Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

18/05/2007

Baixio das bestas, a respeito de

 

BAIXIO DAS BESTAS transpira sexualidade por todos os poros, frenesi verbal, agitação dos corpos. Mas as cenas de sexo são pouco convicentes (timidez dos atores? da direção?) A violência sexual é está antes na representação e na significação do que na mostração, na tatilidade. Os atores ficam em ereção quando não há mulher em cena. Essa palidez sexual encontra um forte contraponto na inserção de um filme pornográfico que apresenta a ação genital com óbvia evidência. Esse contraponto pornô (que é um dos 3 pontos de referência do universo do filme, juntamente com a cana de açúcar e o maracatu) afirma o esvaziamento dos personagens, que se esgotam na sua agitação.

A citação pornô é a referência cinematográfica que melhor funciona porquê se relaciona com o filme como um todo. As outras referências (a frase dita por Matheus Nachtergaele, a fachada degradada do cinema) parecem sintomas de uma doença juvenil conhecida sob o nome científico de metalinguagem, são significações acrescentadas ao filme. Assim como parece significação sobreposta a entrada alegórica do maracatu na casa do velho.

O filme é realmente forte e visceral quando evita significações explícitas. Na presença da cana, na passagem dos caminhões, no bordar de um figurino do maracatu, na cena da menina que espera o ônibus, no corte do maracatu para a queimada. No extraordinário primeiro plano do homem que torce a cana e deixa pingar o suco na boca. Esse plano condensa toda a violência do filme, isto é cinema tátil.

Assistir a Baixio das bestas no momento em que o fantasma do etanol paira sobre o país é impressionante.

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h33
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17/05/2007

Otávio e as letras, a respeito de (2)

 

Quando escrevo que OTÁVIO E AS LETRAS é um filme sem sentido, o que eu faço? Faço uma afirmação sobre o objeto de minha frase – no caso o filme OTÁVIO E AS LETRAS – de que destaco uma característica. Mas não é isso que eu quero fazer. O que eu quero é que minha frase seja a expressão de minha relação com o filme. A frase se apresenta como um ato de análise, no fundo um ato crítico tradicional. Mas eu gostaria que ela representasse uma resposta ao impacto (insisto: impacto) que o filme provocou em mim. Neste caso, poderíamos considerar que esta frase MINHA interpretação do filme, como poderá haver outras interpretações igualmente válidas de outros espectadores. Cada um interpreta o filme como bem entender, as interpretações são equivalentes, e ficamos todos satisfeitos. Também não é isso. A frase “OTÁVIO é um filme sem sentido” é uma INTERVENÇÃO. Ou seja, além de considerear OTÁVIO um filme sem sentido, ou tendencialmente sem sentido, e de conciderar também que essa característica é uma conquista, eu convido outros espectadores a considerar OTÁVIO um filme sem sentido e, por isso, um momento importante da pesquisa poética na nossa atualidade cinematográfica.

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 11h19
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15/05/2007

Otávio e as letras, a respeito de (1)

 

 

A pulsão scópica em A JANELA INDISCRETA de Hitchcock ou NÃO AMARÁS de Kieslowski se organiza num sistema narrativo com exposição, desenvolvimento e desfecho. Essa organização pode embasar interpretações sociológicas ou psicanalíticas, e assim o filme ganha sentido.

OTÁVIO E AS LETRAS não tem sentido. A pulsão scópica e as pulsões gráficas e representacionais não se organizam numa coerência narrativa suscetível de embasar interpretações mais ou menos coerentes e convicentes, que tomariam a forma de um discurso. Por isso o filme é extremamente inquietante, ele é verbalmente irrecuperável.

A ausência de sentido é uma conquista. É difícil não ter sentido. Não ter sentido significa não se enquadrar em discursos e conceitos previamente estabelecidos pelo saber. Essa conquista será perceptível para quem confrontar as várias versões do roteiro com a montagem entregue ao público. As versões são mais narrativas, permitem mais facilmente mobilizar conceitos psicanalíticos ou semióticos. Tudo isso foi cortado na montagem atual: somos confrontados com a nossa doença psicossocial que não é nomeada.

A ausência de sentido como uma conquista explodiu em mim em 2004, quando vi 1/3 DOS OLHOS de Olivier Zabat no festival de Marselha, filme que me provocou um profundo estado de euforia. Como ser impactante, ou seja, estimular violentamente os afetos e não ter sentido? Se o sentido não se forma, os afetos agitados não se acalmam. Foi grande a minha surpresa quando recebi um e.mail de Zabat se referindo a 1/3 DOS OLHOS como um filme “sem referente”. Como é possível fazer um filme, escrever um livro “sem referente”?

 OTÁVIO E AS LETRAS ao desestruturar a narrativa, ao eliminar propostas explicativas, coloca um desafio psicanalítico, social e poético.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 10h09
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