Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

24/10/2014

Ato, Atalho e Vento

 

O filme de Marcelo Masagão

encontra-se atualmente em competição no festival de Roma e estará em novembro no festival de Amsterdam

 

É um filme de montagem, nada filmado. No final (da versão que eu vi. Masagão vive alterando a montagem, a obra não se estabiliza), eu estava profundamente emocionado. Um filme como nunca tinha visto. Vou tentar entender essa emoção.

Masagão ultrapassa Nós que aqui estamos por vos esperamos, seu precedente filme com material de arquivo. Havia personagens (as pequenas vidas), uma cronologia (o século XX), filmagens adicionais, letreiros direcionando o sentido das imagens. Ultrapassa inclusive a obra-prima de Mathias Muller, Home stories, que compõe um personagem feminino a partir de diversas atrizes hollywoodianas dos anos 1950. Esses filmes têm uma unidade temática, narrativa. Eles encaminham a atenção do espectador para um final.

Nada disso em Atalho..., nenhuma linha temática ou outra a que se apegar. O espectador só tem a intensidade dos planos mostrados, identificando ou não a fonte. Ele vai percebendo que o filme se organiza no que podemos chamar de blocos, compostos com materiais heterogêneos, sendo que planos de uma mesma fonte podem ser retomados. Há filmes de montagem que não deixam o filme-base se instalar, o plano tem que rapidamente descontextualizado para se recontextualizar na obra nova. Atalho... é generoso, ama os filmes com os quais trabalha.

O espectador percebe também que, dentro dos blocos, os planos se organizam por encadeamento de movimentos, composição ou oposições. Mas por que passar de um bloco a outro? Só que o espectador (pelo menos eu) sente que algo dentro dele vai se adensando, mas ainda é difícil definir o quê.

Simultaneamente correm perguntas: a que estou assistindo? Que objeto audiovisual é esse? E la nave va, mas vai pra onde? Não sei enquadrar o filme e me sinto desestabilizado. Fácil dizer o que o filme não é, o desafio é dizer o que ele é. Percebe-se em cada bloco que materiais diversificados criam entre si uma tensão, e que essa é a dinâmica do filme. A tensão é indefinível mas ela atua e o espectador reage.

Dessa tensão nasce a emoção. Não tem nada a ver com mecanismos de identificação ou projeção que atuam em filmes narrativos. Uma funda impressão de perda (de não se sabe o quê), de infinita nostalgia (de não se sabe o quê). Me pegou tão forte que acabei o filme lacrimejando (no primeiro visionamento).

 

O importante dessa emoção, além da sua densidade, é o “de não se sabe o quê”. Pois não tem como lhe aplicar palavras. Pode se falar em emoção arcaica, em “Freud”, em “mistério”, como já fizeram na tentativa de usar palavras para falar da relação com o filme. Talvez não haja outra possibilidade de falar desse filme senão falar na relação. Ato, Atalho e Vento está além do verbalizável, a obra não se deixa capturar por palavras. O filme de Masagão é inovador no nosso contexto artístico. No mais, as palavras serão descritivas: o filme tem tal duração, é composto de tantos planos, suas fontes são...

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h55
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20/10/2014

Porque Dilma deve ganhar

Chico Buarque de Holanda:


“A verdade é que antes do PT chegar ao poder teve uma turma que ficou 500 anos mandando aqui no Brasil e esse país se tornou um pais de 5o mundo. Entrámos na década de 80 ainda sendo uma república das bananas, governados por ridículos generais sem voto, ditadores golpistas assassinos e ignorantes que “preferiam cheiro de cavalo a cheiro de povo”. Aí finalmente vem um partido que faz o Brasil avançar, tira nossa coleira dos EUA, dá um pé no traseiro do FMI, alça o país a 6a economia do mundo, fazendo o PIB saltar de 1 para mais de 2,4 trilhões em uma década, tira 50 milhões de brasileiros da pobreza, cria uma  nova classe média de mais de 100 milhões com emprego, renda, carteira assinada e conta no banco... Enfim, avanços EXTRAORDINÁRIOS em uma década! Mas a mídia, conservadora e recalcada, sabota e cria um clima de que “estamos à beira do abismo”. E tem gente que vai na onda e não lembra do nosso passado medíocre...”

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h36
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17/10/2014

SBT 16.12.2014

Aécio mostrou ser bom de "programa de auditório" (expressão usada pelo mediador).

Basta isso para ser Presidente?

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h22
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Porquê votar na Dilma

Meu amigo Cau Jahn escreveu

Eu voto na Marli

 

"Vejo tantos ataques dos dois lados que resolvi compartilhar uma reflexão pessoal, que talvez ajude a diminuir o tom agressivo. Dos dois lados.

Mensalão, Escândalo da Petrobrás, Privataria Tucana, Escândalo do Metrô, etc.

Não é o PT nem o PSDB. O Brasil é que tá cheio de pessoas corruptas. O problema vai da padaria até o planalto. É o sujo falando do mal lavado.

Uns apontam os coxinhas, os outros apontam os guerrilheiros comunistas.

São tantos dedos levantados e tantas propostas não explicadas.

É tanta necessidade de agressão pra justificar uma decisão, que vejo várias pessoas tendo que se defender por causa de uma escolha. Inclusive eu.

Sinceramente, não queria nem Marina, Eduardo, Aécio ou Dilma. Nem os chamados "nanicos". Então, respeito o voto em qualquer um dos dois candidatos do segundo turno.

