A última palavra é a penúltima

 

A passagem subterrânea da praça Ramos de Azevedo, que liga a antiga Light ao antigo Mappin, foi palco de um espetáculo teatral.

Usei essa passagem com frequência para evitar de usar a rua Xavier de Toledo, isto nos anos 60, talvez 70. E o hábito foi se perdendo. A passagem ficou cada vez mais suja. Depois a insegurança tomou conta da gente, e depois francamente o medo. Embora eu tenha sido assaltado onze vezes no centro de São Paulo durante os anos 90, nesta passagem nunca fui assaltado, mas o medo existia, com certeza.

Essa relação histórica com a passagem foi meu ponto de partida ao assistir  A ÚLTIMA PALAVRA É A PENÚLTIMA (realização Teatro da Vertigem).

Minha primeira impressão foi que o espetáculo tinha um jeitão anos 70. Atores e atrizes caminhando de um ponto a outro da passagem me lembraram Pina Baush.

Superei esse momento quando me dei conta de que os atores transitavam pela passagem, ou seja, a usavam exatamente como devia ser usada: passar, transitar, o que eu tantas vezes tinha feito em décadas passadas.

E aí cheguei ao ponto que para mim é o âmago do espetáculo: este espaço, este equipamento urbano de que fomos despossuídos pela evolução da sociedade paulista (e brasileira), o reconquistamos. Mas numa relação bem específica: a relação estética. Um olhar crítico sobre essa relação faz emergir claramente o seguinte: este espaço não te pertence mais. A única relação que você pode ter com ele é a estética. O resto é medo.

A passagem é ladeada por vitrines. Os espectadores foram instalados nestas exíguas vitrines, sentados em banquinhos, ou seja, nós ficamos numa situação antagônica à finalidade da passagem. Fomos reduzidos à imobilidade, ao não-trânsito. Pensando no nosso confinamento e observando o trânsito dos atores, me voltou que, na época fausta da passagem, estas vitrines eram ocupadas por mercadorias. Nós estávamos no lugar de mercadorias que, décadas passadas, estavam expostas para nos seduzir quando por aí tansitávamos.

Assim considerado, o espetáculo é perturbador, é revelador de contradições sociais. Como a passagem fica no centro degradado da cidade, ao sair temos quase vontade de gritar: queremos o nosso centro de volta, não como objeto estético, mas para usá-lo como nosso espaço urbano, viva o centro.

Essa reação ao espetáculo  é a de uma pessoa que mantém relações históricas com a passagem (e pratica a ironia). Como terá reagido um público mais jovem? E como terão reagido os ocupantes noturnos da praça Ramos de Azevedo e da rua Xavier de Toledo, caso tenham se interessado e conseguido assistir ao espetáculo, pois uma distribuição de senhas bastante seletiva provocou reclamações.