Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

10/11/2014

Cristiano Burlan: entre Hamlet e a Elegia

 
 

 

Entrevista realizada no Copan dia 15.10.2014        

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JC – Do quê você quer falar?

CB – Não tô muito a fim de falar hoje, dormi mal, vim pensando nas perguntas que você ia fazer.

JC – Que perguntas você acha que vou fazer?

CB – Coisas relacionadas ao cinema e depois perguntas pessoais bem constrangedoras, que vão me tirar do eixo.

JC – Em conversa pessoal você disse que nas entrevistas anteriores não tinha dito tudo. O que é ‘tudo’? Primeira pergunta constrangedora.

CB – Passamos por situações que a memória não pode resgatar, que são inexprimíveis. Vi coisas que se eu tentasse te verbalizar, se usasse a pintura, a poesia ou o próprio cinema, eu nunca conseguiria atingir a dimensão dessas questões. São tão traumáticas. Não sei se é incapacidade minha de lidar com as coisas. Você não consegue colocar a vida dentro do filme, mesmo num documentário. As coisas no filme são ínfimas perto do real, do cotidiano. – Antes eu queria te perguntar: por que você me entrevista? Por que minhas tragédias familiares te interessam? Eu não sou uma pessoa interessante, você conhece muita gente interessante para conversar.

JC – Eu não penso sobre você a mesma coisa que você pensa sobre você. Aliás, eu não sei bem o que você pensa sobre você. Eu não penso sobre você o que você pensa que eu penso sobre você. Além do mais, eu não tenho que justificar, eu te convido, você aceita ou recusa. Por que você não é uma pessoa interessante?

CB – O cinema nos deixa um tanto cínico, tenho tentado ficar atento em relação a isso. O meio do cinema é um pouco venenoso. Tenho me entediado bastante, tenho pensado em não fazer mais filmes.

JC – Você pode fazer filmes sem frequentar pré-estreias, reuniões de associações profissionais etc. Não tem nada a ver você achar as pessoas cínicas e deixar de produzir, você teria outros motivos.

CB – Pode ser.

JC – Quais?

CB – Essa grande distância entre a ideia, a sensação forte que você tem, a energia que você gasta para realizar a ideia, e depois uma impressão de fracasso. Quando você percebe que o que queria expressar não chega às pessoas.

JC – Em todos os teus filmes?

CB – Todos.

JC – Inclusive o Mataram?

CB – Inclusive, num grau ainda maior. Não tem nada a ver com aceitação, prêmios ou indiferença. Tem a ver com o que te falei: não ter contado tudo, é essa relação externo / interno. O que nós somos realmente e o que tentamos parecer e o que percebemos que as pessoas não percebem. Essa distância, conteúdo e forma, entre público e privado, eu acabo sofrendo muito.

JC – Quando vi Mataram, fiquei muito emocionado, mas minha emoção não é a tua.

CB –Fui contemplado num edital do Ministério da Cultura para um BO  de documentário.

JC – Para?

CB – Para um filme que encerra a trilogia. Eu a chamo carinhosamente de Trilogia do Luto. Ela se iniciou em 2007 com um documentário sobre meu pai, depois Mataram meu irmão, e agora sobre o assassinato da minha mãe.

JC – O titulo?

CB – Elegia de um crime. O pressuposto do filme é que vou atrás do assassino da minha mãe. Foi brutalmente assassinada pelo namorado em 2012. Ele tá foragido até hoje.

JC – Você sabe onde ele está?

CB – Eu tenho uma ideia. Fiz uma pesquisa sobre o ocorrido. Eu nunca me coloquei numa situação tão perigosa. Dessa vez é como se eu estivesse olhando para o abismo. Fico me questionando, por que fazer esse filme?

JC – Encontrou uma resposta?

CB – Não! Tem uma força grande dentro de mim me levando a realiza-lo. Paguei um preço alto por ter feito o Mataram, mas esse é um caminho sem volta, tenho certeza absoluta.

JC – ‘Sem volta’ quer dizer o quê?

CB – Porque tô entrando num lugar donde não tenho como voltar.

JC – Você acha que elevai te matar?

CB – Não. Não tenho medo da morte, tenho mais medo da vida, medo de me relacionar, medo de fazer um filme pelo qual ninguém se interesse. Da morte não, até porque já tive contato com ela várias vezes. Quando você decide enfrentar seus demônios, cê não volta da mesma maneira, nem sei se volta, é um caminho só de ida. É tão assombroso o que vou te falar agora. Eu tava no velório com uma amiga que tinha esses celulares modernos que filmam, você acredita que me passou pela cabeça o desejo de filmar minha mãe morta? Eu não filmei, até hoje me lembro que eu tive esse desejo, me assombra até hoje. Por isso tô em crise, se realmente eu quero continuar a fazer filmes.

JC – Você lastima não ter filmado?

CB – Lastimo ter pensado em filmar.

JC – Por quê?

CB – Convencionalmente eu deveria tar vivendo o luto ali, mas tive vontade de registrar a imagem dela morta. É como se instintivamente eu já percebesse que ia acontecer o que aconteceu com meu irmão. Um dos motivos por que realizei o filme, eu precisava corporificar, precisava de uma imagem. O corpo é inteligente, você passa por uma tragédia, a morte de um ente querido, é como se o corpo apagasse essa memória. Eu não me lembro do rosto da minha mãe. Mesmo olhando fotos, é como se eu não a reconhecesse. Mas eu tenho imagem dela morta.

JC – Você tem?

CB – Quando minha mãe morreu, ela morava na periferia de Uberlândia, um desses programas popularescos do final da tarde, uma repórter foi até lá falar sobre o assassinato e filmaram o corpo da minha mãe. É uma imagem apavorante, tá na internet até hoje. Me assombra desde 2012. Me lembro de uma pintura, de um livro, não sei, O homem que ri de Victor Hugo. A imagem desse quadro tá no meio do livro, cortada na boca, é uma imagem apavorante.