Pessoalmente, tenho vários problemas com diversas propostas de todos eles. Mas não vou votar a favor nem contra uma pessoa ou partido. Me vejo tendo que votar em uma proposta não ideal, mas que fica mais próxima da minha visão de sociedade onde eu gostaria de viver. E respeito quem tenha sua própria visão de sociedade onde gostaria de viver, mesmo que diferente da minha.

Mas, no meu caso, uma boa explicação parte de uma pergunta e uma afirmação que me fizeram esses dias:

1 - Como você, uma pessoa tão esclarecida e bem informada pode votar assim?

2 - Você só pode estar mal informado para votar assim.

Se me pedissem pra resumir, eu diria: "Eu voto na Marli."

É longo, mas explico.

Nascido e criado em Florianópolis, sou filho de médico e mãe com excelente carreira de enfermeira em hospital particular e público. Família branca, com uma renda familiar mais do que razoável, com os filhos estudando em colégio particular. Quando eu e meus irmãos voltávamos do colégio, meus pais ainda estavam trabalhando e éramos muito pequenos para ficar sozinhos. E aí? E aí Marli. Marli do Carmo Conceição.

Em 1989, uma menina na faixa uns 20 anos do interior de Pernambuco, onde passava fome, indicada pela irmã (que trabalhava na casa de um vizinho), foi trabalhar e morar na nossa casa para melhorar de vida. Eu e meus irmãos crescemos juntos com ela. Nós crescemos estudando e ela trabalhando. Nós brincando e viajando e ela trabalhando. Neste meio tempo, a Marli encontrou um namorado, que virou marido. Com ele construiu uma casa na favela e constituiu uma família. Ainda assim, ela continuou trabalhando na nossa casa. Por essa época, ela deixou de ser a irmã mais velha e virou a nossa segunda mãe. "É um atentado mas é meu filho" disse algumas muitas vezes.

A partir de 2003, a vida deles começou a tomar um rumo diferente. De ano em ano, o dinheiro começou a render. O filho, Juninho, tinha aula de manhã, inglês e aula de violão a tarde. Mas o melhor ainda estava por acontecer. Depois de mais de uma década sem ver a mãe, a Marli pagou do seu próprio bolso, duas passagens de avião para Recife: uma para ela rever a mãe e uma pro Juninho ver a vó que nunca havia conhecido. Tempos depois ainda voltou outra vez. Passa ano passa tempo, a Marli decidiu sair da favela e comprou o seu próprio apartamento. "É minha casa, Cau. Essa ninguém me tira" me contava com sorriso de orelha a orelha. Passa tempo, passa ano, se mudou para outro apartamento, também próprio, em um bairro onde se sentia mais segura. Em casa, depois da aula, do inglês, o Juninho brincava no computador, jogava jogos online, conversava com amigos em redes sociais e ouvia música. "Cau, ele não desliga aquele troço! Comprei pra ele estudar e fazer os trabalhos do colégio, mas ele só joga!" reclamava. "Como estão as notas dele?" eu perguntei. "Tá bem, passa direto, com notas altas e as professoras elogiam ele." respondia toda faceira.

Paralelo a isso, cresci em outra realidade. Segura, saudável e farta. Onde conheci muitas coisas e pessoas boas, mas também vi um lado diferente das pessoas. Diferente, mas comum no meu meio. Negro no meu colégio? Dá pra contar em duas, talvez até uma mão. E claro, a maioria deles ganharam o apelido de "Negão". Cansei de ouvir no colégio, no jogo do Avaí, em shopping, em todos os lugares: "para de baianagem" (no sentido em que a pessoa estava fazendo algo estúpido, burro), "macaco" (para negros), "cuidado que tá cheio de neguinho na rua" (saindo do shopping), "tá com pena? adota!", "bandido bom é bandido morto" sobre crianças mortas ou espancadas em razão de crimes cometidos.

No meu colégio, um garoto que assumiu ser gay, foi xingado, teve o rosto cuspido, foi humilhado por colegas e alunos de outros colégios, que no final da aula iam até o nosso portão para ter a chance de humilhá-lo. Uma vez, um colega fez um "pedido" a ele, berrando na sua cara, na frente de todos: "Morre viado." Nós devíamos ter uns 14 anos. Em pouco tempo, o garoto saiu do colégio, sem que nada acontecesse com seus agressores.

Voltando um pouco, para concluir.

Quando era menor, uma vez subi a favela com a Marli, porque ela tinha que passar em casa e eu não queria desgrudar dela. Lá, brinquei com uns meninos que não eram como os meus colegas. Nenhum era branco. Quando me viram, imediatamente me chamaram pra brincar. Não hesitaram. Sempre que me viam na rua, quando desciam o morro, me convidavam pra tomar banho na Praia do Meio e jogar bola na areia. Devo ter ido uma ou duas vezes. Sempre os encontrava quando estava indo para minha aula de inglês. Passa ano passa tempo, perdemos o contato. Uma vez vi um deles, no bairro Coqueiros, apanhando de um policial porque tinha roubado um casaco de outro menino. Descalço, sem camiseta, vestindo só a bermuda na cintura e a mão do policial na cara.

