O narrativo e o dramático - 1

 

Nos últimos anos o teatro narrativo ganhou terreno. O precursor no Brasil é Aderbal Freire-Filho que, já no início dos anos 90 não adapta mas encena romances (A MULHER CARIOCA AOS 22, de João de Minas, 1990). Para Aderbal, tudo já está em Brecht, no entanto acho preferível não usar a expressão teatro épico mas teatro narrativo. Mesmo que muitos procedimentos sejam comuns aos dois e tenham sua origem em Brecht, a perspectiva do teatro narrativo é provavelmente bem diferente do projeto brechtiano e, aliás, está ainda bastante misteriosa.

Mas é um fato que há nos palcos atuais um embate entre dramático e narrativo. Às vezes o narrativo domina totalmente o espetáculo, como O PÚCARO BÚLGARO, encenação por Aderbal do romance de Campos de Carvalho. Outras vezes, ele se imiscui em algumas cenas, como em INOCÊNCIA de Dea Loer, apresentado pelos Satyros.

PASSOS, uma das peças de Samuel Beckett que integrava o belo espetáculo CREPÚSCULO de Rubens Ruche, oferece exemplos notáveis desse embate.

O texto da peça se compõe das palavras emitidas por uma mãe, nunca vista, e sua filha May. As palavras se organizam em diálogos, mas sobretudo em solilóquios.

No seu solilóquio, a mãe fala o seguinte:

“Eu dizia então que o assoalho é aqui, hoje vazio, esta faixa do assoalho, era antes atapetada, uma lã espessa. Até que um dia, ou melhor, uma noite, até que uma noite, embora fosse ainda uma criança, ela chamou sua mãe e lhe disse, Mãe isto não basta. A mãe: Não basta? May – que era o nome da criança – May: Não basta. A mãe: O que é que não basta, May, hein, o que você está querendo dizer, May? May: Quero dizer, mãe, que preciso ouvir os passos, mesmo que seja bem baixinho. [...] Se ela ainda dorme, pode-se perguntar. [...] Sim, algumas noites ela dorme, tira um cochilo, apóia sua pobre cabeça na parede e tira um cochilo. [...] Se ainda fala? Sim, algumas noites ela fala, quando pensa que ninguém pode ouvir”. (tradução R. Rusche – foram eliminadas as didascálias)

Esse relato absorveu o diálogo dramático, incluindo o nome da personagem e sua fala, como o teatro impresso e não representado.

A própria mãe diz seu nome, virando assim um outro em relação a si mesma. O dramático vem à tona graças ao narrativo. A fala dramática fica como que cercada pelo narrativo, ilhada no meio do narrativo.

Ha outro exemplo ainda mais violento: no início da peça mãe (V.) e filha (M.) dialogam:

“V. – Você nunca vai parar? [...] Você nunca vai parar de revolver tudo aquilo?

M .– [...] Aquilo?

V. – Tudo aquilo. [...] Em sua pobre cabeça. [...] Tudo aquilo. [...] Tudo aquilo.[...]”.

A peça se encerra com longo solilóquio da filha, no qual seu nome foi substituído pelo anagrama Amy. Quase fechando a peça, temos o seguinte:

M.-  [...] Amy. (Pausa.) Que é, mãe. (pausa.) Você nunca vai parar? (Pausa.) Você nunca vai parar de revolver tudo aquilo? (Pausa.) Aquilo? (Pausa.) Tudo aquilo. (Pausa.)”.

O relato absorveu a fala dramática, esta afundou na areia movediça do relato. Literalmente: o narrativo FAGOCITOU o dramático.

A vigorosa presença do narrativo no palco atual causa alguma apreensão: por que isso acontece? porque isso nos acontece?

A fala da ação, a fala do relacionamento entre personagens está sendo empurrada pelo relato, que vê a ação de mais longe, de um ponto de vista mais distante. Este movimento narrativo-versus-dramático não pode não ter alguma profunda razão de ser: conseguimos enxergar essa razão?