05/02/2010
Os Inquilinos
Eu ainda não assisti a OS INQUILINOS.
Eduardo Escorel comenta o filme de Sérgio Bianchi na Piauí 40. Ele conclui: “É a atitude de quem julga os seres humanos de um posto de observação distante, como se não fizesse parte do mundo que contempla”.
A mesma afirmação pode ser feita a respeito de CRONICAMENTE INVIÁVEL. O olho que julga encontra-se fora do universo julgado, e este não tem acesso ao olho que julga.
O filme em que Sérgio Bianchi quebrou essa postura é MATO ELES?
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h27
20/01/2010
Roberto Moreira fala da indústria cinematográfica no Brasil
A Companhia das Letras lançou recentemente a segunda edição de meu livro CINEMA BRASILEIRO: PROPOSTAS PARA UMA HISTÓRIA. Se tivesse dado tempo, eu teria incluído nos anexos o discurso pronunciado por Roberto Moreira quando tomou posse no cargo de presidente do sindicato dos produtores – Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo (Siaesp) – a 15 de dezembro de 2009.
Discurso de posse
Antes de mais nada queria fazer uma menção à gestão do André Sturm, que infelizmente não pode estar presente hoje. Ele está me entregando um sindicato forte politicamente, financeiramente saudável e gestor de um programa de sucesso como o Cinema do Brasil. Não é pouco.
Mas quais os desafios do futuro? Nos meus 25 anos de militancia no audiovisual brasileiro, acho que nunca vivi um momento tão paradoxal.
De um lado temos todas as condições macro-econômicas para dar um grande salto industrial na nossa produção. Pela primeira vez, estamos num ambiente econômico estável, com taxas de juros declinantes, pré-condição para um investimento de alto risco e amortização lenta como o cinema. O fenômeno da integração na classe média de grandes contingentes da população também cria a expectativa de uma rápida expansão do gasto com entretenimento. Por fim, contamos com vários mecanismos de investimento e um compromisso claro das diversas esferas de governo com o sucesso do audiovisual brasileiro.
Por outro lado, no dia a dia da produção, enfrentamos problemas estruturais de difícil solução. Nossos custos são altos, o que mina a competitividade do nosso mercado de prestação de serviços de produção e dificulta muito fechar o financiamento de um produto. As empresas também não conseguem realizar um planejamento estratégico, reféns que estão de diretores de marketing e comissões de seleção. Por fim, e mais letal, o processo de captação é lento e fragmentado, o que inviabiliza financeiramente as produtoras e as torna eternamente descapitalizadas, lutando para levantar recursos mês a mês.
É preciso que a atividade produtiva seja incentivada e valorizada. Somos o elo mais fraco da cadeia. No caso do cinema, o exibidor tem sua renda, ainda que pequena, garantida. O distribuidor ganha no volume. Já o produtor aposta seu futuro a cada filme. No caso da TV, as emissoras geralmente pagam pouco, quando não pedem para você pagar o espaço de veiculação. Responsável pela qualidade dos produtos em torno dos quais gira toda a indústria, o produtor é o primeiro a investir tempo e dinheiro num projeto, e o último a ser remunerado, sendo que só excepcionalmente consegue aferir algum resultado.
Como fortalecer o nosso setor? Como nos preparar para essa nova realidade econômica que está chegando? E como o Sindicato pode ajudar nesse processo?
Uma primeira missão é compreender a realidade econômica de nossa atividade. Infelizmente temos poucos dados e quase nenhuma análise. Precisamos produzir conhecimento sobre a economia do audiovisual. Nesse sentido, já começamos uma série de pesquisas que virão pautar as iniciativas dessa diretoria. Temos que superar os achismos e discutir políticas públicas em cima de dados e da realidade econômica da atividade.
Urge desenhar mecanismos de financiamento que capitalizem as produtoras e lhes deem a chance de efetivamente tomar decisões de investimento e de planejamento a longo prazo. A discussão desses mecanismos será uma das prioridades desta gestão. O produtor tem que ser uma agente econômico com voz ativa e capacidade de investimento, não um mero "captador".
Por fim, teremos que fazer uma grande mudança cultural, principalmente no caso do cinema. 35 anos de paternalismo estatal geraram um setor pouco preparado para os rigores do mercado. Cada vez mais o cinema deixará de ser visto como uma ocasião de expressão pessoal, para se tornar produto negociado num mercado. Esta transição é inevitável se queremos de fato consolidar uma indústria do audiovisual.