JC – Cê fica olhando essa imagem?

CB – Não olho, mas está guardada no computador.

JC – Cê imprimiu?

CB – Não. É uma reportagem sobre o assassinato, eles filmaram minha mãe morta no lugar onde ela foi encontrada, na casa dela. É uma imagem que me apavora. Minha crise tem a ver com essa produção de imagens, independentemente de serem pessoais ou de outros. – Esse ano eu recebi uma proposta  para trabalhar para um pool de TVs públicas na Europa. Eu filmaria zonas de conflito.

JC – Na Europa?

CB – Residiria na Europa mas viveria em zonas de conflito, como a Faixa de Gaza, a Síria, faria documentários curtos para TV. Iria sozinho, um computador e uma câmera, é uma proposta interessante. Por que eu recusei? Não foi por medo da morte, de filmar num campo de batalha e cair uma bomba. Vi uma reportagem sobre a fotografia da menina que tava morrendo de fome, chegou um urubu perto dela e ele continuou a fotografar. Eu me lembro de uma fotografia de Capa na Espanha, a bala que entra na cabeça... Minha pergunta é: se alguém leva um tiro, o que eu faço? Continuo filmando ou socorro essa pessoa? Por mais que eu seja uma pessoa aparentemente do bem que se interessa pelo outro, eu não tive essa resposta. Aí me lembro do momento em que tive vontade de filmar minha mãe. Será que sou inescrupuloso, que me interesso mais pela produção dessas imagens? Não sei lidar com essa contradição, mas vou fazer o filme.

JC – Vai usar o material da TV?

CB – Não sei. Não sei sobre o que é o filme. Eu escrevi para o edital, acho que tá bem escrito porque vão me dar o dinheiro, pela primeira vez. É muito dinheiro para um documentário, R$ 450.000. Em contrapartida eu tenho que entrar com R$ 90.000, ou seja, eu vou gastar R$ 350.000,00 para fazer um documentário. Pela primeira vez vou pagar meus parceiros, que sempre trabalharam de graça. Como também um milhão é muito dinheiro para uma ficção BO, que você faz num apartamento. Esses valores são inflacionados. Não sei se vou usar a imagem. Posso estar falando tudo isso para parecer uma pessoa legal, em crise, e no fundo ter certeza que vou colocá-la no filme.

JC – Cê tem certeza que vai?

CB – Não, não tenho, tenho muitas dúvidas.

JC – Que dúvidas?

CB –Primeiro uma exposição muito grande, mas é um contrassenso dizer isso, porque se eu faço o terceiro filme de uma pessoa da minha família morta de maneira trágica, já tô exposto. A outra, talvez a principal, é a relação entre ética e estética. Não vou levar para o campo pessoal, não vou fazer terapia, então não tô me expondo tanto assim. O que me afeta profundamente é a gente lidar sozinho. Nascemos, vivemos e morremos sozinho, quanto mais cedo descobrimos isso, menos se sofre. Mas não fui eu que produzi essas imagens. Como no filme do meu irmão, as fotos dele morto são dos  autos do processo. Não fui até o corpo da minha mãe, não filmei ela morta ali na cena do crime, são imagens de outros. Isso me traz uma reflexão sombria sobre o ato de se fazer filmes.

JC – Que relação você vê entre essa reportagem sensacionalista sem vínculo pessoal com o fato, e o teu desejo de filmar a mãe no velório? A imagem da mãe morta existe, você a negou e a TV a produziu. Ausência de imagem pessoal e presença de imagem industrial?

 

CB – O desejo de filmar minha mãe no velório foi porque eu queria guardar aquele momento, guardar ela para mim. Como aconteceu com meu irmão, eu tinha certeza que ia se tornar uma imagem obscura, eu não a reconheceria. Queria guardar para mim o último registro dela. É diferente do filme que vou fazer agora, não sei ainda o que é. A imagem da TV é o registro da brutalidade. É o lugar do público e de como esse público é tratado. No Mataram, um personagem diz que quando aparece na TV uma pessoa assassinado, é só uma imagem explorada, como acontece todo dia. Para quem tá dentro da situação é um retrato que te acompanha, te assombra, é num lugar pessoal. Não tô dizendo que, por eu realizar as imagens, tenho mais competência para isso, não! É minha mãe, mas também a imagem de uma pessoa assassinada. Sempre comparam Mataram meu irmão com Elena de Petra Costa. Vários repórteres acharam meio parecido. Não! Não é nada parecido! Meu irmão foi assassinado no Capão Redondo por uma quadrilha comandada por Policiais Militares do Governo do Estado de São Paulo, comandado pelo nosso grande governador, agora reeleito, Geraldo Alckmin, com 7 tiros pelas costas – e a irmã dela se matou em NY, é diferente! No fundo é a mesma coisa, dois irmãos fizeram filmes sobre irmãos que morreram, se é melhor ou pior, se é mais ético ou menos ético, não tenho capacidade de julgar. Acaba caindo no mesmo lugar comum, pessoas usam situações pessoais para falar de coisas, a questão é se essas coisas se tornam universais ou não, se eu saio do meu privado e atinjo o público, eu não sei se isso aconteceu no filme. – Acabo de ver um filme de que você falou bem, eu fui disposto a não gostar, odiei o trailer.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h23
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Cristiano Burlan: entre Hamlet e a Elegia

 
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JC – Qual?

CB – Sem pena. Saí tão abalado, questionando meu próprio desejo de fazer meu filme ou filmes estetizados com historinha, quando existem questões bem mais urgentes. O cinema acaba ficando num último plano.

JC – O rosto de sua mãe morta no velório, você disse que ela foi ferida na boca.

