Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

10/05/2007

No tempo (3)

Banco

 

Nos seus filminhos publicitários (aliás bem bolados) um banco nos informa que “nem parece banco”. Qual é o problema?

Não é bom parecer banco? É melhor disfarçar?

Um banco que não parece banco nem por isso deixa de ser um banco. Por que não quer parecer? Responderão: atendimento cordial, menos buracracia (como aparece em alguns filminhos). Mas será este o motivo real ?

Ou haveria outro motivo mais fundo para não querer parecer banco?

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 17h43
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09/05/2007

No tempo (2)

Catarata

 

Fui operado da catarata.

Anunciaram que eu seria sedado. Me levaram para a sala de cirurgia, gelada. Enfiaram uma agulha no meu braço. Nada do sedativo fazer efeito. O anestesista anunciou: vamos começar. Não lembro de mais nada. De repente, o cirurgião apareceu a meu lado e disse: a operação deu certo.

Entre “vamos começar” e “a operação deu certo”, lembro de algo, sim. Uma luz branca muito intensa e a consciência de que eu via essa luz, nada além disso. Não tinha consciência de onde eu estava, de que estava sendo operado.

Ver – e ter consciência de que se vê – uma luz intensíssima fora do tempo e do espaço, não seria isso entrar no paraíso?

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 10h06
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07/05/2007

Ficção / documentário

 

 

O diálogo ficção-documentário, as fronteiras entre os dois etc, temas de eternos colóquios.

Para complicar o debate lembremos que se trata de dois conceitos, de definição um tanto hesitante, que se aplicam a filmes. Embora usemos as expressões “filme de ficção” e “documentário”, não nos perguntamos se, de fato, elas correspondem a algo no mundo das coisas. Nada menos evidente. Esses conceitos podem funcionar muito bem nos discursos sem designar coisas. A existência de um conceito não implica a existência de um objeto correspondente no mundo das coisas. A existência do conceito “documentário” não implica a existência do objeto “documentário”. O que não impede que, se o aplicar-mos a um filme este passará a ser considerado documentário. Por isso não são responsáveis nem o conceito nem o objeto, mas apenas nós que estabelecemos a relação.

Aliás, as cinematecas usam duas categorias para classificar seus filmes: “ficção” e “não-ficção”. O que deixa supor que as cinematecas sabem o que seja “ficção”, e todos os filmes que não se enquadram nesta última categoria são definidos pela negativa.

O que seja a ficção, nada menos evidente. Quando se usa o conceito de “ficção” como oposto ou diferente do de “documentário”, acredito que não se pensa na literatura de um Sterne em TRISTRAM SHANDY.

Tom Wolfe, em textos do início dos anos 1960 sobre o Novo Jornalismo, analisando não o cinema documentário mas o novo estilo de jornalismo e reportagem, deixa claro que a referência não é a ficção em geral, mas basicamente um modelo literário: o realismo.

Ora, o realismo, que começa a se desenvolver no final do séc. XVII e atinge seu apogeu no séc. XIX, é essencialmente uma ficção DOCUMENTADA. Balzac e Zola, por exemplo, eram pesquisadores que praticavam inclusive pesquisa de campo. Flaubert pesquisou os efeitos do arsênico sobre o corpo humano para descrever a morte de madame Bovary. O final do romance foi inclusive usado pela literatura médica pelo valor científico  da descrição da agonia desse personagem de ficção.

Wolfe lembra que Dickens, preparando  NICHOLAS NICKLEBY, mudou de nome e, fazendo-se passar pelo amigo de um recém-viúvo que procurava uma escola para o filho, visitou diversos internatos em busca de informações para o seu romance. O realismo é uma forma literária na qual a documentação e a informação colhidas in loco, permite ao romance expressar a realidade. A informação que resulta da pesquisa e a ficção convivem bem, não entram em choque, se complementam, mesmo se às vezes (pelo menos para nós hoje) digressões excessivas ou uma certa forçação de barra na composição dos personagens e de suas situações para passar informações, perturbam essa harmonia.

De qualquer forma, a relação informação - documentação / ficção não foi um problema para o séc. XIX. Ora, hoje vivemos nos perguntando se SER E TER de Philibert é documentário ou não é? Se GOOD NIGHT, GOOD LUCK é ficção ou não? Essas perguntas são provavelmente irrespondíveis, ou receberão respostas retóricas. Porque o problema não está aí. O problema é: por que formulamos tais perguntas? por que as consideramos procedentes, inquietantes ou mesmo angustiantes?

Talvez Carlo Guinzburg nos ajude a mudar o patamar da discursão ao escrever: “Do patrimônio tecnológico que conferiu aos europeus a possibilidade de conquistar o mundo fazia parte também a capacidade, acumulada no curso dos séculos, de controlar a relação entre visível e invisível, entre realidade e ficção.” O tema de Guinzburg não é a literatura realista, nem o cinema de ficção ou documentário. Mas ele nos ajuda a pensar que, no domínio do cinema, não conseguimos mais controlar a relação entre ficção e realidade. A harmonia que existia no séc. XIX entre informação e ficção se rompeu. A relação entre ficção, realidade e representação da realidade se tornou problemática. O que acontece na área cinematográfica não é provavelmente um problema especificamente cinematográfico, mas um sintoma da nossa difícil relação com a realidade e suas representações. Então talvez as perguntas devessem ser: o que é realidade para nós? o que consideramos representações da realidade? o que são as relações entre a realidade e suas representações?  

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h54
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