Só que nesse processo não podemos sacrificar a diversidade. Todo filme é, ao mesmo tempo, obra de arte e mercadoria. Uma cinematografia forte precisa valorizar essas duas dimensões e respeitar suas características. O mercado cinematográfico é segmentado e diferencia o chamado "filme de arte" daquele com grande potencial comercial. No entanto, nossos mecanismos de financiamento ignoram essas diferenças e vivemos uma situação um pouco esquizofrênica, na qual o filme de arte é cobrado pelo seu público pequeno e o filme comercial é produzido a fundo perdido, sem nenhum risco. Colocar ordem na casa vai deixar os dois setores mais fortes.
Mas não são só os produtores que vão ter que mudar de atitude. Também o Estado vai ter que mudar. Se nossos gestores querem que a atividade econômica aconteça com pujança, vão ter que dar dois passos atrás e conferir maior liberdade aos agentes econômicos. Paternalismo e empreendedorismo não combinam.
Este é um discurso otimista, mas queria finalizar lembrando que, entre os gabinetes e a dura realidade do dia-a-dia da cultura, existe um abismo radical. Já vivemos vários sonhos grandiosos que fracassaram - basta lembrar da Vera Cruz e da Embrafilme. Mesmo a Lei do Audiovisual, na época, ia ser uma revolução ...
Porque desta vez será diferente? Acho saudável esse sentimento de doce-amargo. Talvez tenha chegado a hora da minha geração fracassar e confirmar a sina do cinema brasileiro. Mas acho que podemos mudar essa história. Como disse a mãe do Lula, "Teima, meu filho. Teima!" As mudanças dependem em boa parte das pessoas reunidas nesta sala, e quero crer que todas as condições estão dadas para colocarmos o cinema brasileiro num novo patamar. Obrigado.
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h32
18/01/2010
Corumbiara
Corumbiara
CORUMBIARA de Vincent Carelli é um filme militante. Hoje em dia, até parece palavrão. Ele foi feito para denunciar um massacre de índios ocorrido em meados dos anos 1980. Ele apresenta indícios, vestígios que possam comprovar o massacre. Ele se compõe de materiais filmados no decorrer de vinte anos, é um projeto que Carelli perseguiu durante 20 anos, é um projeto de vida. Durante essas duas décadas foram flagradas situações e momentos extraordinários. Cito alguns: o encontro com dois sobreviventes, a busca dos sobreviventes por outros sobreviventes, o confronto com fazendeiros (câmera oculta), intervenções da Polícia Federal, a descoberta dos “buracos” cavados na terra servindo de esconderijo, a descoberta do índio solitário traumatizado que não suporta a aproximação de brancos. Estes não são fatos relatados, mas momentos preciosos e únicos que a câmera conseguiu captar.
Embora com preocupações alheias às que motivaram grandes filmes brasileiros recentes (como Serras da Desordem, Santiago, Jogo de Cena, Pan-Cinema Permanente), ele entra no coro das obras que discutem o relato de vida, a palavra, a história, a representação, a narração etc. Só que ele entra por uma via inesperada no quadro da filmografia citada.
Já que não se conseguiu reunir provas que atestem o massacre, pois as provas foram destruídas, já que não há como incriminar os culpados e levá-los aos tribunais, o que se impõe é CONTAR A HISTÓRIA. Contar a história e torná-la pública com veemência substitui uma ação concreta e necessária mas impossível nas atuais condições sociais e políticas. CORUMBIARA não testemunha, mas age. Contar a história é uma ação que denuncia o massacre a sociedade. Contar é agir.
A questão da imagem, do narrar a história está visceralmente integrada a este filme militante. Basta relatar o seguinte episódio:
A aproximação do índio solitário refratário a qualquer contato com brancos é feita por duas pessoas:um indegenista conhecido como Alemão, e o próprio cineasta Vincent Carelli. O índio flecha. Isto a câmera flagrou. Carelli explica que o índio não flechou o Alemão, mas ele, Carelli, porque ele segurava a câmera.
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h04
09/12/2009
O milho – 8
Nas crônicas O milho 5 e 6, sugeri que no pensamento de Marx e no de Engels despontava a ideia de um sistema que, embora manipulado por homens, dava a impressão de se reger autonomamente e de utilizar os homens para seus fins próprios.