CB – Na boca. Ela foi enforcada pelo namorado, tem uma marca no pescoço, mas a boca dela tá ensanguentada, tá tudo roxo, parece que cortaram... [* ilustração]

JC – No caixão o rosto tava exposto?

CB – Tava, mas ela estava plácida! Serena.

JC – E o ferimento da boca?

CB – Tinha maquiagem, esconderam um pouco o pescoço. Quando eu tinha 15 anos, o meu amigo Tiago, que dá um depoimento forte no Mataram, me emprestou um livro intitulado Meus lugares escuros do James Ellroy. Sempre fui fã da literatura noir, Dashiell Hammett, Elmore Leonard , muito por causa do cinema. O Falcão Maltês eu li porque vi o filme primeiro. Ellroy adaptou um livro seu, Dália Negra, para o cinema, um dos crimes mais célebres dos Estados Unidos, faz parte do inconsciente coletivo americano. Em Meus lugares escuros, Ellroy faz um paralelo entre o assassinato da própria mãe e o crime da Dália Negra, dois crimes nunca elucidados, os assassinos nunca foram encontrados. A mãe do Ellroy foi assassinada como a Dália Negra. Eu fiquei impactado pelo livro e mal sabia que minha história ia ser parecida.

JC – Quando você leu Dália Negra?

CB – Eu li depois. Li primeiro esse que é a busca dele pelo assassino da mãe, 40 anos mais tarde. Depois eu fui ler o Dália Negra. Foi adaptado por Brian de Palma, com um plano sequência de abertura...

JC – Esse primeiro livro, você leu quando?

CB – Eu tinha15 ou 16 anos.

JC – Portanto, tua mãe tava viva.

CB – Tava viva. – Você voltou a ler esse livro recentemente?

CB – Já li umas 5 vezes, tá na minha cabeceira, como todos os outros livros que eu encontro com titulo de Mãe. Agora descobri que Barthes tem um livro sobre o luto da sua mãe, ainda não encontrei.

JC – Você acha que é o caso de voltar a Hamlet?

CB – Sim.

JC – Hamlet tem a ver com Elegia de um crime. Agora que foi projetado publicamente, qual a tua relação com o filme?

CB – Tenho duas possibilidades de analisar esse filme: uma como filme realizado por mim e minha turma, junto com você. É a mais sombria. Não sei se foi você ou fomos nós: durante a filmagem, percebi que eu voltava a questões pessoais, assassinato, tragédia familiar. Me assustei quando tive essa consciência. Antes não me dei conta, até falamos sobre isso.

JC – Foi.

CB – Foram só palavras, eu só tive a dimensão disso quando filmei cenas de assassinato. Eu não sei filmar um ser humano matando outro, tentei várias vezes e parece que eu filmo de forma convencional, eu tento filmar de maneira errada até, quase uma alegoria do que seria a morte. A cena do assassinato no Hamlet é até meio boba, mas tinha que ser assim. Coloquei em seguida uma cena real encontrada na internet em que um filho assassina o pai na Turquia. Agora cê quer fazer perguntas pelo viés do cinema?

JC – Não. O filme já pertence a teu passado?

CB – Minha sensação, já te falei em relação ao Amador, é que de novo cheguei até a arrebentação mas não passei dela.

JC – Da onda?

CB – Da onda. Não consigo ver o outro lado, talvez por falta de rigor. Depois do Mataram, eu precisava fazer filmes, precisava me esquecer. Amador fala de questões desenvolvidas com a turma. Hamlet volta às questões trágicas. Eu tô sempre falando de mim, esse meu falacentrismo [sic] me cansa.

JC – Cansa?

CB – Eu não me aguento mais. Por isso procuro novos parceiros, principalmente roteiristas. Quero falar de coisas de que não sei nada. Não vou te dizer que tenho a sensação de fracasso no Hamlet, seria injusto com meus parceiros. Eu acho o filme irregular como todos os que eu fiz. Tem cenas de que eu gosto, são até muito fortes para mim, sinto uma evolução no domínio da linguagem. Outras cenas são ruins. Não é um problema de montagem, eu fiz o máximo, não se resolve um filme na montagem. Se existe um erro, não é uma questão de erro, foi na concepção da ideia, não na montagem. Eu poderia ter feito outra montagem, seria uma maquiagem, molestaria o filme muito mais. É cruel você ter que assumir que fracassou, cê não foi até onde poderia.

JC – Até onde?

CB – Um filme mais interessante em termos de discurso, trazer o filme mais perto da vida. Quando se filma uma cena, percebe-se naquele momento o quanto tá próximo do fluxo contínuo da vida e quando é só mais um enredo.

JC – Hamlet tem os dois tipos de cena?

CB – Tem.

JC – Qual é a cena mais distante e outra mais próxima da vida?

CB – São as cenas onde me prendo ao texto, às questões shakspearianas. Talvez eu não tenha tido habilidade para esse embate. Tenho certeza absoluta, me faltou maturidade. Eu fui pretensioso, mas eu desde moleque tenho esse ímpeto. Essas grandes obras devem ser destruídas, mas ao mesmo tempo em que você destrói uma obra dessas, ela te destrói. Não se passa impune por elas. Mas eu não tô frustrado com o filme, foi uma experiência enriquecedora para todos os que participaram e eu fiz o filme. Muita gente diz que vai fazer, eu tô fazendo, pago um preço por fazer esses filmes. Eu não queria falar de cenas especificas.

JC – Tá bom.

CB – Eu queria te perguntar, você se sente frustrado com o filme?

JC – Não. Eu já te falei, acho a montagem desequilibrada, você acha que o problema não é esse. Eu queria te perguntar sobre o pós-Hamlet...

CB – Não é que não tem problema de montagem, é que uma remontagem não salvaria o filme, não o levaria a outro lugar.

JC – Você vê relação entre o Hamlet tal como foi montado e a Elegia de um crime?

