entrando numa cadeia. Não tem biblioteca nas escolas públicas, sempre tem alguns livros ali, restos que chegam, pelo menos na minha época, hoje não sei. Os professores iam ensinar meio forçados e não tinham interesse pelos alunos. Os alunos também não tinham interesse pelos professores. Assim pouca gente consegue se interessar pelos estudos. Muito cedo comecei a me interessar por literatura, música, teatro, cinema, por cinema principalmente, aí comecei a atravessar o rio para ir a Santo Amaro.

JC – Isso revela que você tem energia, isso não vem do seu meio, nem da escola. Como você foi se encaminhar para a literatura?

CB – Muita influência de um amigo meu, Thiago Luna Delena , meu ultimo amigo de infância, único que sobreviveu. Falo que é amigo por falta de opção. Ele cresceu numa família burguesa...

JC – Ele não é do Capão?

CB – A família empobreceu e foi morar no Capão. Mas o avô deixou toda a biblioteca pra ele, os grandes livros: Dostoievski, Guimarães Rosa... Leitura antes de mais nada é hábito. Em casa tinha poucos livros, o que tinha era gibi. Minha mãe era viciada em ler gibi no banheiro, então meu hábito pela leitura se inicia aí. Depois esse meu amigo começa a emprestar os livros dele, primeiro livros bobos – Coleção Vagalume, para criança – e depois os grandes clássicos da literatura, você não passa impune por esses lugares. Pode parecer piegas, mas era o que me afagava um pouco no meio de tanta violência, tristeza, solidão, um livro às vezes é um ótimo companheiro, uma maneira de sair daquele lugar. Eu lia o tempo todo, em casa, no ônibus –desenvolvi uma técnica para ler em pé, porque na época em que morava no Capão Redondo, o transporte era pior do que hoje, hoje é ruim – demorava 2-3 horas para ir de casa ao Centro, para o trabalho, lia muito em pé, esmagado no ônibus com livro na mão, não sei como não descolei a retina!

C – Quando você começou a trabalhar?

CB – Com 12 anos já trabalhava. Trabalhei muito em obras, na feira, vendi churrasquinho, vendi doces na USP. Eu estudava de manhã e à tarde ia pra USP. Meu pai conseguiu autorização e eu andava na Politécnica com uma caixinha de doces, daí fui para a FEA, atravessei a praça e acabei chegando na ECA, um novo mundo. Comecei a frequentar o Centro Acadêmico. Tinha mesa de sinuca, na periferia aprendi a jogar sinuca muito bem. Com 13 anos jogava a dinheiro com os alunos da Poli. Um dia estava na ECA e descobri uma Sala Preta, onde alunos de teatro mostravam experimentos de encenação, eu entrei. Tinha uma loira maravilhosa amarrada, pelada, perto da plateia, achei aquilo impressionante.

JC – Tinha o quê?

CB – Uma loira, uma atriz, uma mulher bonita, nua, pendurada, amarrada, aquilo me impressionou. Depois eu fui pesquisar – tem até uma revista chamada Sala Preta.

JC – E aí?

CB – Agora me perdi... vai ter que me fazer uma pergunta para retomar essa história.

JC – Ontem você comenretou mais as suas leituras, falou de um Centro Cultural que você passou a frequentar.

CB – Perto da biblioteca Robert Kennedy.

JC – Como você ia do Capão Redondo a Santo Amaro?

CB – Sempre sem dinheiro para o ônibus, tinha que passar por baixo.

JC – O Thiago também?

CB – Também. A gente andava sempre juntos.

JC – O que é passar por baixo dessa catraca?

CB – Uma humilhação. Aos 13 anos eu já tinha uma estatura e o ônibus sempre lotado, o cobrador deixava passar por baixo, era uma catraca muito baixa, e é humilhante rastejar ali debaixo da catraca. Ele deixava mas gritava bem alto: como um homem deste tamanho não tem dinheiro para pagar a passagem? E o ônibus inteiro olhava para você. Depois você desenvolve uma maneira de burlar isso, quando a porta do ônibus abre na frente,você sai correndo. Mas os motoristas são os mesmos e você acaba sendo visado e eles não abrem a porta, porque sabem que você não vai pagar .

