O milho – 1

 

 O milho certamente só se desenvolveu graças ao homem. Foi ele quem tirou a palha que envolve a espiga e plantou os grãos. Sem essa intervenção, os grãos teriam tido dificuldade em germinar e  a planta poderia não ter sobrevivido. Portanto, é ao homem que o milho deve o seu sucesso.

Essa idéia encontra-se no estudo sobre a indústria do milho nos Estados Unidos, que constitui a primeira parte do livro de Michael Pollan, O DILEMA DO ONÍVORO (Ed. Intrínseca):

“Se não tivesse caído nas graças dos conquistadores, o milho correria o risco de se extinguir, pois sem homens que o semeassem a cada primavera, em alguns anos teria desaparecido da face da terra. A insólita composição entre palha e espiga que torna o milho tão conveniente para nós torna a planta totalmente dependente: para a sua sobrevivência ela necessita de um animal de posse de um polegar que o torne capaz de remover a palha, separar as sementes e plantá-las”.

Mas neste mesmo estudo encontra-se também o seguinte:

“A planta milho colonizou cerca de 320 km quadrados do continente americano, uma área duas vezes maior do que o estado de Nova York”.

Aqui houve um deslocamento: a redação da frase deixa entender que a colonização resulta da ação do próprio milho.

Mas, como ele não podia sobreviver por si, o milho teve que montar uma estratégia que viabilizasse sua ação: “as plantas sempre souberam que um dos caminhos mais seguros para o sucesso evolutivo é saciar o desejo nato que o mamífero onívoro [entenda-se: o homem] demonstra pelos adoçantes”.

Isso nos ajuda a entender “como o milho pode ter chegado a dominar nossa dieta e, em seguida, expandir-se por uma área na superfície da terra maior do que a ocupada por qualquer outra espécie domesticada, inclusive a nossa própria espécie”.

Nas palavras de Pollan, esse processo evoluiu até chegar à situação atual, que ele assim descreve:

“De todas as espécies que descobriram uma maneira de prosperar no mundo dominado pelo Homo sapiens, por certo nenhuma outra foi tão espetacularmente bem-sucedida como a Zea mays,a gramínea que conseguiu domesticar seu domesticador”.

“O milho é o herói de sua própria história e ainda que nós, seres humanos, tenhamos desempenhado um papel crucial na sua ascenção até o domínio do mundo, seria errado sugerir que nós é que estivemos dando as cartas até agora, ou que tenhamos agido de modo a defender da melhor forma nossos interesses. E, realmente, há razões de sobra para pensar que o milho conseguiu nos domesticar”.

O que interessa nessa forma de pensamento é seu aspecto não-humanista. Ou seja: o homem deixou de ser sujeito para se tornar objeto do que ele julgava ser o seu objeto. Ele, o homem, que pensava ter instrumentalizado o milho em benefício próprio, se vê numa posição inversa: o milho é que o instrumentalizou em seu benefício.

Mais tarde, darei prosseguimento a essa colagem de citações, mostrando que esse pensamento de Michael Pollan está razoavelmente difundido. É tão difícil para nós pensar num agente cuja ação não dependa da consciência e da vontade, que esse pensamento pode ser considerado uma piada. Ou então se tenta relativizar o pensamento recorrendo a para-peitos do tipo “há razões de sobra para”, que evitam fazer afirmações categóricas.

O milho não pratica a filosofia “penso logo sou”, sua filosofia é outra. (a seguir)