O escritor Émile Zola (1840-1902) sonhou com um sistema que pertence à mesma família. Ele sabia que o escritor não podia desaparecer, mas buscava uma forma narrativa que desse a impressão que o romancista tinha sumido ou não existia. Zola imaginava o romance realista e naturalista como a realidade vista pelo escritor através de uma tela ou de um ecran (a ideia de ecran como superficie de projeção veio mais tarde). O ecran é a personalidade do escritor, o seu temperamento como ele preferia dizer. Em 1864 Zola escreve: “O ecran realista nega a sua própria existência”, ou seja o autor nega a sua própria existência. Apesar de o escritor estar sempre aí com o seu temperamento, sonha-se com a obra impessoal. O romancista naturalista tenta o impossível eclipse: “a partir do momento em que põe um personagem em cena, [o romancista] deixa que ele se encarregue de apresentar-se ao público, vivendo a céu aberto, naturalmente, e evita que se vejam seus dedos de autor manipulando os cordéis” (1869). De Flaubert, o romancista que mais admirava, Zola escreveu que ele tornou o romance “uma obra de arte harmônica, impessoal, que vive de sua própria beleza” (1875).
O romancista naturalista é um pesquisador, ele reune farto material sobre o meio social, as situações e os personagens de que tratará o romance, então poderá acontecer o milagre: “e, uma vez levantados os documentos, seu romance, como eu já disse, se estabelecerá por conta própria” (1878).
O romance sem autor, o romance se escreveria sozinho, pura expressão da realidade. Encontraremos outras narrativas que alimentaram o mesmo fantasma.
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h10
08/12/2009
Eduardo Coutinho & Tata Amaral
O último trabalho de Tata Amaral é uma minissérie para o programa Direções – 3 da TV Cultura: TRAGO COMIGO.
A minissérie aborda a memória da ditadura militar através de personagens que a viveram e de outros que nasceram depois.
O personagem principal é um diretor de teatro e a memória da ditadura é trabalhada pelo presente de uma peça de teatro cujos ensaios se desenvolvem no decorrer da minissérie.
Tata Amaral me disse que, sem JOGO DE CENA, TRAGO COMIGO não teria essa forma, ou seja, tratar o essencial da problemática através de uma representação teatral. E me disse que toda vez que filmava no palco do velho TBC, ela pensava no filme do Coutinho. Para ela sem JOGO DE CENA não há TRAGO COMIGO.
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h15
04/12/2009
O boom do documentário – 5
O boom do documentário – 5
Na crônica O boom do documentário – 2, me referi à larga extensão e pouca definição da palavra “documentário”.
A palavra “romance” parece ter passado por uma turbulência semelhante no século XIX, na França pelo menos, segundo o escritor Émile Zola. Questionando a adequação do termo “descrição” para designar o que hoje não se pode negar serem as infindáveis descrições do romance tanto realista como naturalista, Zola comenta: é uma palavra “hoje tão ruim quanto a palavra ‘romance’, que não significa mais nada, quando aplicada a nossos estudos naturalistas” (1880). No fundo Zola queria uma definição rigorosa de “romance”, que designaria tão somente o romance realista, naturalista, científico, e não tudo e qualquer coisa, como, conforme ele, vinha acontecendo.
Já eu não pleiteio uma definição da palavra “documentário”. Acho a turbulência pela qual está passando um sinal de vitalidade e de contradições produtivas.
É que Zola vivia na época do Positivismo, e eu na época da Teoria do Caos.
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h09
24/11/2009
Coloquial
Coloquial
Dias atrás no Caderno 2 Zanin comentou filmes de Roberto Rossellini, atualmente lançados em DVD. Diz ele que os espectadores poderão estranhar os diálogos extensos e literários, e escreve: “Quem se habituou à proposta naturalista do cinema atual pode estranhar. Afinal hoje todo o mérito é dado ao coloquial”. A frase do Zanin merece ser longamente meditada pelos cineastas nesta época de opressão do coloquial.
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h39
17/11/2009
Viva
O apagão de 10/11 assinala ao PCC e outros eventuais interessados que parar o Brasil não seria difícil. Basta querer.
O submarino nuclear é a flor na lapela.
A lapela se revela frágil.
Viva 2014! Viva 2016!
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h15
09/11/2009
O boom do documentário – 4
Há uma ideia subjacente à crônica “O boom do documentário 3” (postado em 5/11). A ideia é que pode estar acontecendo com o nosso discurso teórico algo semelhante ao que acontece com o discurso de histórias de vida em JOGO DE CENA. O discurso taí, pronto. Pouco importa que o locutor tenha pensado ou vivenciado ou que se diz, desde que ele – discurso – seja dito, e bem dito.