Passado mais tempo, enquanto estava na faculdade, fiz estágio em um projeto para adolescentes carentes, onde reconheci aqueles amigos de outros tempos em centenas de outros jovens. A mesma mistura: uma certa inocência, com o olhar de Homem em uma criança. O olhar de quem viu, viveu e sofreu mais do que uma criança deveria ter visto, vivido e sofrido. Se tem algo que teve forte influência na minha formação pessoal, foi o Rap. Thaíde & DJ Hum, Posse Mente Zulu e claro Racionais. Acredito que o Mano Brown é um dos maiores artistas, poetas e uma das mentes mais brilhantes que o Brasil já concebeu. Esse olhar que comentei, esse sofrimento e as consequências disso já foram versadas por ele tantas vezes, mas essa é uma das minhas preferidas, que sugiro a todos que ouçam: http://goo.gl/VIqS9U

Enfim, depois desse baile todo. Posso dizer que não, não sou mal informado. Sim, sou muito esclarecido e bem informado. Eu tenho esclarecimento e informação há uns 30 anos sobre uma parte da sociedade. A parte com dinheiro, branca, gorda e "saudável". Então, entendo a razão do voto em um projeto que mantém o meio que convivi a maior parte da minha vida, rico, saudável e farto. Entendo mesmo. E respeito. Mas também tenho um pouco (muito pouco) de informação e esclarecimento sobre a outra. A parte da Marli, do Juninho e dos meninos do projeto. E como essas partes são distantes. É um abismo que parecia interminável. Parecia. Mas a partir de 2003, eu vi esse abismo diminuindo aos poucos. E entre 2003 até agora, segue diminuindo, em ritmo lento, mantendo uma distância imensurável ainda, mas diminuindo. E isso me deixa feliz. Tem um projeto político que seria muito melhor economicamente? Não discordo e até confio que sim. O problema é que acredito que teria como consequência, o crescimento deste abismo.

Eu quero fazer parte de uma sociedade onde a gente caminhe para extinguir essa distância. Que busque o fim da segregação social. Quero todo mundo misturado. Quero mais rolêzinhos. Mais playboy dançando funk. Mais maloqueiro dono do próprio negócio. Quero o Jean Wyllys de Presidente. Quero o Douglas Belchior de Presidente. Eu quero que o empregado de hoje, seja o patrão de amanhã. Imagina o Juninho sendo chefe do meu filho? Seria uma ironia linda da vida. Ele teria tanto, tanto pra ensinar para o meu filho. Tomara.

Eu devo isto a Marli e tudo o que ela representa. A luta da menina que tomava água com tijolo ralado porque só água não matava a fome, a conquista da sua geração não vai ser em vão. A geração do Juninho e dos filhos dele, se depender do meu voto, vai ser menos sofrida, com mais oportunidade e menos desigualdade.

Meu voto vai pro projeto que acredito que olha pro lado antes de ir pra frente e não no que olha pra frente pra quando chegar lá, olhar pra trás e jogar as migalhas.

Eu voto na Marli.

13."

 

 https://www.facebook.com/ricardo.jahn/posts/10152764309304717:0

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h19
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13/10/2014

Sem pena / O Mercado de notícias

 Em excelente comentário sobre O mercado de notícias de Jorge Furtado (Retrato do Brasil SET 2014), Leandro Saraiva escreve que a montagem das entrevistas com jornalistas cria uma área de debate e permite perceber a “diferença das opiniões”. Ele reforça: o filme “se mantém no painel das opiniões”. A opção narrativa e a forma de montagem das entrevistas fazem com que questões como “luta de classe” ou “financiamento da imprensa” ou “liberdade de expressão” se apresentem como opiniões dos entrevistados. Resta ao espectador fazer as suas opções, ou não optar. [o filme atua também em outros níveis: a peça de Ben Johnson, as pequenas e sensacionais narrativas]

O tratamento das entrevistas e entrevistados em Sem pena chega a outro resultado. A despersonalização, ao desvincular a fala do falante, e a montagem que associa a fala a imagens não diretamente relacionadas com ela, levam o filme a escapar ao “painel das opiniões” e atingir –  acredito – a ideia ampla e abstrata de instituição

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h28
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08/10/2014

Sem pena - 3


 



Assim como os presos, os juristas e cientistas sociais entrevistados não são vistos. Mas o efeito é diferente, não se cria um personagem coletivo. Essas vozes off despersonalizadas constroem a imagem de uma instituição: sistema carceral / sistema judiciário.

Trabalhar a instituição é raro no cinema brasileiro. O americano Frederick Wiseman ou o francês Raymond Depardon são mestres no assunto. No Brasil a ideia de trabalhar uma instituição em si talvez só no Justiça de Maria Augusta Ramos.

Sem pena desloca a discussão: ele mostra que os sistemas carcerário e judicial são ruins. Mas acredito que ele não diz que se melhorarem vai ficar tudo bem, alguma coisa do tipo: precisa reformar a instituição. Graças a uma série de pequenas informações, como “polícia joguete nas mãos de políticos” ou “encarcerar a pobreza”, fica claro que o problema não é a má qualidade desses sistemas, mas que eles são mecanismos estruturais de opressão social.

Todo esse discurso é embasado numa construção visual que ritma o filme: a reiteração dos corredores. A câmera mostra ou penetra no corredor: a repetição dessa forma conectam os dois universos, carceral e judicial. Forma corredor nas cadeias (beco, galeria de presídio feminino). Forma corredor no arquivo. Forma corredor nos palácios dos tribunais. Inicialmente o espectador não percebe a forma; é a repetição que a constrói. À medida que ela se constrói, associada aos discursos sem rosto, vai se formando a ideia de instituição. Sem pena é um belíssimo trabalho ensaístico.

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h25
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07/10/2014

Sem pena - 2

 
Já se comentou que os entrevistados de Sem pena não aparecem. É sem dúvida um esforço bem sucedido para escapar ao modelo desgastado das “cabeças falantes”. Mas o filme vai mais longe.

