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Blog de Jean Claude Bernardet

10/04/2008

JUÍZO, de Maria Augusta Ramos

                

 

1) Como considerar os adolescentes que estão no lugar dos réus nas sequências de audiência? Como interpretes? Acho que seria preferível dizer que SUBSTITUEM os réus cujos rostos não podem ser mostrados.

Deles pode se dizer que praticam autoficção. Maria Augusta explicou em entrevista que evitou atores, motivo pelo qual não entrou em contato com o grupo Nós do morro. Os adolescentes escolhidos representam no filme uma situação que já vivenciaram ou poderiam vivenciar, considerando a idade e o meio social. Poderíamos então dizer que uma das dimensões da autoficção consiste em trabalhar sobre possibilidades de si mesmo. Não somos apenas o que somos mas também as nossas possibilidades, mesmo que nunca se concretizem na prática cotidiana. Podemos nos pensar como uma vibração de possibilidades, das quais apenas algumas se efetivam na concretude das nossas vidas.

A autoficção prossegue nas cenas da cela (ginástica, jogo capitão de areia). Mas acho que o status dos adolescentes se modifica em relação ao seu comparecimento nas cenas de audiência: nessas cenas, os substitutos estão presentes por força da lei a que a diretora teve de se submeter. As cenas da cela não são, a meu ver,  rigorosamente indispensáveis para desvendar o processo judiciário a que esses jovens estão submetidos. Eu diria que de “substitutos” eles passam ao status de atores não profissionais. Os planos da cela me parecem atender a uma necessidade da diretora, que deseja se aproximar destes adolescentes de forma mais pessoal, mais íntima, fora da encenação ritual do tribunal.

 

 

2) Os planos frontais dos menores substitutos na sala de audiência resultam da junção de dois sistemas legais: o ao qual os adolescentes são submetidos, o outro, aquele ao qual a diretora foi submetida.

Outros planos também revelam a necessária obediência a lei que constrange a cineasta. Um deles é o plano aberto do refeitório filmado com câmera alta. Três fileiras de mesas ocupam o quadro; nas duas superiores, as mais afastadas da câmera, os jovens prisioneiros estão sentados de cada lado das mesas. Na fileira inferior, que se encontra mais perto da câmera, as mesas são ocupadas apenas de um lado: o dos adolescentes que ficam de costas para a câmera. É de se supor que, em situação normal, as mesas desta fileira são ocupadas dos dois lados. Mas houve necessidade de suprimir os adolescentes que ficariam de frente para a câmera, porque poderiam ser identificados, devido  a sua proximidade, enquanto os mais afastados, mesmo que vistos de frente, não podem ser reconhecidos. A construção deste plano decorre de duas leis: a que pesa sobre os adolescentes e a que constrange a diretora. A conjunção das duas leis dá a este plano uma força surpreendente.

Outro plano, cuja força provém da mesma conjunção, é o da visita. À esquerda do quadro está uma mãe inquieta porque o filho não aparece, enquanto os filhos das outras mães já chegaram. Finalmente, pela borda esquerda do quadro, chega o retardatário: ele foi visivelmente instruído para se manter sempre de costas de forma a não ser identificado. JUSTIÇA, filme anterior de Maria Augusta, e JUÍZO são provavelmente os únicos filmes brasileiros onde a lei está presente, não como tema da obra, mas na própria materialidade da construção dos planos e da montagem.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h38
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