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h54
05/11/2009
O boom do documentário – 3
O boom do documentário – 3
O romance “tem como finalidade, valendo-se de uma ação verossímil, pintar os homens e a natureza na sua verdade” (1866) – “O romancista vai em busca de uma verdade” (1879)
Durante anos, o romancista francês Émile Zola refletiu sobre o romance naturalista. Uma de suas convicções era que o romance, embora não possa atingir totalmente a verdade, tem o dever de buscá-la sempre e de se aproximar dela o quanto possível.
Conforme Zola, o romance naturalista é regido também por outros princípios, entre os quais o seguinte, fundamental na concepção do escritor: “E, uma vez levantados os documentos, seu romance, como eu já disse, se estabelecerá por conta própria” (1878):
O romance prescinde do romancista para se escrever, desde que a documentação necessária tenha sido coletada e reunida.
“O romancista naturalista faz como se desaparecesse completamente atrás da ação que narra” (1875).
O completo desaparecimento do romancista, Zola sabe que é impossível, inclusive porque ele pensa o romance como a verdade vista através de um “temperamento”, que é o escritor e sua personalidade. No entanto, o romancista deve se esforçar para que sua intervenção seja a menor possível, para que sua presença não seja – ou quase – percebida. Ao limite, como se não houvesse romancista e o romance existisse por si só.
Uma narração que chega bem pertinho da “verdade”, e um narrador que intervém o menos possível, se torna quase imperceptível e ao limite some, são ideias que Zola defendia na segunda metade do século XIX. No entanto, essas ideias permanecem vigentes entre nós. A arte que tangencia a “verdade” e o artista que some fazem parte de um discurso que se organizou há décadas. Atualmente, para se manter vivo e atuante, ele só precisa de HOSPEDEIROS que o repitam – eventualmente com algumas pequenas atualizações. Ele é tipicamente um meme conforme a concepção de Richard Dawkins (ver crônica “O milho 3” neste blog).
“Meu problema era não atrapalhar o Kiko [Enrique Diaz] e que os atores estivessem o mais próximo da verdade. Mas, para mim, que estou acostumado a fazer filmes em que tenho o controle até no descontrole, foi difícil alcançar essa não interferência”.
Esse texto encontra-se na matéria “Abrindo as cortinas” da revista PLANO B [passou a chamar-se BETA], no 4, de 2009. Ele se refere ao filme MOSCOU e é atribuído a Eduardo Coutinho.
Que Coutinho tenha dito exatamente essas frases ou que elas tenham sido um tanto copidescadas, pouco importa: o meme encontrou seu veículo para se manter vivo.
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h38
14/10/2009
O fantasma da literatura – 9
Li VIDAS IMAGINÁRIAS de Marcel Schwob (1896), que serviu de pano de fundo a HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA de Borges (1935), que serviu de pano de fundo a LA LITERATURA NAZI EN AMÉRICA de Roberto Bolaño (1996).
São biografias curtas, reais ou inventadas, de personagens reais ou inventados. Nos três autores encontramos procedimentos literários semelhantes.
Esse gênero de literatura biográfica conheceu um certo florescimento no Séc. XX. Citam-se por exemplo RETRATOS REAIS E IMAGINÁRIOS de Alfonso Reyes (1920) e A SINAGOGA DOS ICONOCLASTAS de Juan Rodolfo Wilcock (1972).
É uma tradição literária a que pertencem LE VITE (As vidas dos melhores pintores, escultores e arquitetos) de Giorgio Vasari, publicado entre 1550 e 1568, bem como LEGENDA AUREA (A lenda dourada), obra escrita entre 1261 e 1266 em que Jacques de Voragine narra a vida de 180 santos, santas e mártires cristãos.
Lá no ponto de fuga encontram-se evidentemente o velho Plutarco e suas VIDAS PARALELAS.
Plutarco teve predecessores.
Escrevo esses apontamentos pensando nas dezenas ou centenas de biografias transcritas, copiadas (e fantasiadas?) deixadas por Santiago, o compilador do filme de João Moreira Salles. Talvez seja o caso de examinar as 3.000 páginas datilografadas por Santiago à luz dessa tradição literária secular.
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h09
06/10/2009
O fantasma da literatura – 8
Roberto Bolaño escreve:
Edelmira creyó llegado el momento de escribir. La primera parte de La Habitanión de Poe es una descripción...
A literatura virtual, gerada pela literatura atual presente, é uma vibração da literatura atual passada.
THE PHILOSOPHY OF FURNITURE by Edgar Allan Poe.