CB –São matérias completamente distintas, também a maneira como me debruço sobre elas é diferente. Amador e Hamlet não têm rigor. O filme da minha mãe só pode ser austero e rigoroso, não vejo outra possibilidade.

JC – Te perguntei se você via relação...

CB – Não vejo relação.

JC – Por que eu te faço essa pergunta?

CB – Porque você é um ser humano extremamente emocional e profundamente analítico e cerebral, isso deve ser uma contradição para você.

JC – Não.

CB – Cê tá vendo por um viés psicanalítico. Eu não consigo ter tanto distanciamento. Eu te pergunto: você acha que tem?

JC – Eu acho

CB – Qual?

JC –Os dois filmes estão visceralmente ligados. Me surpreende em Hamlet tal com foi montado (não conheço o material bruto) o tratamento dado à rainha. Foi reduzida a um personagem bem secundário. O rei tem mais destaque. E há a surpreendente eliminação da morte da mãe, nem sei se você a filmou. A ausência dessa morte parece ligada a você. Também foi eliminada a morte de Polônio, não sei se você a filmou. É a cena mais incestuosa da peça. Em todas as versões modernas, Hamlet beija a rainha na boca na presença do fantasma, que é o pai. Talvez fosse usual no século 16, mas o beijo consta inclusive das versões com trajes contemporâneos.

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h21
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Cristiano Burlan: entre Hamlet e a Elegia

3/3

 

CB – Filmei a morte de Polônio e o beijo. A morte da rainha não filmei.([i])

JC – Se você filma e elimina o beijo, e não filma a morte, você não vê alguma relação com Elegia?

CB – Você falando, agora eu percebo. Eu não tinha consciência, não foi uma coisa pensada.

JC – Pode não verbalizar e pensar com o corpo. O quê essa conversa desperta em você?

CB – Mais uma reflexão sombria. Talvez seja uma defesa minha, não querer filmar a morte da mãe.

JC – Talvez você não quisesse filmar a morte dessa mãe.

CB – Mas vou filmar a morte da minha mãe agora.

JC – A eliminação da morte da mãe cria uma ausência no filme. Pode se pensar que você não quis abordar o assunto. Ou que esse assunto só pode ser abordado com tua própria mãe. Seria um sacrilégio filmar a morte de outra mãe. Estou a fazer psicanálise barata.

CB – Vou pensar, eu não conseguiria responder agora. Essas perguntas são pessoais e eu vejo até uma certa crueldade,  que é natural do ser human. Mas isso não me afeta. Isso de alguma maneira te leva para algum lugar, você também teve uma mãe que faleceu? Cê cria uma relação com isso?

JC – O problema com minha mãe foi a separação. Não sei responder.

CB – Eu tenho cada vez mais a sensação que o cinema  talvez não seja o lugar para essas coisas. Não se encerra ali, estamos em constante movimento.

JC – Não se encerra?

CB – O filme não é uma definição sobre essas coisas, é só uma passagem.

JC – Mas ele modifica.

CB – Se não modificasse eu seria uma pedra.

JC – Modifica?

CB – Eu era uma pessoa antes do Mataram e me transformei em outra.

JC – Que outra pessoa?

CB – Principalmente na minha relação com a morte. Eu a sinto cada dia mais presente, isso me traz serenidade, segurança, mas me torna uma pessoa perigosa. Quanto menos medo da morte você tem, menos freios sociais você tem. Também desperta uma paixão pela vida, parece filosofia barata, cê sente que talvez seja a ultima vez, então você se dedica mais às coisas, aos amigos, aos amores. É como se reapaixonar pela vida. Mais alguma pergunta?

JC –Hamlet é você?

CB – Sim, também sou Édipo, também Dom Quixote. Fazer filmes é meio quixotesco. – Deixa eu te perguntar uma coisa. Eu sinto que este momento seu de ator lhe trouxe um grande sopro de vida. Cuidado, dica de uma pessoa  que já foi ator, é muito venenosa a vaidade do ator. Que isso não te afete de nenhuma maneira.

JC – Você acha tô ficando vaidoso?

CB – Como ator, sim, não completamente, eu te conheço também fora da câmera. Não sei se sou seu amigo, mas eu me sinto na categoria de

JC – Sim.

CB – Esse lugar da projeção de si na tela não pode se levar a sério, isso afeta profundamente. O senhor é mais interessante como persona do que como ator. É isso que quero te dizer.

JC – Isso é perturbador. Outro dia, uma amiga me disse: você é vaidoso. Como é uma grande amiga, fiquei chocado, mas ela acrescentou: você lida com a vaidade de forma inesperada.

CB – Isso é verdade, mas somos todos vaidosos. Outra pergunta: o senhor acha que criticar é um tipo de expressão artística?

JC – Eu acho. A questão são essas palavras genéricas. Por exemplo, você diz: o cinema... palavra na qual eu acabo não acreditando.

CB – O cinema!?

JC – O que você faz não está no mesmo universo cultural do que faz um Spielberg. Existem cinemas. [...]

CB – Eu virei, inverti ..

JC – Agora você é o entrevistador... Já tem muito material, você gostaria de falar mais?

CB – Não, acho que já tá bom. Se quiser eu falo mais.

JC – Não.

CB – Não. Tô extenuado

JC – Eu também. As perguntas que lhe fiz a respeito de Hamlet e Elegia, você disse que precisa pensar, é uma proposta para outra entrevista?

CB – Sim, talvez antes do filme.

JC – Sim, antes de você iniciar a viagem. Você vai viajar com câmera?

CB – Tenho dúvida, no projeto eu coloquei que faria uma viagem de pesquisa e pré-produção. N verdade eu não tenho estomago para duas viagens. A viagem de pesquisa já será o filme.

JC – É.

