A gaivota, a respeito de

 

 

Num determinado momento de A GAIVOTA, o esplêndido espetáculo apresentado pela Companhia dos atores, o elenco se engolfa nos bastidores, deixando apenas no palco os objetos de cena. E uma atriz, de vestido abóbora, que fica no fundo do palco vazio.

Numa cena do quarto ato de A GAIVOTA de Tchekhov, “todos” saem para jantar, Treplev, o poeta atormentado, fica só. Ele ouve umas batidinhas na porta envidraçada, supõe que seja a mulher amada, abre a porta e não vê ninguém. Ele sai para investigar melhor – o palco fica vazio por um instante – e logo ele volta com Nina.

Não tem como não relacionar o palco vazio na peça e no espetáculo. Há um jogo de curiosa simetria. Na peça “todos” saem pela esquerda, no espetáculo, pela direita. Podemos imaginar que essa saída do elenco é a saída de Treplev, multiplicado por “todos” em busca de seu amor. Só que a mulher amada não está onde vão buscá-la, mas está em evidência no palco com seu vestido abóbora. Relacionei essa saída e a permanência da atriz no palco com uma idéia de Lacan (reinterpretada por mim): o inconsciente, por definição, não se encontra lá onde está sendo procurado. E com um conto de Edgar Allan Poe, em que os investigadores reviram a casa em busca da carta roubada, que foi intencional e maliciosamente deixada em evidência em cima da lareira. O que procuramos está diante de nós e não percebemos. O que é reforçado pela atitude um tanto desamparada da atriz.

Relacionar o palco vazio e as saídas no espetáculo da Companhia e na peça de Tchekhov pressupôe que esta esteja presente na memória do espectador. Se o espectador não conhecer o texto original, o espetáculo funcionará muito bem. Se, ao contrário, o espectador se lembrar da peça, o espetáculo funcionará diferentemente. É como se a peça fosse um subtexto com o qual o espetáculo estabelecesse um link. A significação se dá nesse link, ou seja, na relação inteligente e surpreendente, no jogo de inversões que se cria entre a peça e o espetáculo. Algo similar ocorria entre a Orestíade montada pela Societá Rafaello Senzio e a trilogia de Sófocles. Esses espetáculos funcionam em dois níveis: um nível autônomo, e outro relacionado com o subtexto. Grande parte do prazer estético provém da inteligência e sutileza do diálogo mantido pelo espetáculo com o subtexto.

 

Outro aspecto do espetáculo da Companhia que gostaria de ressaltar é o fato de que os atores interpretam diferentes personagens e que os personagens podem ser interpretados por diferentes atores, respeitados os gêneros masculino e feminino. É um tipo de trabalho diferente daquele que ocorria em ARENA CONTA TIRADENTES. O jogo de coringa não se aplicava ao protagonista principal, Tiradentes, sempre encarnado pelo mesmo ator. Essa união personagem/ator afirmava a coesão sólida e firme do sujeito. No espetáculo da Companhia a passagem dos personagens pelos diversos atores como que dissolve a idéia de um sujeito uno. O sujeito passa a ser difuso, fragmentado, sem fronteiras delimitadas, flutuante. Nem sempre percebemos de imediato quem interpreta que personagem, temos que buscar o sujeito, ficamos às vezes indecisos. Tendo a pensar que A GAIVOTA  da Companhia nos sugere uma noção de sujeito ao mesmo tempo atuante e difuso, muito próximo da nossa vida contemporânea. O núcleo duro do sujeito, sempre reafirmado pela união ator/personagem, se esvanece, cedendo lugar a um sujeito difuso e múltiplo.

Esses aspectos de  A GAIVOTA da Companhia dos atores, que acabo de ressaltar, me parecem beirar a genialidade.