Há vários planos nas cadeias e arredores em que as cabeças são cortadas. Para preservar a identidade, as pessoas são filmadas do pescoço para baixo. Ou em plano aberto que não permita a identificação. Ou em plano desfocado. Ou em primeiro plano de costas (presídio feminino). Duas exceções: portas de cela em que presos se amontoam de frente e em foco.

Esses procedimentos, que desvinculam a cena ou a fala de um rosto, de uma expressão, de uma entonação, provocam um efeito de despersonalização fundamental para o filme. Ele gera o que podemos chamar de personagem coletivo. Contribui também para a construção desse personagem o depoimento de uma presa montado com planos de um arquivo com uma imensidão de caixas anônimas (tipo arquivo morto) cada uma remetendo a um preso ou processado.

O filme não trata deste ou daquele caso mas do conjunto dos presos e das presas.

Assim, quando, talvez já no último terço do filme, aparece o primeiro plano de um indivíduo, o espectador leva um choque: um juiz.

Antes do plano-choque há algumas digressões. O depoimento de um jurista oculto é acompanhado por bustos de bronze de autoridades judiciárias: enquanto o falante não é visto, as cabeças (do pescoço para cima) ficam mudas. Os bustos surgem depois desse longo processo de despersonalização: bela ironia. Esses bustos solenes e oficiais são o eco invertido de outras cabeças que apareceram anteriormente: o primeiro depoimento de um preso é acompanhado por pinturas em estilo digamos expressionista de rostos aterrorizados. E devemos acrescentar as duas portas de cela em que as pessoas não são individualizadas.

Na cena de audiência que abre com o plano-choque, a câmera se mantem próxima das pessoas envolvidas na situação, só o rosto da inculpada é ocultado. Essa sequência seria banal num filme de entrevistas ou de estilo observacional, forma comum do documentário atual. Aqui ela ganha uma força impressionante por ser o contraponto do processo de despersonalização que organizou o filme até então. Ela funciona como catálise.

Com a despersonalização / catálise , Sem pena contribui para a renovação da linguagem do documentário paulista.


 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h27
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02/10/2014

Sem pena


 

Ontem em palestra na ECA, Paulo Cursino afirmou que “o cinema brasileiro, o audiovisual brasileiro em geral é muito chapa branca”. Ele tem toda razão.


Sem pena de Eugenio Puppo não é um filme chapa branca.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 17h05
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09/09/2014

De Menor

 
 

De Menor

 

 

Vi na televisão uma entrevista com a juíza que assinou o alvará de soltura de Cadu, assassino confesso do cartunista Glauco e seu filho. Em liberdade, ele teria voltado a matar. A juíza disse que agiu de conformidade com a lei baseando-se em dois laudos que justificavam sua decisão. Tive a impressão que a juíza não tinha contato com a realidade mas só com a papelada.

 

É o que o filme de Caru Alves expressa com precisão. A narrativa trabalha duas séries: de um lado audiências em um juizado de menores em que são acusados adolescentes pobres. Eles são defendidos por uma advogada que assume a defensoria pública. A outra série é composta pelas relações dessa mesma advogada com um rapaz que acabamos descobrindo ser seu irmão.  O contraponto entre as audiências (que lembram cenas de Juízo de Maria Augusta Ramos) e a intimidade dos irmãos salienta que a justiça não tem acesso às pessoas e se pauta pelo texto da lei e pelo que está escrito nos autos.

 

O escândalo irrompe quando a “delinqüência”, “compreensível” e “normal” quando se manifesta em meios pobres e famílias estouradas, surge na classe média onde não faltam comida nem teto.

 

A narrativa é contida. Ela reduz personagens e temática ao essencial. Nenhuma palavra a mais do que o estritamente necessário. Esse minimalismo é harmonioso: construção da narrativa, diálogos, interpretação dos atores.

O minimalismo e a narrativa despojada não são do agrado do público maior. Fui a uma sessão no fim da tarde de domingo, éramos uns quinze.

 


De menor marca a estréia de uma diretora de pulso firme.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h49
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05/09/2014

O dito pelo nao dito

Em matéria de criminalização da homofobia, Marina já tinha dado uma recuada.

 Nova recuada:  palavra de ordem é deixar quieto a Lei da Anistia. Isso valerá apoio militar.

 Quanto ao agronegócio e à revisão dos indicadores de produtividade visando a desapropriação de terras, vai recuar também?

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 17h12
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03/09/2014

Estilo Marina Silva

 ... não tá mais aqui quem falou

(Degas, No Museu do Louvre, fragmento)

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 17h29
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01/09/2014

Temporada de caça

  A pedido de um bispo, a candidata recuou em matéria de criminalização da homofobia.

Agora podem xingar, bater, matar:


a temporada de caça aos gays está aberta

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h36
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28/07/2014

Espaço Itaú de Cinema e os 4 “C”

 
 

Espaço Itaú de Cinema e os 4 “C”

A vinheta do Espaço Itaú de Cinema abre com movimento circular, entra o nome do banco que se afasta numa espécie de zoom out. Finalmente se fixa o logo do banco/cinema, ao lado do qual quatro objetos vão aparecer sucessivamente:

 uma Cadeira de lona dobrável, símbolo tradicional do diretor no set. Há fotos memoráveis de Hitchcock e Fellini nessa cadeira. Imagino que os diretores não usam mais esse assento, a não ser para ficar diante do vídeo-assist.

uma Claquete de bater ainda em uso mas em via de ser substituída pela claquete eletrônica.

uma Câmera digital que usa cartões de memória.