CB – Eu não posso ir à cadeia, conversar com meu irmão e dizer que voltarei daqui um mês para filmá-lo. Uma das ideias que eu tive (provavelmente eu não vou fazer isso) é começar o filme com a bala que guardei para matar o assassino. Fico sempre me perguntando: se eu o encontrar, o que vou fazer, matá-lo, entrevistá-lo ou chamar a policia? Ou tudo isso? Eu o entrevisto, depois mato e chamo a policia, ou chamo a policia, mato e fujo? Me filmo matando ele? Ou eu só falo do meu desejo? Mas eu tenho essa bala guardada para matá-lo.

JC –Você tem a arma?

CB – Arma você consegue... odeio armas, mesmo sabendo atirar, atiro com as duas mãos, servi na Legião Estrangeira, como Jean Genet,. A grande questão é: esse filme é um ato de covardia?

JC – De covardia?

CB – Se meu pai e se meu irmão estivessem vivos, eles já teriam matado o assassino da minha mãe. Eu não tenho coragem, pelo menos não tive até hoje, por isso vou fazer um filme.

JC – Por que você pensa que teu pai e teu irmão teriam feito isto?

CB – Porque eram belicosos, principalmente meu irmão.

JC – Você tem um irmão vivo, ele não matou.

CB – Tenho dois irmãos, um preso e um solto.

JC – Eles não mataram, então são covardes?

CB – Porque sou primogênito. Eu tinha uma relação mais íntima com minha mãe, a responsabilidade era minha, entendeu? Nunca aquela frase que eu te falei teve tanto sentido para mim como agora: o ato de fazer filmes é um ato criminoso. Esse filme que vou fazer é um crime.

JC – Então, por vários motivos, a próxima entrevista será antes do filme.

CB – OK, JC, eu aceito! Terminamos?

JC – Foi bom para você?

CB – Não! Foi horrível! Não, foi muito bom falar, me trouxe pensamentos sobre a vida e sobre o filme, também porque eu tenho falado pouco sobre isso. As pessoas ficam assustadas, têm até medo de perguntar.

 

 

 



[i] Em conversa posterior com CB e a equipe do filme, apareceu a informação que o plano da morte de Polônio e do beijo, de que foi feito uma única tomada, apresentou defeito técnico.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h20
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24/10/2014

Ato, Atalho e Vento

 

O filme de Marcelo Masagão foi exibido no festival de Roma e será exibido em novembro na Mostra Masters do IDFA em Amsterdam

 

É um filme de montagem, nada filmado. No final (da versão que eu vi. Masagão vive alterando a montagem, a obra não se estabiliza), eu estava profundamente emocionado. Um filme como nunca tinha visto. Vou tentar entender essa emoção.

Masagão ultrapassa Nós que aqui estamos por vos esperamos, seu precedente filme com material de arquivo. Havia personagens (as pequenas vidas), uma cronologia (o século XX), filmagens adicionais, letreiros direcionando o sentido das imagens. Ultrapassa inclusive a obra-prima de Mathias Muller, Home stories, que compõe um personagem feminino a partir de diversas atrizes hollywoodianas dos anos 1950. Esses filmes têm uma unidade temática, narrativa. Eles encaminham a atenção do espectador para um final.

Nada disso em Atalho..., nenhuma linha temática ou outra a que se apegar. O espectador só tem a intensidade dos planos mostrados, identificando ou não a fonte. Ele vai percebendo que o filme se organiza no que podemos chamar de blocos, compostos com materiais heterogêneos, sendo que planos de uma mesma fonte podem ser retomados. Há filmes de montagem que não deixam o filme-base se instalar, o plano tem que rapidamente descontextualizado para se recontextualizar na obra nova. Atalho... é generoso, ama os filmes com os quais trabalha.

O espectador percebe também que, dentro dos blocos, os planos se organizam por encadeamento de movimentos, composição ou oposições. Mas por que passar de um bloco a outro? Só que o espectador (pelo menos eu) sente que algo dentro dele vai se adensando, mas ainda é difícil definir o quê.

Simultaneamente correm perguntas: a que estou assistindo? Que objeto audiovisual é esse? E la nave va, mas vai pra onde? Não sei enquadrar o filme e me sinto desestabilizado. Fácil dizer o que o filme não é, o desafio é dizer o que ele é. Percebe-se em cada bloco que materiais diversificados criam entre si uma tensão, e que essa é a dinâmica do filme. A tensão é indefinível mas ela atua e o espectador reage.

Dessa tensão nasce a emoção. Não tem nada a ver com mecanismos de identificação ou projeção que atuam em filmes narrativos. Uma funda impressão de perda (de não se sabe o quê), de infinita nostalgia (de não se sabe o quê). Me pegou tão forte que acabei o filme lacrimejando (no primeiro visionamento).

 

O importante dessa emoção, além da sua densidade, é o “de não se sabe o quê”. Pois não tem como lhe aplicar palavras. Pode se falar em emoção arcaica, em “Freud”, em “mistério”, como já fizeram na tentativa de usar palavras para falar da relação com o filme. Talvez não haja outra possibilidade de falar desse filme senão falar na relação. Ato, Atalho e Vento está além do verbalizável, a obra não se deixa capturar por palavras. O filme de Masagão é inovador no nosso contexto artístico. No mais, as palavras serão descritivas: o filme tem tal duração, é composto de tantos planos, suas fontes são...

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h55
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20/10/2014

Porque Dilma deve ganhar

Chico Buarque de Holanda:


“A verdade é que antes do PT chegar ao poder teve uma turma que ficou 500 anos mandando aqui no Brasil e esse país se tornou um pais de 5o mundo. Entrámos na década de 80 ainda sendo uma república das bananas, governados por ridículos generais sem voto, ditadores golpistas assassinos e ignorantes que “preferiam cheiro de cavalo a cheiro de povo”. Aí finalmente vem um partido que faz o Brasil avançar, tira nossa coleira dos EUA, dá um pé no traseiro do FMI, alça o país a 6a economia do mundo, fazendo o PIB saltar de 1 para mais de 2,4 trilhões em uma década, tira 50 milhões de brasileiros da pobreza, cria uma  nova classe média de mais de 100 milhões com emprego, renda, carteira assinada e conta no banco... Enfim, avanços EXTRAORDINÁRIOS em uma década! Mas a mídia, conservadora e recalcada, sabota e cria um clima de que “estamos à beira do abismo”. E tem gente que vai na onda e não lembra do nosso passado medíocre...”