Nós íamos até essa biblioteca, ela é muito vazia, tem um pé direito altíssimo. É um lugar fresco, agradável para se estar no meio daquela cacofonia toda da região sul, aquela violência toda. Eu me sentia quase numa igreja gótica, era um lugar tranquilo. Depois se perder pelos corredores e ter contato com as grandes obras da literatura mundial. Eu me revoltava quando me deparava com um livro e no cartão de retirada percebia que havia 10 anos  que ninguém o retirava, então eu o roubava, e depois de ler passava para outra pessoa. Não só na biblioteca, nas livrarias também, eu roubei muito livro, me sentia o próprio Robin Hood. Achava que roubar livro não era crime. Não sei se li a biblioteca inteira, mas boa parte, pelo menos o que era importante, não só uma vez mas duas, tenho hábito de reler, hábito que tenho com filmes também. Hoje em dia tenho mais tesão e prazer em rever um filme do que conhecer novos.

Do outro lado da biblioteca, tem a Casa de Cultura Santo Amaro, fica tudo na João Dias. É um antigo mercado. Comecei a fazer todos os cursos possíveis, principalmente de teatro. Dali acabei vindo para o Centro, comecei a frequentar o Teatro Municipal, pedia ingresso quando sobrava, assisti a algumas óperas, ouvi música clássica. Me lembro de Minhas Universidades do Gorki, ele diz que a universidade dele foi a rua, foi a vida. A minha foi um pouco isso também, eu me formei, eu me deformei na rua. Eu sempre me lembro dos personagens do Dickens, principalmente os de As Grandes Esperanças. Sempre me senti um excluído, à parte, mas isso nunca me limitou, me congelou, me impediu de fazer o que eu queria, de ir ao teatro e ao cinema. Eu entrei escondido em muitos casamentos.

JC – Por que tantos casamentos?

CB – Eu comprei um terninho num brechó, um paletó surrado, e todo sábado à noite, eu e meu amigo íamos para as portas de um bufê, conseguíamos entrar em quase todos. A gente bebia, se empolgava, beijávamos a noiva, cumprimentávamos o noivo... aí descobriam que não éramos convidados, fui expulso muitas vezes. Mas sábado à noite era o clássico, furar uma festa de casamento, comer e beber.

JC – No Municipal, o que você viu?

CB – Vi grandes óperas, pela primeira vez assisti a Madame Butterfly e Wagner. Eu tenho uma relação forte com Wagner.

JC – Por que?

CB – Fiquei impactado com Tannhäuser, eu assisti à trilogia há alguns anos. Acho que percebi em Wagner quase o cinema do século 19, como se fosse arte total. Depois fui estudar a obra dele. Como espectador, me impressionou esse domínio da mise en scène, a música faz parte do todo, mais o corpo, a voz, a conjunção das coisas, o ápice do drama... Pra mim é cinematográfico, quase. Como Bergman dizia, o teatro é minha morada, minha esposa, o cinema é minha amante. O meu grande desejo é dirigir ópera.

JC – E no teatro, quando conseguia entrar, sentava onde?

CB – Ah! De vez em quando conseguia algum lugar bom. Os porteiros do Municipal que me conheciam me deixavam entrar no foyer, lá em cima, dava uma tremenda dor no pescoço, olhando de cima, mas eu sempre achei muito bonito. O prédio do Teatro Municipal me atraia, acho um lugar mágico até hoje. Fui assistir este ano à Cavalaria Rusticana, não gosto da ópera inteira, eu gosto do intermezzo. A ária da abertura de Retôro Indomável do Scorsese é uma das mais bonitas.

JC – E na Kennedy, você chegou a ler sobre cinema?

CB – Sim, encontrei até livros seus... Me lembro de ter ficado muito curioso ao ler a biografia de Jean Vigo de Paulo Emilio. Notas Cinematográficas [Bresson], a 1ª vez que li foi na Kennedy, e outros! Mas não existe uma bibliografia potente de cinema, cê tem que garimpar... O que é cinema de Bazin. Encontrei criticas da Cahiers du Cinéma. Teve uma época que até pensei que queria ser critico de cinema. Os textos da Cahiers parecem alta literatura, deveriam ser escritores e não escrever sobre o filme dos outros.