 

A série se encerra com um Carretel, o mesmo que dá circularidade ao movimento de abertura.

Tradicionalmente o carretel é uma roda na qual a película está enrolada. Ele serve para transportar e para projetar filmes. No projetor em funcionamento, a película é puxada do carretel carregado, passa pela janela e vai se enrolar no carretel de recepção.

 

O conjunto desses objetos traça o percurso da filmagem à projeção.

O carretel é hoje obsoleto. As projeções digitais, HD, RCP etc. o descartaram. Ainda presente em algumas projeções, seu destino é o museu.

 

Como entender a permanência dessa iconografia na vinheta?

Esses ícones já conquistaram seu espaço na nossa cultura, eles são rápida e amplamente inteligíveis. Embora defasados em relação às tecnologias atuais, eles remetem a uma tradição. Eles funcionam como um selo, uma garantia de qualidade assegurada pela história do cinema. Essa segurança da tradição está igualmente presente no lápis que alguns celulares mostram na página de escrever SMS.

 

Essa permanência aponta para outra questão: a dificuldade de criar imediatamente ícones claros e compreensíveis para tecnologias recentes e em constante mutação. É frequente novos sistemas manterem signos e representações de um sistema anterior em via de desaparecimento, enquanto novos ícones serão gerados lentamente. Como seria um ícone que representasse uma projeção digital?

 

Essa situação parece óbvia e natural. Acredito que não seja tão óbvia. A questão da permanência / geração de ícones espelha transformações sociais. E isso se dá num clima de tensão. Os ícones insistirão em permanecer, vão tentar se adaptar, mas a guerra não está ganha. Exemplo disso são diversos ícones em plena decadência, como a tela branca emoldurada de preto, derrubada pelas telas que proliferam na nossa sociedade. Ou o cone de luz que ligava o projetor à tela. Ou outro ainda cuja carreira foi brilhante: um pedacinho de película perfurada com fotogramas assinalados simbolizava o filme, o cinema. Pois ele sumiu.

 

Mas o carretel, que justamente tinha a função de carregar a película perfurada, ganhou uma sobrevida. Ironia da história. 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h47
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29/05/2014

Cristiano Burlan, os dois olhares – 1

 
 

Cristiano Burlan, os dois olhares – 1

Esta segunda entrevista com Cristiano Burlan foi feita em 9.5.2014. O ator Henrique Zanoni estava presente. A primeira entrevista foi postada nesse blog em 20.2.2014.

 

JC – Vamos retomar os dois olhares de que você falou na entrevista anterior?

CB – Os dois olhares? Não me lembro.

JC – Estranho você não se lembrar, eu achei marcante. É o seguinte: um olhar do lado de cá e um olhar do lado de lá do rio.

CB – Lembro.

JC – O que são esses dois olhares?

CB – Mesmo tendo consciência de ter passado por esses dois olhares, o meu olhar agora é sempre o olhar de fora.

JC – Ah bom!

CB – Por mais que eu tenha nascido no Capão Redondo e tenha consciência, hoje a perspectiva é diferente. Eu não consigo me colocar na perspectiva do outro.

JC – Quem é o outro agora?

CB – O que mora do outro lado do rio.

JC – No Capão Redondo?

CB – Aquele que é explorado pela minha câmera e de outras pessoas, aquele que é objeto de estudo. Por mais que eu tente, nunca vou conseguir me colocar nessa situação de novo.

JC – Mas antes você estava nessa situação.

CB – Sim, estava. Agora estou do outro lado, é um caminho sem volta. Por mais que eu voltasse a morar lá, convivesse com essas pessoas e tentasse resgatar o meu passado, já passei por coisas que me impediriam. Não tem como voltar a ser o que você foi.

JC – Quer dizer que você migrou de classe?

CB – Pode-se dizer que sim.

JC – E você se sente culpado?

CB – Não. Quem gosta de viver no meio da miséria e da violência? Ninguém. Eu acho que tenho a responsabilidade de sempre que puder dar voz ao outro. Como na premiação [Prêmio Governador do Estado 2014 para Mataram meu irmão], eu não tinha como não receber o prêmio e não dizer o que falei. É uma aberração o estado que matou meu irmão me entregar um prêmio. Eu poderia me regozijar, puxar o saco do PSDB. Em vez disso, eu falei o que precisava falar.

JC – Ao falar diante do governador, você acha que deu voz ao outro ou a si mesmo? Esse discurso contribuiu para o seu sucesso atual.

CB – É como se meu próprio irmão estivesse falando ali. É completamente estranho o que vou te falar, mesmo não podendo voltar a ser o que eu era e voltar a ter essa perspectiva, eu sinto que ela continua dentro de mim. Agora ela tem filtros, filtros convencionais. Ela tem a vaidade, as pretensões artísticas. Eu paguei um preço alto por ter realizado esse filme. É talvez o que me salva um pouco da mediocridade, não que eu não seja medíocre...

JC – Você se sente um traidor?

CB – Não, não tenho motivo para me sentir um traidor.

JC – Em relação aos seus amigos de antigamente ou à tua família?

CB – Não diria um traidor, mas acho que poderia fazer mais pelas pessoas. Me afastei completamente da minha família e do meio em que vivia, até do meu amigo que aparece no filme [Thiago]. Isso não é consciente, são questões que me abalam profundamente.

JC – Que questões te abalam?