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h36
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17/10/2014

SBT 16.12.2014

Aécio mostrou ser bom de "programa de auditório" (expressão usada pelo mediador).

Basta isso para ser Presidente?

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h22
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Porquê votar na Dilma

Meu amigo Cau Jahn escreveu

Eu voto na Marli

 

"Vejo tantos ataques dos dois lados que resolvi compartilhar uma reflexão pessoal, que talvez ajude a diminuir o tom agressivo. Dos dois lados.

Mensalão, Escândalo da Petrobrás, Privataria Tucana, Escândalo do Metrô, etc.

Não é o PT nem o PSDB. O Brasil é que tá cheio de pessoas corruptas. O problema vai da padaria até o planalto. É o sujo falando do mal lavado.

Uns apontam os coxinhas, os outros apontam os guerrilheiros comunistas.

São tantos dedos levantados e tantas propostas não explicadas.

É tanta necessidade de agressão pra justificar uma decisão, que vejo várias pessoas tendo que se defender por causa de uma escolha. Inclusive eu.

Sinceramente, não queria nem Marina, Eduardo, Aécio ou Dilma. Nem os chamados "nanicos". Então, respeito o voto em qualquer um dos dois candidatos do segundo turno.

Pessoalmente, tenho vários problemas com diversas propostas de todos eles. Mas não vou votar a favor nem contra uma pessoa ou partido. Me vejo tendo que votar em uma proposta não ideal, mas que fica mais próxima da minha visão de sociedade onde eu gostaria de viver. E respeito quem tenha sua própria visão de sociedade onde gostaria de viver, mesmo que diferente da minha.

Mas, no meu caso, uma boa explicação parte de uma pergunta e uma afirmação que me fizeram esses dias:

1 - Como você, uma pessoa tão esclarecida e bem informada pode votar assim?

2 - Você só pode estar mal informado para votar assim.

Se me pedissem pra resumir, eu diria: "Eu voto na Marli."

É longo, mas explico.

Nascido e criado em Florianópolis, sou filho de médico e mãe com excelente carreira de enfermeira em hospital particular e público. Família branca, com uma renda familiar mais do que razoável, com os filhos estudando em colégio particular. Quando eu e meus irmãos voltávamos do colégio, meus pais ainda estavam trabalhando e éramos muito pequenos para ficar sozinhos. E aí? E aí Marli. Marli do Carmo Conceição.

Em 1989, uma menina na faixa uns 20 anos do interior de Pernambuco, onde passava fome, indicada pela irmã (que trabalhava na casa de um vizinho), foi trabalhar e morar na nossa casa para melhorar de vida. Eu e meus irmãos crescemos juntos com ela. Nós crescemos estudando e ela trabalhando. Nós brincando e viajando e ela trabalhando. Neste meio tempo, a Marli encontrou um namorado, que virou marido. Com ele construiu uma casa na favela e constituiu uma família. Ainda assim, ela continuou trabalhando na nossa casa. Por essa época, ela deixou de ser a irmã mais velha e virou a nossa segunda mãe. "É um atentado mas é meu filho" disse algumas muitas vezes.

A partir de 2003, a vida deles começou a tomar um rumo diferente. De ano em ano, o dinheiro começou a render. O filho, Juninho, tinha aula de manhã, inglês e aula de violão a tarde. Mas o melhor ainda estava por acontecer. Depois de mais de uma década sem ver a mãe, a Marli pagou do seu próprio bolso, duas passagens de avião para Recife: uma para ela rever a mãe e uma pro Juninho ver a vó que nunca havia conhecido. Tempos depois ainda voltou outra vez. Passa ano passa tempo, a Marli decidiu sair da favela e comprou o seu próprio apartamento. "É minha casa, Cau. Essa ninguém me tira" me contava com sorriso de orelha a orelha. Passa tempo, passa ano, se mudou para outro apartamento, também próprio, em um bairro onde se sentia mais segura. Em casa, depois da aula, do inglês, o Juninho brincava no computador, jogava jogos online, conversava com amigos em redes sociais e ouvia música. "Cau, ele não desliga aquele troço! Comprei pra ele estudar e fazer os trabalhos do colégio, mas ele só joga!" reclamava. "Como estão as notas dele?" eu perguntei. "Tá bem, passa direto, com notas altas e as professoras elogiam ele." respondia toda faceira.

Paralelo a isso, cresci em outra realidade. Segura, saudável e farta. Onde conheci muitas coisas e pessoas boas, mas também vi um lado diferente das pessoas. Diferente, mas comum no meu meio. Negro no meu colégio? Dá pra contar em duas, talvez até uma mão. E claro, a maioria deles ganharam o apelido de "Negão". Cansei de ouvir no colégio, no jogo do Avaí, em shopping, em todos os lugares: "para de baianagem" (no sentido em que a pessoa estava fazendo algo estúpido, burro), "macaco" (para negros), "cuidado que tá cheio de neguinho na rua" (saindo do shopping), "tá com pena? adota!", "bandido bom é bandido morto" sobre crianças mortas ou espancadas em razão de crimes cometidos.

No meu colégio, um garoto que assumiu ser gay, foi xingado, teve o rosto cuspido, foi humilhado por colegas e alunos de outros colégios, que no final da aula iam até o nosso portão para ter a chance de humilhá-lo. Uma vez, um colega fez um "pedido" a ele, berrando na sua cara, na frente de todos: "Morre viado." Nós devíamos ter uns 14 anos. Em pouco tempo, o garoto saiu do colégio, sem que nada acontecesse com seus agressores.