JC – Você lia em francês?

CB – Não! Tinha traduções, alguns textos do Truffaut – “Uma certa tendência do cinema francês” –, eu li em português, se não me engano, é quase o inicio da Nouvelle Vague. Eu li em português, mas eu já li em francês, tenho muitos livros em francês. Estudei na Aliança Francesa aqui no Centro.

JC – Como você conseguiu sem ter formação escolar?

CB – Fiz o curso livre, um curso de férias.

JC – Pago?

CB – Pago.

JC – Como pagou?

CB – Eu já tava trabalhando, comecei a fazer teatro profissional na Companhia Arte Degenerada. Conheci alguns restaurantes que aceitavam atores, como o Spot, o Ritz.

JC – Como garçom?

GB – Sim. Comecei a ganhar um pouco de dinheiro, consegui me sustentar, morar melhor, pagar as contas, comecei a me arranjar muito com o teatro. Meu debut profissional foi aos 17 anos com Osmar Prado, eu era contrarregra. Fiquei impactado porque era um monólogo do Dario Fó, direção do Roberto Vignati, tinha 18 personagens e o Osmar fazia os 18. Eu me lembro que ele sofria antes de entrar em cena, um ator stanilasquiano, à la Jardel Filho. Até o 3º sinal ele tava na coxia suando, e quando entrava na luz, era um ator magnífico, quando ele saia, sofria, quando voltava para a luz, parecia quase um deus. Eu acabei viajando quase o país inteiro com essa peça, conheci tudo quanto é teatro. A prática foi a minha escola.

JC – Por que você não virou bandido?

CB – Porque acho que sou muito romântico. Eu tive várias possibilidades, vários amigos meus viraram traficantes, bandidos.

JC – Que possibilidades?

CB – Ás vezes você está numa situação ruim, tá vendo sua família passar necessidade, cê tem outros desejos. É assim: cê tá sempre nos botequins jogando sinuca, tomando cerveja, dando um tiro no barzinho, cheirando. Na época o crack não tava ainda em voga, era cocaína, álcool e maconha. Aí chega alguém que fala: tem uma fita numa boutique no Itaim, ou vamos assaltar um banco, precisa de um olheiro. E o que eles te oferecem em grana, é muito alto. Mas você pode morrer. Eu tinha um forte apego pela vida, alguns amigos morreram nessas situações, acho que talvez medo.

JC – Nenhuma vez você aceitou?

CB - Não roubei só chocolate no mercado! Cometi alguns delitos, mas é apavorante quando você tem uma arma na mão e você vê o pavor no rosto de uma pessoa.

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h20
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Cristiano Burlan, um relato de vida – 3

 
 

Cristiano Burlan, um relato de vida – 3

 

JC – Você chegou a essa situação?

CB – Cheguei, me senti um lixo. Outra vez, foi quando agredi um garoto na escola, ele quebrou o nariz, saiu sangue, isso me machucou muito. Outra vez, ver uma pessoa congelada, apavorada, quando você aponta a arma para ela. Eu acho que é um clic, você tem medo de matar alguém, você não tem coragem e de repente você mata e isso vira um hábito.

JC – Essas ações ocorriam onde?

CB – Itaim, boutique, padaria, essas coisas. Várias vezes eu quase morri, isso para não dizer que vi o Diabo três vezes na minha frente e mandei um dedão pra ele. Mas eu não tenho orgulho disso, eu queria não ter passado por essas histórias. É tão pesado, tão trágico e dolorido o que aconteceu comigo, com minha família e com meus amigos, que para mim parece que é uma ficção, barata até, muito inventada. Se eu fizesse um documentário contando minha história realmente, as pessoas iam achar que sou louco, que parece um romance.

JC – Dá um exemplo.

CB – Esse exemplo que tentei matá-los. Uma vez a gente tava num lugar, a ROTA chegou e matou todo mundo. Eu me fingi de morto para não ser assassinado também, no meio de 5 ou 6 corpos. Levei um tiro de raspão. As pessoas não acreditam nisso, acham que é mentira. Então eu começo a achar que é mentira, que foi inventado, sou um pouco hiperbólico, um pouquinho exagerado. Essas coisas que aconteceram na minha vida eu diminuo um pouco da verdade quando eu conto, pois as pessoas não acreditariam.