CB – Essas questões do meu passado, da violência, de tudo o que vivi. Não tem um dia que eu acorde sem pensar em todas as pessoas que vi morrer.

JC – Todo dia?

CB – Todo dia. Eu tento não pensar, porque isso me impediria de viver. Mas eu não me sinto um traidor.

JC – Os olhares do lado de cá e do lado de lá já entraram em conflito?

CB – Sim, completamente. Há duas maneiras de ver esses dois olhares, a estética, e também o lado político e social.

JC – Quais são essas maneiras?

CB – Houve uma depuração do meu olhar, mas ao mesmo tempo eu perdi uma coisa primitiva que eu tinha quando eu morava na periferia. Tinha pretensões artísticas, primeiro no teatro e depois no cinema, eu tinha um olhar mais virgem. Eu saí de lá e fui estudar cinema, eu tive contato com obras literárias, com pensadores, pessoas que me influenciaram.

JC – Onde você estudou cinema?

CB – Numa escola de cinema, a AIC, onde leciono hoje. Mas eu fui expulso de lá.

JC – Por quê?

CB – Não tinha dinheiro. Eles queriam que eu trabalhasse lá. Não sou bom para trabalhar, sou preguiçoso.

JC – ...você disse o contrário na outra entrevista, que era trabalhador, obsessivo no trabalho...

CB – Eu tô falando dessa coisa cotidiana, do dia a dia. Se eu fui contraditório, isso me torna mais interessante. Se eu tentasse parecer coerente e repetisse o que já falei... Odeio trabalhar, não é natural. Eu não acho que cinema seja trabalho, nem teatro. Tenho tesão em fazer isso, até porque eu não recebo. Meu trabalho é dar aula.

JC – Voltando aos olhares, eles já entraram em conflito?

CB – Tão sempre em conflito e vou além. [...] Tem o olhar da pessoa comum, que só observa essas coisas, que vai ao museu e vê um quadro, assiste a um filme. O olhar dessa pessoa comum interessa mais do que o dos doutos saberes sobre cinema. Quando comecei a fazer filmes, eu tinha dificuldade de lidar com a crítica. Hoje para mim faz parte do processo, mas a crítica que realmente me interessa, é a do homem comum.

JC – Em geral o homem comum não critica porque não tem onde criticar. Ele vai assistir e ...

CB – Ele não faz critica numa revista especializada.

JC – ...comenta com amigos.

CB – A crítica dele vem de querer ou não assistir a um filme.

JC – Mas não chega até você.

CB – Não chega ou chega. Se pessoas não quiserem ver meus filmes, é uma forma de crítica, é um tipo de cinema a que “não quero assistir”...

JC – E tão mal divulgado. [...]

CB – Quero te fazer uma pergunta... o conteúdo dessa entrevista é o mesmo: o pobre que virou artista falar sobre essas coisas ou falar sobre estética. Eu queria falar sobre estética.

JC – Tá bom. Ainda tenho uma pergunta. Por que filmar é um crime?

CB – Tem um pensamento, acho que do Buñuel, que fala que o ato de fazer cinema se aproxima de um ato criminoso. É como se essa frase fosse minha. Primeiro porque eu não acho natural colocar uma câmera no rosto de uma pessoa, a câmera representa um órgão humano. Eu coloco um pau gigante no seu rosto e digo: seja natural e expressivo.

JC – Com essas 3 máquinas que você colocou em torno de mim, o assassinado sou eu.

CB – Nós dois! Pode parecer demagogo, mas eu sempre pergunto qual a grande discussão do cinema brasileiro hoje. Chego à conclusão que, mais importante que a estética, é a questão política do ato de fazer filmes, o dinheiro. Como conseguir dinheiro e, depois da obra feita, fazer o dinheiro voltar?

JC – Onde está o crime?

CB – Vou concluir meu pensamento. Eu viajei pelo país fazendo documentários etnográficos, conheço boa parte do Brasil. Percebi que ainda é um país miserável, quase 80% da população vive num estado de pobreza profunda. Eu fico imaginando essas pessoas que têm acesso ao dinheiro para produzir cinema, que responsabilidade é essa? Quase um ato criminoso. Pegar dinheiro de renúncia fiscal e gastar para fazer filme... Não tô dizendo que essas pessoas usem o dinheiro para outro fim [...] estou falando por baixo, fácil entrar num tiroteio quando você não tem acesso a esse dinheiro. Fácil pra mim falar mal das pessoas que usam dinheiro público para fazer filme.

JC – Você não tem acesso ou não quis ter acesso?

CB – Agora tenho. Há anos eu tento editais e nunca sou contemplado. Mandamos projetos da Bela Filmes para todos os lugares, até projeto de filmar velório. É sempre “não” [...] eu não tô reclamando. Quando um projeto nosso não é contemplado é que outro foi. Quem escolheu entendeu que o escolhido tem algo mais interessante a dizer do que eu e os meus parceiros.

JC – Você acaba de filmar Hamlet: foi um ato criminoso?

CB – Eu acredito que Shakespeare é atual por falar de questões inerentes ao ser humano em qualquer lugar da terra. Ele fala de amor, ódio e separação. Shakespeare é cinematográfico por usar elipses, o personagem está na floresta negra, vira para o lado e está num castelo, vira para a esquerda está num navio. Especificamente acho Hamlet rock and roll, um rebelde por essência e ao mesmo um cara mimado, ele é egoísta, ególatra, freudiano. Me sinto próximo da tragédia, da violência de Shakespeare. Principalmente Hamlet, eu trago um pouco para mim, para minha vida. Próximo também do momento que vivemos no país, em São Paulo, alguma coisa está fora dos eixos, tem uma névoa sobre a cidade, essa tensão pré-Copa, uma coisa ruim ou muito forte vai acontecer. Eu sou a favor das mudanças, o conflito te faz mudar.