Voltando um pouco, para concluir.

Quando era menor, uma vez subi a favela com a Marli, porque ela tinha que passar em casa e eu não queria desgrudar dela. Lá, brinquei com uns meninos que não eram como os meus colegas. Nenhum era branco. Quando me viram, imediatamente me chamaram pra brincar. Não hesitaram. Sempre que me viam na rua, quando desciam o morro, me convidavam pra tomar banho na Praia do Meio e jogar bola na areia. Devo ter ido uma ou duas vezes. Sempre os encontrava quando estava indo para minha aula de inglês. Passa ano passa tempo, perdemos o contato. Uma vez vi um deles, no bairro Coqueiros, apanhando de um policial porque tinha roubado um casaco de outro menino. Descalço, sem camiseta, vestindo só a bermuda na cintura e a mão do policial na cara.

Passado mais tempo, enquanto estava na faculdade, fiz estágio em um projeto para adolescentes carentes, onde reconheci aqueles amigos de outros tempos em centenas de outros jovens. A mesma mistura: uma certa inocência, com o olhar de Homem em uma criança. O olhar de quem viu, viveu e sofreu mais do que uma criança deveria ter visto, vivido e sofrido. Se tem algo que teve forte influência na minha formação pessoal, foi o Rap. Thaíde & DJ Hum, Posse Mente Zulu e claro Racionais. Acredito que o Mano Brown é um dos maiores artistas, poetas e uma das mentes mais brilhantes que o Brasil já concebeu. Esse olhar que comentei, esse sofrimento e as consequências disso já foram versadas por ele tantas vezes, mas essa é uma das minhas preferidas, que sugiro a todos que ouçam: http://goo.gl/VIqS9U

Enfim, depois desse baile todo. Posso dizer que não, não sou mal informado. Sim, sou muito esclarecido e bem informado. Eu tenho esclarecimento e informação há uns 30 anos sobre uma parte da sociedade. A parte com dinheiro, branca, gorda e "saudável". Então, entendo a razão do voto em um projeto que mantém o meio que convivi a maior parte da minha vida, rico, saudável e farto. Entendo mesmo. E respeito. Mas também tenho um pouco (muito pouco) de informação e esclarecimento sobre a outra. A parte da Marli, do Juninho e dos meninos do projeto. E como essas partes são distantes. É um abismo que parecia interminável. Parecia. Mas a partir de 2003, eu vi esse abismo diminuindo aos poucos. E entre 2003 até agora, segue diminuindo, em ritmo lento, mantendo uma distância imensurável ainda, mas diminuindo. E isso me deixa feliz. Tem um projeto político que seria muito melhor economicamente? Não discordo e até confio que sim. O problema é que acredito que teria como consequência, o crescimento deste abismo.

Eu quero fazer parte de uma sociedade onde a gente caminhe para extinguir essa distância. Que busque o fim da segregação social. Quero todo mundo misturado. Quero mais rolêzinhos. Mais playboy dançando funk. Mais maloqueiro dono do próprio negócio. Quero o Jean Wyllys de Presidente. Quero o Douglas Belchior de Presidente. Eu quero que o empregado de hoje, seja o patrão de amanhã. Imagina o Juninho sendo chefe do meu filho? Seria uma ironia linda da vida. Ele teria tanto, tanto pra ensinar para o meu filho. Tomara.

Eu devo isto a Marli e tudo o que ela representa. A luta da menina que tomava água com tijolo ralado porque só água não matava a fome, a conquista da sua geração não vai ser em vão. A geração do Juninho e dos filhos dele, se depender do meu voto, vai ser menos sofrida, com mais oportunidade e menos desigualdade.

Meu voto vai pro projeto que acredito que olha pro lado antes de ir pra frente e não no que olha pra frente pra quando chegar lá, olhar pra trás e jogar as migalhas.

Eu voto na Marli.

13."

 

 https://www.facebook.com/ricardo.jahn/posts/10152764309304717:0

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h19
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13/10/2014

Sem pena / O Mercado de notícias

 Em excelente comentário sobre O mercado de notícias de Jorge Furtado (Retrato do Brasil SET 2014), Leandro Saraiva escreve que a montagem das entrevistas com jornalistas cria uma área de debate e permite perceber a “diferença das opiniões”. Ele reforça: o filme “se mantém no painel das opiniões”. A opção narrativa e a forma de montagem das entrevistas fazem com que questões como “luta de classe” ou “financiamento da imprensa” ou “liberdade de expressão” se apresentem como opiniões dos entrevistados. Resta ao espectador fazer as suas opções, ou não optar. [o filme atua também em outros níveis: a peça de Ben Johnson, as pequenas e sensacionais narrativas]

O tratamento das entrevistas e entrevistados em Sem pena chega a outro resultado. A despersonalização, ao desvincular a fala do falante, e a montagem que associa a fala a imagens não diretamente relacionadas com ela, levam o filme a escapar ao “painel das opiniões” e atingir –  acredito – a ideia ampla e abstrata de instituição

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h28
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08/10/2014

Sem pena - 3


 



Assim como os presos, os juristas e cientistas sociais entrevistados não são vistos. Mas o efeito é diferente, não se cria um personagem coletivo. Essas vozes off despersonalizadas constroem a imagem de uma instituição: sistema carceral / sistema judiciário.

Trabalhar a instituição é raro no cinema brasileiro. O americano Frederick Wiseman ou o francês Raymond Depardon são mestres no assunto. No Brasil a ideia de trabalhar uma instituição em si talvez só no Justiça de Maria Augusta Ramos.