JC – Você tem tendência a fantasiar?

CB – Acontece, mas ao contrário, se realmente fosse dar vazão a isso, ia parecer mentira, eu tenho que diminuir a veracidade da história. Tem um filme bobo: Peixe Grande do Tim Burton. Esse personagem passou por muita coisa e quando ele morre, aparecem no enterro todos os personagens que ele falou durante a vida e as pessoas achavam que ele era mentiroso.

JC – Quando você conta uma história e diminui, isso não gera uma grande solidão?

CB – Onde li isso? São duas frases que não me saem da cabeça: você nasce, vive e morre sozinho, quanto mais cedo você aceitar isso, menos vai sofrer. A outra é de Ivan Turgueniev em Pai e Filho: um homem fala para outro: seu sobrinho é um niilista. Eu não sabia o que significava e fui descobrir e me impactou.

JC – Como você vê esse niilismo?

CB – Não sei se é uma regra geral, para mim funciona assim: na periferia você deixa de ser ingênuo muito rápido, quando você tem contato com essa bandidagem toda, essa violência, aí eu perdi uma coisa que tô tentando resgatar, que é uma certa inocência. Se você não tem uma inocência em relação às coisas, você se torna um cínico. Hoje quando tô bêbado no boteco, para parecer inteligente com a turma do cinema, falo que sou niilista, iconoclasta, agnóstico e corintiano. Na verdade o que queria é ter fé nas coisas, não sei em quê, voltar a ter uma certa inocência que me tiraram muito cedo. É uma das grandes agressões que se faz a uma criança. Quando perde a inocência, ela deixa de viver boa parte da vida dela e aquilo cria um vazio muito grande dentro, pode ser psicologismo barato, mas parece que está sempre faltando alguma coisa, no trabalho ou nas relações pessoais. Não sei me relacionar, eu reajo muito mal. Sei reagir à violência, a situações limítrofes, sei reagir porque já passei por isso, não me dá medo nenhum. Agora com carinho, amor, reajo mal.

JC – Mas embaixo, no Bar da Dona Onça [restaurante que fica no Copan] você se relaciona bem.

CB – Em publico! No privado é outra questão. No boteco todo mundo é legal, o álcool deixa todo mundo mais interessante.

JC – Por que de vez em quando você diz que suas explicações são de um psicologismo barato?

CB – A palavra limita as coisas. Eu não consigo dar forma ao que eu sinto, essa sensação mais primitiva. No papel a palavra pode ter essa potência maior, mas quando ela brota da boca, ela encerra, não abre, não é rizomática.

JC – Como você vive o fato de seu filme Mataram meu irmão ter um indiscutível sucesso? Você ganhou É Tudo Verdade e agora é candidato ao prêmio Governador do Estado. Como você reage ao sucesso do filme baseado na morte de seu irmão?

CB –Tem um outro filme sobre uma moça realizado pela irmã dela. O filme é muito criticado e eu não consigo me excluir disso. Eu usei a morte de meu irmão para fazer um filme. Eu preferia não ter feito. Eu acho que tô pagando um preço alto por isso.

JC – Que preço?

CB – Parece que quanto mais você tenta se aproximar das coisas que realmente você quer entender...

JC – Que coisas?

CB – As coisas mais profundas do ser humano, o que te move, o que te congela, parece que quanto mais você tenta, mais se afasta. Não fui fazer terapia, não é uma resiliência, não é uma sublimação freudiana. Realmente eu quis fazer um filme, quis fazer cinema, por acaso uma coisa que estava próxima de mim, assassinaram meu irmão, uma coisa forte. Eu tive que me distanciar durante o processo de realização, mas ao mesmo tempo, quanto mais me distanciava, mais próximo dele eu me tornava.