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h44
05/10/2009
O fantasma da literatura – 7
Roberto Bolaño escreve:
...Sus primeros poemas, como es lógico suponer, hablan de sentimientos filiales, pensamientos religiosos y jardines... En 1921 publica su primer libro en prosa, Toda mi vida, autobiografía idílica, cuando no plana, exenta de chismorreos y llena de descripciones paisajísticas y de consideraciones poéticas... Prepara un nuevo libro de poesía que arrojará a la cara a sus detractores. Horas Argentinas (1925), el poemario esperado, provoca el escándalo y la controversia desde el mismo día de su publicación. En él Edelmira abandona la visión contemplativa y pasa al ataque. Arremete contra los críticos, contra las literatas, contra la decadencia que envuelve la vida cultural. Propugna un regreso a los orígenes: las labores del campo, la frontera sur siempre abierta. Atrás quedan los requiebros y deliquios amorosos. Edelmira quiere una literatura épica, epopéyca, a la que no le tiemble el pulso a la hora de cantarle a la patria... Edelmira creyó llegado el momento de escribir. La primera parte de La Habitanión de Poe es una descripción al detalle de ésta. La segunda parte es un breviario sobre el buen gusto en el diseño de interiores, tomando como punto de partida algunos de los preceptos de Poe. La tercera parte es la construcción propriamente dicha de la habitación en un prado del jardín de la estancia de Azul. La cuarta parte es una descripción prolija de la búsqueda de los muebles. La quinta parte es, otra vez, una descripción de la habitación reconstruida, similar pero distinta de la habitación descrita por Poe, con particular énfasis en la luz, en el color carmesí, en la procedencia y en el estado de conservación de algunos muebles, en la calidad de las pinturas (todas, una por una, son descritas por Edelmira sin ahorrarle al lector ni un solo detalle). La sexta y última parte, acaso la más breve, es el retrato del amigo de Poe, el hombre que dormita... (La literatura nazi en América)
A literatura objeto de descrição da literatura.
A literatura virtual objeto de descrição da literatura atual (ambas reais).
A literatura atual gera a literatura virtual, da qual ela tira sua existência.
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h06
29/09/2009
O Boom do documentário – 2
O Boom do documentário – 2
Num debate que ocorreu em Moçambique por ocasião da 1ª edição do DocTV CPLP (Comunidade dos países de Língua Portuguesa), um professor português lembrou as origens do uso da palavra “documentário” na segunda metade dos anos 1920. De fato, o termo se consolidou nos escritos de John Grierson, líder do movimento britânico de documentário nos anos 1930.
Mas de lá para cá a palavra se transformou. Não se pode dizer hoje que o documentário seja um gênero cinematográfico, tamanha a quantidade e diversidade de estratégias, procedimentos, finalidades etc. que ele abrange. O termo DOCUMENTÁRIO se tornou tão elástico, tão extenso, e por conseguinte tão pouco definido quanto o termo ROMANCE. Romances são GRANDE SERTÃO: VEREDAS ou ELES ERAM MUITOS CAVALOS ou SÃO BERNARDO ou NAS SERRAS DA DESORDEM ou MONGÓLIA ou. Documentários são SANTO FORTE ou JESUS NO MUNDO MARAVILHA ou SANTIAGO ou MANHATTAN TRANSFER ou AMEI MEU IRMÃO ou CORREIO NOTURNO. A extensão e a imprecisão não são a fraqueza de “Romance” ou “Documentário”, mas a sua riqueza. Eles podem acolher procedimentos tão regrados e repetitivos como os enigmas dos best-sellers ou as entrevistas, e podem acolher objetos literários/cinematográficos de difícil identificação. É essa elasticidade que lhes permite absorver toda uma produção confusa mas rica, dinâmica e em busca de seus temas e formas, toda uma produção de experimentação, tentativas, erros e acertos.
Então que não se venha falar em regras e modelos, mesmo no quadro de um DocTV.
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h30
31/08/2009
O fantasma da literatura – 6
O fantasma da literatura – 6
No ônibus barulhento o rapaz ouve uma voz caótica pelo seu rádio de comunicação. Agora é a vez de ele responder. Ele diz: Não copiei.
Tradução: Não entendi.
Passamos parte da nossa vida copiando, xerocando, enviando e-mail que são cópias, duplicando, salvando, salvadando como, fazendo back-up, cópias de segurança em pen drive etc.
Copiar é uma das principais atividades do presente momento da nossa civilização.
A gíria do garoto tá em cima.
Oh Bartleby...
Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h38