Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

29/06/2007

Contar uma vida

Contar uma vida

 

 Toni Ventuiri me mostra uma versão de seu filme RITA CADILLAC A LADY DO POVO. E eu me pergunto: o que é contar a vida de uma pessoa no cinema?

A vida de qualquer pessoa é interessante, quer seja a de Rita Cadillac, de um político, um alcoólatra, um sem teto, um hipócrita. Interessante desde que seja contada de forma interessante. Se a narrativa não for interessante, a vida tampouco o será. O que é esse narrar, esse contar? Quem conta? O cineasta? Sobre que materiais ele trabalha? Será a vida de uma pessoa, seu personagem neste filme? Com certeza, não.

O cineasta trabalha sobre o narrado, seu material de base são narrações feitas pela pessoa de que se ocupa o filme, e outras que têm informações a respeito da primeira. Isto é verdade até quando se trata de narrações provocadas pelo cineasta, mesmo que esse estímulo condicione parcialmente as narrações. Essas narrações podem aparecer diretamente no filme, ou não, servindo simplesmente de informação para o cineasta. Quando aparecem no filme, tomam em geral a forma de entrevistas, depoimentos, diretos ou em de voz over. Mesmo quando o cineasta cria uma cena especialmente para o filme – por exemplo Rita revisitando o colégio de freiras onde estudou – sua matéria prima é o narrado: Rita lhe contou a sua infância, o que sugeriu ao cineasta levá-la ao colégio ou à rua onde viveu com sua avó.

Nesta perspectiva o trabalho do cineasta é narrar o narrado, é compor com o narrado e a partir do narrado uma narrativa de segundo grau. É a seleção de material, os enquadramentos, a montagem, etc. em operação neste segundo grau, que podem tornar o narrado de primeiro nível interessante e, a partir daí tornar interessante para o espectador a vida da pessoa de que o filme trata.

Esse narrar de primeiro grau não é exclusivamente verbal, poderá conter material de arquivo, por exemplo trechos de shows de televisão ou de filmes de que Rita tenha participado. Mas mesmo assim, esses materiais audiovisuais são introduzidos e envoltos por narrativas verbais, por exemplo Djalma Limongi ou Hector Babenco comentando a participação de Rita nos filmes ASA BRANCA e CARANDIRU.

Por vezes o cineasta passa à narração direta. É o que faz Toni Venturi por exemplo na excelente cena da cozinha em que Rita e seu namorado preparam uma refeição. Mas esses materiais têm em geral um caráter complementar ou de contraponto (como lembra Venturi), sendo que o núcleo duro do filme é o narrado.

Nesse sistema cinematográfico, narrar a vida de uma pessoa consiste basicamente em encenar o narrado.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h54
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28/06/2007

No tempo (5)

No tempo (5)

O amigo e a vida

 

 Depois de umas duas décadas de autodestruição sistemática, um amigo meu foi-se – quase. Levaram uma hora para reanimá-lo e o trouxeram de volta. Ele está vivo. É o que importa.

É o que importa? Atualmente cultuamos a vida. Somos imersos numa espécie de vitalismo, da “alma no útero” até a eutanásia, na medicina ou na religião. Os seres vivos parecem menos relevantes do que a vida em si. Ou melhor, eles são relevantes por serem portadores da vida, são os hospedeiros da vida.

Mas esses mesmos seres vivos não devem exercer nenhum poder sobre a vida de que são portadores. O seu único direito é continuar a ser hospedeiros da vida enquanto a tecnologia e a medicina conseguirem mantê-la neles.

Meu amigo está se recuperando bem e a vivacidade de seu olhar sinaliza sua satisfação em estar vivo. Recobrou o uso da fala e disse que ia preparar seu testamento.

Hoje ele está felissíssimo de estar vivo.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h57
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