Você viu o filme uma semana antes dele ser projetado publicamente pela primeira vez no Rio de Janeiro. Até então eu tava assombrado pelo final do filme e você me falou uma coisa que me marcou. Eu tinha dúvidas se eu deveria ter colocado fotos do meu irmão extraídas dos autos do processo, e você falou: aquele é o momento mais poético, seu irmão parece um Cristo crucificado, você o purifica naquelas fotos. Suas palavras me suscitaram uma serenidade tremenda, eu consegui lidar melhor com isso.

Ao mesmo tempo, como cineasta, eu entrei num lugar a que não tava acostumado, nem sei lidar com isso. Tudo o que realizei até hoje foi mal recebido, primeiro pela indiferença, que é muito cruel, e depois por ataques ferozes de alguns críticos. Mas os ataques não me abalaram tanto, o que mais me abala é a indiferença. Porque num país onde boa parte da produção cinematográfica depende de fomento público, não só eu como mais algumas pessoas conseguem com seus últimos tostões, por paixão, realizar alguns filmes. Claro, isto não deveria ser analisado, o que importa são os filmes.

JC – Deve ser analisado SIM! Temos que pensar as formas de produção.

CB – Você tá falando que os meios que você tem para produzir afetam diretamente a obra?

JC – Claro. A mentalidade de um cineasta que produz com dinheiro incentivado é diferente daquele que produz sem dinheiro incentivado, é uma outra cabeça.

CB – É , isso nunca foi citado pelos críticos.

JC –Mataram tem dinheiro incentivado? O Sinfonia?

CB – Não tem. Eu fiz 15 filmes, vou fazer o 6º longa. Só fiz um curta com dinheiro público, há dois anos, do Edson Loduque. Todos os outros foi dinheiro do próprio bolso e trabalho voluntário dos amigos que acreditam nas minhas ideias.

JC – Queria voltar para trás! Acho que uma pessoa importante nessa história é o Thiago. Como ele evolui?

 

CB – Não evoluiu, ele se resignou! [...] É uma das pessoas mais talentosas que já conheci.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h18
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Cristiano Burlan, um relato de vida – 4

 
 

Cristiano Burlan, um relato de vida – 4

 

JC – O que ele faz?

CB – Ele estudou jornalismo. Ele não tinha o 2º grau completo, comprou o diploma para fazer o vestibular. Ele se formou, com louvor até. Trabalhou em São Paulo e agora ele voltou para a Paraíba, Campina Grande. A família dele é de lá e de Pernambuco. Casou e leva uma vida aparentemente tranquila mas é uma pessoa transtornada por tudo o que passou, assim como eu. [...] É um grande amigo, sempre me coloca num lugar que não deixa cair no conforto, como essa agora de ganhar o prêmio...

JC – Vocês comentaram o sucesso do filme?

CB – Eu o levei pro Rio, o É tudo verdade colocou a gente num lugar confortável. Ele saiu à noite, às 4 da manhã o porteiro avisa: seu amigo tá aqui com 4 putas e um traficante, querendo subir. Desci e resolvi. Ele subiu, falou: 2º não me dê lição de moral que lhe conheço muito bem; 2º se não fosse minha entrevista o seu longa que ganhou o prêmio seria um curta. Aí eu me calei!

Eu sei que ele poderia fazer qualquer coisa e seria brilhante. Mas ele é autodestrutivo! Completamente autodestrutivo, eu sou assim também, todos os homens da minha família são assim. Eu tento controlar esse animal selvagem, esse animal selvagem que está dentro de mim e me acompanha sempre. Eu não posso relaxar um segundo, senão já teria morrido.

JC – Que tipo de autodestruição?

JC – Física e mental. Às vezes a vida pesa! É que eu gosto da vida, mas ela pesa...

JC – Praticar que ações?

CB – O próprio suicídio de repente. Como esse meu amigo fala, quando você nasce nesse lugar, dá uma raiva das coisas, ta ali em você. Tá sempre prestes a explodir. Você vê a vida, parece que ta tranquilo, mas as coisas por dentro tão podres, tão fora do eixo. É difícil encontrar poesia e beleza nessas coisas, no feio, é fácil encontrar no belo, óbvio. Tem que ter um olhar generoso para encontrar poesia e beleza nessa sujeira toda.

JC – Você está com raiva de estar aqui nesse momento, no centro da cidade nesse puta prédio?