JC – Por que você traz Hamlet para tua vida?

CB – Para minha vida ou para o filme?

JC – Você diz que é próximo de sua vida.

CB – Hamlet é próximo da minha personalidade. Ele questiona o status quo, ele acha que tem alguma coisa errada e realmente tem. Mas ele não vai para o embate. Fica a peça inteira sem se confrontar, não por decisão dele. É que você faz parte de uma engrenagem. É como se ele não tivesse força para ser senhor do seu destino. É como eu me sinto. Eu não sei viver, improviso.

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h34
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Cristiano Burlan, os dois olhares – 2

 
 

Cristiano Burlan, os dois olhares – 2

JC – Eu tenho uma ideia sobre sua relação com Hamlet. Na outra entrevista e em Mataram, fica claro a sua adesão a um universo de violência e a necessidade de se afastar para sobreviver e criar. Um dos aspectos de sua opção por Hamlet pode ser uma forma de tratar a violência familiar – na peça uma família desaparece – e de se distanciar através de Shakespeare. Escolher Hamlet é uma busca de equilíbrio.

CB – Nunca tive uma análise tão fria como essa.

JC – Você acha que sou frio?

CB – Não, você só tá analisando de fora, é um ponto de vista. Eu queria dizer – senão fica muito falocêntrico – que a ideia não foi só minha, foi também do meu parceiro, Henrique Zanoni [intérprete de Hamlet], parceiro criativo e coautor do filme. Cê faz perguntas difíceis...

JC – O que há de difícil na pergunta?

CB – Eu já tô acostumado a responder no automático. É que você tá numa situação confortável, você acaba de ver o 3º corte, você é ator do filme, então você não é um critico.

JC – Essa pergunta eu tinha preparado antes. Depois de ver o 3º corte as minhas perguntas são outrasDepois eu pergunto.

CB – Antes do 3º corte, então vou tentar responder. –  Eu vou fazer um comentário paralelo. Eu não consigo entender atores que dirigem a si próprios, eu jamais vou conseguir atuar e dirigir ao mesmo tempo, eu preciso de um distanciamento, preciso estar atrás da câmera. Antes de mais nada estamos falando de estética, por mais que eu pareça uma pessoa que está usando minhas questões pessoais, meus parangolés, todas as tragédias da  minha vida. Agora tentei fazer um filme a partir de uma obra famosa. Optar por Hamlet me traz conforto porque não preciso contar a história, todo mundo já sabe, é uma liberdade tremenda. – Se não me engano, é a 3ª adaptação cinematográfica de Hamlet no Brasil. A oficial é a do Candeias, A Herança. Sou apaixonado pela obra do Candeias. – Espero que as pessoas venham ver o filme sem agressividade...

JC – Você diz que todo mundo conhece a história. Todo mundo quem é?

CB – As pessoas que estão acostumadas a ir ao cinema, não o povo do outro lado do rio.

JC – Pois é!

CB – Essas pessoas não. Se eu não for até lá, elas provavelmente nem terão acesso ao filme.

JC – Não é “todo mundo”, é um pedacinho.

CB – É uma parte ínfima.

JC – Outra pergunta. Já conversamos a respeito e você pareceu concordar. Filmar Hamlet seria um crime também em outro sentido. Visto o seu meio cultural e social de origem e a trajetória em que você começa a ter acesso a grandes obras literárias no seu processo autodidático, filmar Hamlet é uma forma de apropriação de um dos maiores ícones da cultura ocidental e nesse sentido seria um roubo. É um roubo?

CB – Eu me sinto confortável porque Shakespeare escreveu poucas histórias originais. Todas as grandes peças são baseadas em histórias conhecidas na Europa ou que vieram do Oriente, histórias de domínio público. Se Shakespeare pode fazer isso, porque eu não posso? E mais, não tem que pagar direito...

JC – Naquela época se valer de narrativas que corriam pelo mundo não era problema, e quem as transformou em obras célebres da cultura ocidental é Shakespeare. Você recebe o ícone já pronto.

CB – Tem também esse desejo profundo de destruir, e depois reconstruir, claro. Essas grandes obras, porque tantos dedos ao se debruçar sobre elas. Parece que são intocáveis, você não pode emitir uma opinião, só se for Bárbara Heliodora. Se assistir ao filme, ela vai acabar comigo porque cortamos a peça. Tenho certeza absoluta que esse filme não é uma adaptação literal, talvez seja o documentário do nosso embate com a obra, meu,  de todos os parceiros, inclusive o senhor.

JC – O que é destruir Hamlet, você usou essa palavra.

CB – Tem que tomar cuidado com as palavras. [...] Uso ‘destruir’ no sentido bom de ‘destruir’, com desejo de reconstruir, é quase uma Fênix. Importa o embate com a obra literária. – Quando eu começo um filme, vou quase virginal. Se for para reproduzir um pensamento já pensado por pessoas mais competentes do que eu, não tem sentido. Para mim o filme é uma viagem. Não saí do filme mais entendedor da obra de Shakespeare, nem mesmo sobre Hamlet. Me despertou mais interesse montar Hamlet no teatro, existem tantas camadas ali.

JC – Onde?

