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Blog de Jean Claude Bernardet

28/03/2008

Autoficção 2

 

 No capítulo “O homem como ator” de O DECLÍNIO DO HOMEM PÚBLICO. AS TIRANIAS DA INTIMIDADE (livro mencionado por Ilana Feldman na sua análise de SANTIAGO de João Moreira Salles), Richard Sennett comenta o PARADOXO DO COMEDIANTE, obra elaborada na segunda metade do Séc. XVIII por Diderot. O paradoxo é que na representação dramática o ator não expressa sentimentos que ele sentiria, o ator “se esmera na simulação, embora nada sinta”. Essa representação, no entanto, provoca sentimentos na platéia.

A posição de Diderot não era unanimidade no Séc. XVIII. Como prova, Sennett cita um diálogo entre duas atrizes famosas sobre a importância do sentimento na construção de um personagem. A sra. Dumesnil diz que dá a alma ao seu papel, enquanto a sra. Clairon afirma nunca ter entendido como se pode dispensar o cálculo na representação dramática. Nesta altura, intervém o ator Dugazon que afirma que o problema não é se perguntar se a representação dramática existe como arte, “mas se nesta arte é a ficção ou a realidade que deve dominar”. Evidentemente a sra. Clairon diz que é a ficção, mas, para a sra. Dumesnil é a realidade.

Talvez uma das dimensões da autoficção seja, embora se possa ter em mente a questão levantada por Dugazon, não só não querer, mas principalmente não conseguir responder.

Pensando alto (estou ditando a Valter Filho): terminadas as filmagens de FILMEFOBIA, o diretor Kiko Goifmam pediu filmagens adicionais para tornar mais complexo o personagem chamado Jean-Claude no filme, e interpretado por mim. Para essas filmagens Kiko me deu a instrução de ressaltar a angústia do personagem, e recebi, por escrito, motes (não um texto pronto) sobre os quais eu devia improvisar. No fim do dia, o diretor considerou que o material necessário (imagens + sons) tinha sido conseguido. Dias depois, conto a filmagem a uma amiga e resumo as minhas improvisações. Ela me responde: “mas isso é a verdade”.

Essa “verdade”, que seria – segundo minha amiga – a minha “verdade” como pessoa, foi, no entanto, elaborada para a construção de um personagem, a pedido do diretor.

Essa “verdade” foi – acredito – elaborada a partir de uma crise que eu tive durante as filmagens. O material mental gerado pela crise, ou que gerou a crise, foi encaixado nos motes e, com mudanças de ênfase, deslocamentos, supressões e acréscimos, servirá de matéria-prima durante a montagem para a construção de um personagem, que eu não sou, mas do qual não posso dizer que não seja eu. De certa forma uma vivência íntima foi transformada em espetáculo.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h20
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