CB – Às vezes. Quando estou jantando no Dona Onça, eu me lembro de pessoas próximas, como meu irmão que tá preso na cela com 40, às vezes come comida estragada e é torturado lá dentro, sempre me passa pela cabeça.  Como conviver com isso?

Ele me liga lá de dentro. De vez em quando mando dinheiro.

JC – Ele foi preso onde?

CB – Em São Paulo. Dos 14 aos 18 ele ficou na Febem – 18 e uma semana foi pro primeiro presídio. Aí ele conseguiu um advogado e foi solto. Chegou a Uberlândia, foi preso de novo, na casa da minha mãe. Ela durante 2 anos conseguiu enxergar o presídio onde o filho tava preso. Ele foi solto e um dia ele me ligou, falou: tô preso aqui em Cuiabá. Quando recebo uma mensagem ou uma ligação de lá, minha sensação é que eles vão me avisar que ele morreu. É o meu maior medo, não sei se consigo... outra morte, isso me assombra.

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h14
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Cristiano Burlan, um relato de vida – 5

 
 

Cristiano Burlan, um relato de vida – 5

 

 JC – Como sua mãe foi para Uberlândia?

CB – Morávamos no Capão Redondo, meu pai batia muito nela, bebia, mal sustentava a casa. Tinha um borracheiro em frente, onde eu fazia bicos. Fiquei amigo dele. Ele tinha um parente em Uberlândia. Ele e minha mãe começaram a ter um caso e ela fugiu com ele, me avisou, eu nunca julguei minha mãe por isso, ele a tratava muito bem e ela acabou indo para Uberlândia.

Bom, meu pai foi e voltou a casar com ela. Ele morreu em Uberlândia, está enterrado lá. [...]. Um dia recebo uma ligação de minha irmã, minha mãe tinha um namorado, uma pessoa estranha. Em 2010 passei o Natal com ela. Voltei, fiz o Sinfonia [de um homem só]. Uma semana depois de terminar o filme, minha irmã me liga dizendo que ela foi assassinada pelo namorado, um homem soturno, ciumento. Ele a enforcou com um fio. Minha grande crise agora é se eu faço um filme sobre isso ou não. E a coisa mais sinistra é que talvez eu faça e com dinheiro púbico ainda, pela 1ª vez. Fico me perguntando: depois de falar de todas as mortes da minha família, vou falar sobre o quê?

Fiz o Amador porque eu precisava me afastar. Agora vou fazer o Hamlet, talvez eu queira falar sobre coisas não tão duras para mim, falar sobre o próprio cinema ou sobre o teatro, sobre minhas paixões, são mais tranquilas, relax. Ao mesmo tempo tá sendo um aprendizado. Será que é possível realizar alguma coisa onde você não se coloca na 1ª pessoa, será que é possível fazer cinema se sua câmera não for uma via de mão dupla? É possível filmar um rosto se ele não te comove? Ou uma paisagem ou uma parede branca que seja. Acho que tou em crise com o cinema, nunca tive, mas acho que essa crise é boa.

JC – Várias vezes sua mãe fugiu da violência do seu pai. Por que você nunca a acompanhou?

CB – Porque minha mãe era mais forte que meu pai e eu sempre soube que meu pai ia ter um fim trágico também, como aconteceu. Meu pai ficou aqui em São Paulo e São Paulo é a minha cidade e tenho uma relação de amor e ódio com essa cidade. Já tentei ir para outros lugares. Já perdi muita coisa aqui e já ganhei também.

Minha mãe foi a pessoa mais importante que tive na vida, mesmo sabendo que sou adotivo, mas isso não me importa mais. Era uma mulher lindíssima, um ser humano incrível, o pouco de amor e carinho que tenho pelas pessoas, pelas coisas, foi ela que me passou, ela que plantou em mim. Se estou vivo aqui hoje, eu devo a ela. Uma pessoa muito amorosa.

JC – Quando vocês estavam em Santa Catarina, você se comunicava com ela?

