Salmo 91, a respeito de

 

No programa da peça SALMO 91, baseada no livro ESTAÇÃO CARANDIRU, de Drauzio Varella, Dib Carneiro neto, o autor, escreve que suprimiu “sem cerimônia a figura do médico narrador”. Eu não penso que essa supressão seja sem consequência. A eliminação da mediação entre os enclausurados e o público da sala de teatro transforma os personagens numa espécie de exotismo social, com tonalidade ora patética, ora cômica.

Que possibilidade temos nós, leitores, público de teatro e cinema, de entrar em contato direto com esse mundo fascinante e aterrorizador, com as pessoas desse mundo, - sem mediação? Essas possibilidades são mínimas, ou mesmo nulas – a não ser indo em  pessoa ao presídio.

Babenco sabia do problema da mediação, que ele tentou resolver com o personagem do médico no filme CARANDIRU. O resultado é tosco e o personagem frágil, pois serve apenas para encadear as narrativas dos presos.

O PRISIONEIRO DA GRADE DE FERRO não usou o médico como mediador. Drauzio é filmado com atenção e ternura, mas a mediação é assegurada pelo diretor do filme, Paulo Sacramento, seu fotógrafo, Aloysio Raulino, e pela montagem.

O problema da mediação, ou seja da articulação entre os presos e o público leitor ou espectador é fundamental, pois é nessa mediação que se dá a relação social. E quem sabe disso melhor do que ninguém é o próprio Drauzio Varella.

Vejamos o início do livro. A primeira frase, precedida de um travessão, sugere a voz de um detento:

“- Cadeia é um lugar povoado de maldade.”

As duas frases seguintes se referem a Drauzio:

“Pego o metrô no largo Santa Cecília, na direção Corinthians-Itaquera, e baldeio na Sé. Desço na estação Carandiru e saio à direita, na frente do quartel da PM.”

É bem possível que algumas vezes o médico Drauzio tenha ido de carro ao presídio. Mas o escritor Drauzio vai de metrô. Essa abertura do texto anuncia o presídio e a mediação. O escritor, informado pelo médico, recolheu as histórias dos presos, as ordenou em capítulos, as transcreveu numa linguagem fluente e agradavél para seus leitores. Esse é o trabalho da mediação: ela é a articulação social entre o mundo carceral e o público leitor.

Prestemos atenção à sutileza do título: o livro não se intitula “Carandiru” como o filme, mas “Estação Carandiru”. A segunda palavra remete ao objeto do desejo (ou da repulsão). A primeira é a mediação, o que é reforçado pelo sucesso recente da palavra “estação”no nosso meio cultural, aplicando-se a empreendimentos cinematográficos (Estação Botafogo) ou editoriais (Estação Liberdade). Esse título é um achado, por apontar discretamente para a articulação social que o livro opera, e sem a qual ele não teria para nós o sentido que tem. É só pensar na diferença entre a literatura de Drauzio Varella e a literatura de presos que relatam sua vida.

Me pergunto se a direção, a cenografia e os figurinos de Gabriel Vilela, como sempre elegantes e precisos, conseguiram estabelecer a mediação entre a representação dos presos e os espectadores. Acredito que não. Senão, como explicar que a cena da bicha na escada provoca tantas risadas, como se estivéssemos assistindo a algum esquete de teatro de revista?