Sem pena desloca a discussão: ele mostra que os sistemas carcerário e judicial são ruins. Mas acredito que ele não diz que se melhorarem vai ficar tudo bem, alguma coisa do tipo: precisa reformar a instituição. Graças a uma série de pequenas informações, como “polícia joguete nas mãos de políticos” ou “encarcerar a pobreza”, fica claro que o problema não é a má qualidade desses sistemas, mas que eles são mecanismos estruturais de opressão social.

Todo esse discurso é embasado numa construção visual que ritma o filme: a reiteração dos corredores. A câmera mostra ou penetra no corredor: a repetição dessa forma conectam os dois universos, carceral e judicial. Forma corredor nas cadeias (beco, galeria de presídio feminino). Forma corredor no arquivo. Forma corredor nos palácios dos tribunais. Inicialmente o espectador não percebe a forma; é a repetição que a constrói. À medida que ela se constrói, associada aos discursos sem rosto, vai se formando a ideia de instituição. Sem pena é um belíssimo trabalho ensaístico.

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h25
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07/10/2014

Sem pena - 2

 
Já se comentou que os entrevistados de Sem pena não aparecem. É sem dúvida um esforço bem sucedido para escapar ao modelo desgastado das “cabeças falantes”. Mas o filme vai mais longe.

Há vários planos nas cadeias e arredores em que as cabeças são cortadas. Para preservar a identidade, as pessoas são filmadas do pescoço para baixo. Ou em plano aberto que não permita a identificação. Ou em plano desfocado. Ou em primeiro plano de costas (presídio feminino). Duas exceções: portas de cela em que presos se amontoam de frente e em foco.

Esses procedimentos, que desvinculam a cena ou a fala de um rosto, de uma expressão, de uma entonação, provocam um efeito de despersonalização fundamental para o filme. Ele gera o que podemos chamar de personagem coletivo. Contribui também para a construção desse personagem o depoimento de uma presa montado com planos de um arquivo com uma imensidão de caixas anônimas (tipo arquivo morto) cada uma remetendo a um preso ou processado.

O filme não trata deste ou daquele caso mas do conjunto dos presos e das presas.

Assim, quando, talvez já no último terço do filme, aparece o primeiro plano de um indivíduo, o espectador leva um choque: um juiz.

Antes do plano-choque há algumas digressões. O depoimento de um jurista oculto é acompanhado por bustos de bronze de autoridades judiciárias: enquanto o falante não é visto, as cabeças (do pescoço para cima) ficam mudas. Os bustos surgem depois desse longo processo de despersonalização: bela ironia. Esses bustos solenes e oficiais são o eco invertido de outras cabeças que apareceram anteriormente: o primeiro depoimento de um preso é acompanhado por pinturas em estilo digamos expressionista de rostos aterrorizados. E devemos acrescentar as duas portas de cela em que as pessoas não são individualizadas.

Na cena de audiência que abre com o plano-choque, a câmera se mantem próxima das pessoas envolvidas na situação, só o rosto da inculpada é ocultado. Essa sequência seria banal num filme de entrevistas ou de estilo observacional, forma comum do documentário atual. Aqui ela ganha uma força impressionante por ser o contraponto do processo de despersonalização que organizou o filme até então. Ela funciona como catálise.

Com a despersonalização / catálise , Sem pena contribui para a renovação da linguagem do documentário paulista.


 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h27
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02/10/2014

Sem pena


 

Ontem em palestra na ECA, Paulo Cursino afirmou que “o cinema brasileiro, o audiovisual brasileiro em geral é muito chapa branca”. Ele tem toda razão.


Sem pena de Eugenio Puppo não é um filme chapa branca.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 17h05
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09/09/2014

De Menor

 
 

De Menor

 

 

Vi na televisão uma entrevista com a juíza que assinou o alvará de soltura de Cadu, assassino confesso do cartunista Glauco e seu filho. Em liberdade, ele teria voltado a matar. A juíza disse que agiu de conformidade com a lei baseando-se em dois laudos que justificavam sua decisão. Tive a impressão que a juíza não tinha contato com a realidade mas só com a papelada.

 

É o que o filme de Caru Alves expressa com precisão. A narrativa trabalha duas séries: de um lado audiências em um juizado de menores em que são acusados adolescentes pobres. Eles são defendidos por uma advogada que assume a defensoria pública. A outra série é composta pelas relações dessa mesma advogada com um rapaz que acabamos descobrindo ser seu irmão.  O contraponto entre as audiências (que lembram cenas de Juízo de Maria Augusta Ramos) e a intimidade dos irmãos salienta que a justiça não tem acesso às pessoas e se pauta pelo texto da lei e pelo que está escrito nos autos.

 

O escândalo irrompe quando a “delinqüência”, “compreensível” e “normal” quando se manifesta em meios pobres e famílias estouradas, surge na classe média onde não faltam comida nem teto.

 

A narrativa é contida. Ela reduz personagens e temática ao essencial. Nenhuma palavra a mais do que o estritamente necessário. Esse minimalismo é harmonioso: construção da narrativa, diálogos, interpretação dos atores.

O minimalismo e a narrativa despojada não são do agrado do público maior. Fui a uma sessão no fim da tarde de domingo, éramos uns quinze.

 


De menor marca a estréia de uma diretora de pulso firme.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h49
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05/09/2014

O dito pelo nao dito

Em matéria de criminalização da homofobia, Marina já tinha dado uma recuada.

 Nova recuada:  palavra de ordem é deixar quieto a Lei da Anistia. Isso valerá apoio militar.

 Quanto ao agronegócio e à revisão dos indicadores de produtividade visando a desapropriação de terras, vai recuar também?

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 17h12
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03/09/2014

Estilo Marina Silva

 ... não tá mais aqui quem falou

(Degas, No Museu do Louvre, fragmento)

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 17h29
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01/09/2014

Temporada de caça

  A pedido de um bispo, a candidata recuou em matéria de criminalização da homofobia.

Agora podem xingar, bater, matar:


a temporada de caça aos gays está aberta

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h36
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