CB – Não. Eu nunca briguei com minha mãe, eu nunca tive um atrito, nunca. Ela era minha amiga. Quando ela vinha a São Paulo, a gente saia para jantar, ia ao cinema, ela adorava essas coisas. No Copan [CB morou um tempo no Copan] ela me visitou em 2010. Sinto falta dela. Ela sofreu muito. Por mais que tenha tido uma morte violenta, eu percebo a morte dela como um alivio, por que nenhum ser humano merece ter uma vida tão miserável como ela teve.

E aí, esse silêncio sepulcral?

JC – Vamos acabar aqui?

CB – Vamos, tá ótimo. – Não falei da Legião Estrangeira!

JC – Verdade, continuamos.

CB – Eu trabalhei num restaurante durante um ano em 2 períodos, estava decidido a ir pra Europa. Queria ser ator na Europa. Não fazia nada na vida, só trabalhava e guardava dinheiro e consegui. Em Barcelona me apaixonei por uma marroquina maravilhosa de cintura fina e bunda grande, melhor amante que tive na vida. Ela fugiu de mim e foi para Tanger. Fui atrás dela e fiquei um pouco lá. A família dela era meio bandida e me convidou a me retirar do Marrocos. Precisei fugir. Com essas viagens todas, minhas economias acabaram. Eu não consegui fazer teatro, me juntei a um grupo que fazia super 8 e filmamos muita coisa, tudo se perdeu.

JC – No Marrocos?

CB – Em Barcelona. Depois fui a Madri, dei uma volta pela Europa, e voltei a Barcelona, onde tinha uns amigos. O dinheiro acabou e meu amigo voltou para o Brasil. Fui para Madri, dormi uma semana na rua, passei fome, mas eu passei fome também em São Paulo. Volto a Barcelona. Consigo um trabalhinho e conheço um brasileiro que estava indo para a Legião Estrangeira. Ele me falou que lá tinha comida, moradia. Pegamos um ônibus para Perpignan, nos Pirineus, me alistei. De lá me levaram para Aubagne, a 15 km de Marselha. Fiquei 2 meses, foi difícil sair de lá porque se eles te mandavam embora, você recebia 100 francos e se pedisse para sair era 50 francos. Eu recebi treinamento militar, mas não me tornei legionário, são 6 meses para se tornar legionário. O que é a Legião Estrangeira? É parte do exército francês que contrata mercenários, muita gente da Europa e do mundo vai para lá. A 1ª pergunta que te fazem: já matou alguém? Porque aqui não tem problema, a gente aceita você, só tem que informar se você matou alguém no seu país, senão a gente descobre pela Interpol.

Tinha aquela aura romântica da Legião. Me lembro de ter lido Diário de um ladrão de Jean Genet, onde ele conta a experiência dele na Legião, foi para Djibuti na África. Mas a Legião não é tão romântica. Descobri quando cheguei lá. Você estuda francês, leva porrada, acordam você às 3 da manhã num frio danado. Bom, recebi treinamento de soldado, foi uma experiência interessante, bizarra, parece que foi um pesadelo. Mas eu fui legionário, fui soldado na França.

JC – Isso ocorreu quando?

CB – Em 97.

CB – Quando saí da Legião, eles me deixaram em Marselha com dinheiro. Fiquei 3 noites na noite de Marselha, que é maravilhosa. Eu quase fui trabalhar com córsegos. Na Legião fiz amizade com um córsego, o tio dele era mafioso na Córsega. Você é brasileiro, é bom soldado, atira bem – vamos trabalhar pro meu tio! E quase fui parar na Máfia da Córsega. De novo a marginalidade me chamava, mas eu sou romântico para ser bandido. Eu poderia ter ficado na Europa, me tornado um bandido mafioso, claro, ia ser “capo” como eles falam – soldado raso, porque nessas máfias, você tem que ser da família e do lugar. Mas foi uma experiência estranha, no mínimo bizarra. Quando eu conto, as pessoas acham que é mentira.

JC – E não é mentira?