CB – Na peça, nos personagens, no próprio Fantasma, tudo é tão dúbio, nada é dito diretamente. Quando o Fantasma fala pro Hamlet, o que ele realmente quer falar? Na obra toda, o que Shakespeare deixou de escrever entre as palavras, para mim é o principal.

JC – Vamos falar do 3º corte? Não é a peça. De tantas mortes, sobrou apenas a de Ofélia. A morte da família foi expulsa do filme. Eu não entendi essa operação. Eu pensava que filmar Hamlet era uma maneira de tratar a violência, inclusive a violência sofrida por sua família, de forma distanciada. Mas você simplesmente a expulsou. A tua cabeça antes da filmagem e a tua cabeça na montagem são diferentes.

CB – As duas cabeças, isso é óbvio. Num momento eu tô indo ao encontro da realização de um filme. Depois tenho de revelar o que foi esse encontro. A montagem é um ato de humildade, de consciência de que não atingiu uma ideia que tinha na cabeça. Montar tá mais em cortar e revelar o potencial que está ali, não tem muitas opções. Se tentar ir para outro lugar, você pode matar o que você conseguiu fazer de mais importante. Você fez uma análise precisa do 3º corte, não sei se é esse que vai ficar. Mas certeza absoluta, a morte de Ofélia...

JC – Certeza absoluta de quê?

CB – ...a morte de Ofélia na peça e no filme é a única morte que faz o conflito, é a transformação, é o grande plot. As outras são ilustrativas. Como a peça é conhecida, não precisa mostrar que todo mundo morre. Mostrar o que tá entre essas coisas é mais interessante. Tem a peça, a história, tem o verbo, o adjetivo, mas eu tô falando de imagem e som, de construção de atmosfera. Quando tô montando, isso me interessa mais do que ficar preso a Shakespeare.

JC – O 3º corte parece estar no meio do caminho, falta radicalismo, inclusive na destruição. Quando falo da tua cabeça antes e depois da filmagem, me refiro a um ponto que você abordou na outra entrevista, a sua vida afetiva. Penso que você montou o filme em função de uma mudança na sua vida afetiva, ou tô invadindo a tua privacidade?

CB – Não. Cê pode ter um pouco de razão. Mas o processo de montagem foi em cima do que eu filmei e não de como eu me sinto [...] montar não é só manipular material, é extrair alguma coisa que já tá ali. Se eu não conseguir é porque eu não consegui como diretor. Eu tenho fé no filme e tenho fé na montagem, até porque não terminei.

JC – Sinto que o material filmado, embora eu não o conheça, tem mais potencialidade do que resultou neste corte. É necessário revisitar o material e voltar a questioná-lo. [...]

CB – Quando lançamos Amador, você fez criticas ferozes, e você aceitou fazer outro filme comigo. E em princípio você aceitou fazer mais um.

JC – Sim.

CB – Porque você aceita fazer filmes com um cabra e depois critica ferozmente os filmes que você faz.

JC – Não sei se sou feroz, eu estou envolvido no projeto com você. Uma das regras do jogo é a honestidade.

CB – Sim, eu acho.

JC – Quando eu digo que Amador é mal montado, não é uma rejeição, isto não tira nada ao nosso pacto. Não exclui que eu critique, nunca terei com você uma relação de panos quentes.

CB – É o que eu espero. Sua análise sobre o filme é parecida com a do Henrique Zanoni, que é o protagonista.

JC – Então vamos ouvir o Henrique.

CB – Eu acho que vocês não têm distanciamento para fazer essa análise. Aí entra a vaidade do ator! Aqui não é o Sr. Jean-Claude critico analisando um filme. Você viu um corte, tem o problema da sua relação afetiva com as cenas que você realizou e que não estão no corte.

JC – Sim. O Fantasma quase sumiu.

CB – (rindo) ...não falei?

JC – Vi o corte hoje e me dei conta do que estava acontecendo comigo e com o fantasma. Mas falar da eliminação da morte da família e da violência não depende da minha vaidade nem do fantasma. Tentei me distanciar.

CB – Em 5 horas?

JC – Eu sou rápido. Reconheço que talvez eu não tenha um distanciamento suficiente. Mas só posso questioná-lo dentro da situação em que de fato nós nos encontramos, ou me calar.

CB – Discordo de você quando fala da violência. Na peça a violência não é visível. As mortes são quase caricaturas da morte. Eu posso falar disso com propriedade porque já vi muita violência. Não me interessa reproduzir essa violência, me interessa mais mentir sobre ela para chegar a alguma verdade. A violência como ela é não pode ser reproduzida no cinema ou em qualquer outro meio de expressão. Essa coisa que você chama de violência shakespeariana não tá na peça mas por trás das coisas, não é obvia. Isso eu já sabia antes da montagem. Eu não vou conseguir filmar realmente uma cena violenta. O cinema é limitador, a literatura tem mais potencial. Prefiro filmar uma parede branca e falar sobre a violência com uma voz off. Mostrar essa violência seria uma obviedade... puta, você me fodeu a vida agora, falar da análise critica do 3º corte, mas é bom porque me colocou em crise.

JC – Vamos passar a palavra a Hamlet?

HZ – Vou falar pouco porque esse espaço é de vocês dois. Tenho a mesma visão que JC, o filme segue outras potencialidades, não só em relação a Shakespeare, mas em relação aos atores, ao que fizemos no teatro, na rua. Tem mais coisas ali. Eu acho que virou quase Romeu & Julieta. Hamlet surta por causa da Ofélia, então o peso do Fantasma que o atazana, o peso de ele matar Polôn

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h33
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