CB – Não é mentira, tanto que eu tenho documentação que fui legionário... Não fui para Córsega, fiquei 3 dias em Marselha, gastei meu dinheiro com mulheres, drogas e bebidas. Quando eu tinha 21 anos, era insuportável, arrogante, queria engolir o mundo. Se falassem não para mim, era sim. Tudo o que eu tinha vontade eu fazia. Diferentemente dos meus amigos do Capão, que entravam na bandidagem e usavam a força, eu tinha uma lábia tremenda. Só para você ter uma ideia, quando voltei a Barcelona eu decidi ser jogador de futebol. Fui até o Atlético de Madri, ofereci meu passe para o presidente – consegui uma reunião com o presidente – fui até Maiorca, o que não deu certo, fui para Palma, peguei um navio, lá arranjei um trabalho, tentei jogar futebol, não consegui. Trabalhei no porto, limpando casco de iates. Depois descobri que talvez a Europa não fosse meu lugar e voltei a Barcelona, comprei uma passagem de volta e retornei ao Brasil.

JC – Você consegue dinheiro com facilidade.

CB – Consigo, sou trabalhador, eu consigo trabalho com facilidade, trabalho bem, sou dedicado, obsessivo, aí consigo pagar as contas.

JC – Volte um pouco para trás, você tinha 21 anos e não suportava um não. Acho que grande parte da violência juvenil da periferia é de jovens que não suportam o não, e por um não qualquer podem matar.

CB – Ou morrer.

JC – Ou morrer. Fale do não.

CB – Primeiro cê tem a sensação que você já é um não. Você não tem direito a uma boa alimentação, não tem direito a uma roupa bonita, a uma boa educação, a uma casa confortável. Então o não faz parte de sua personalidade. E vivendo essas situações limítrofes, contato com violência e morte, isso te deixa um pouco audacioso. Tua família já tá fodida, tua família já morreu, cê acha que não vai chegar a lugar algum, cê não tem mais nada a perder, foda-se tudo isso! Então não me venha com não se eu acho que é sim, eu vou lá e faço! Eu não pergunto, eu faço primeiro, porque sei que o não já está dado para mim, entendeu?

Você perde o medo das coisas, isso é perigoso. Meu irmão era assim, muito mais do que eu. Aí você tem contato com essas situações perigosas do dia-a-dia, quando você vai de embate a elas, você fica inconsequente, mas essa inconsequência vem dessa relação – foda-se, não tenho mais nada a perder. Vou ficar aqui esperando as coisas acontecerem, para quê? E como parece que sempre te roubaram alguma coisa, o roubo tem um pouco a ver com isso. Eu aproximo o cinema do crime, fazer filmes é um ato criminoso, eu me sinto no direito de pegar o que é meu, o que me foi tirado, você nasce com isso. Uma falha de caráter? Talvez seja, mas você nasce com isso.

JC – O que é uma falha de caráter?

CB – Isso de você subtrair alguma coisa que não é sua, é de outra pessoa! Mas a primeira coisa óbvia nesse país são as diferenças sociais, é um país onde pouca gente tem muito e muita gente tem pouco e essa conta não bate. Uma hora o morro vai descer no asfalto e isso já tá acontecendo, as pessoas não falam disso, mas estamos à beira de uma guerra civil. As pessoas não querem perceber, os sintomas são fortes, é possível que essa eclosão venha.

É só o nosso governador do PSDB, neonazista, liberar a polícia para meter bala, isso vai acontecer. Numa manifestação dessas, se a polícia de choque tem a ordem do governador: reaja á bala porque eles estão batendo em vocês – vai morrer muita gente e quando morre muita gente, se precisa de um mártir, entendeu? Tou sendo radical, mas falta um mártir!

Vivemos uma pré-guerra civil. Eu percebo isso nas ruas, não ando de carro, eu tou incluído na corrente sanguínea da cidade pelos dois lados, daqui e do outro lado do rio. A insatisfação é geral. Quando a massa se junta, você não tem controle. Cada vez mais essas pessoas estão nos shoppings, nessas casas neoclássicas cercadas por muros e câmeras de segurança, como se isso segurasse alguma coisa, não segura. À hora que o morro descer, vem como uma onda, não tem líder, isto é o pior. Pode ter até pensamentos políticos e ideológicos, mas na hora que a histeria toma conta, não tem líder, aí é barbárie. Agora foi! Falei muita bobagem?

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h13
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13/02/2014

Quando eu era vivo

 
 

Quando eu era vivo

Mesmo sem trabalhar cansa.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 17h37
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