O milho - 2

 

A colcha de citações continua:

“Já é tempo, aliás, de entender que tudo o que parecia piada nas Poèsies de Ducasse [Lautreamont] deve ser considerado a expressão profética de uma reviravolta de que somos os operários cegos. Mas esqueçamos isso. Basta reter que a arte verdadeiramente deixou de ser individual, mesmo quando o artista é um individualista ferrenho, isso porque é possível acompanhar – deixando de lado os indivíduos –, por meio de momentos de seu pensamento, um vasto raciocínio que só recorre aos homens como intermediários e de modo totalmente passageiro, e se, desta frase que estou escrevendo, só chegar aos ouvidos dos jornalistas a proposição fragmentária a arte verdadeiramente deixou de ser individual, não sou eu que ficaria incomodado com isso.” (trad. JCB/HJ)

 

Nesta frase de Louis Aragon, poeta e romancista, dadaísta e comunista, ecoa a idéia de história da arte sem nome de artistas, como Nelson Werneck Sodré tentou escrever a história da literatura brasileira sem citar os autores. Mas eu vou reter dessa frase que somos os operários e não os criadores dessa reviravolta artística, e operários cegos, isto é, que não sabem o que fazem. Vou reter também a idéia de que existiria um vasto raciocínio que não é produzido pelos homens, mas que se serve deles para se desenvolver.

Esse pensamento, essa forma de pensar é estranhamente próxima do que Michael Pollan afirma a respeito do milho: ele  usa o homem para se desenvolver e consegue domesticá-lo (ver Milho – 1). Como se coisas ou sistemas criados pelo homem tivessem conquistado uma autonomia ou relativa autonomia que lhes possibilitasse se tornar sujeitos de sua ação e, em favor de seu próprio benefício, instrumentalizar os homens.

No quarto volume de O MÉTODO (Ed. Sulina), Edgar Morin propõe  a tese conforme a qual “os sistemas de idéias dispõem de uma relativa autonomia nas sociedades complexas”. Citando Jacques  Schlanger, ele afirma que “os conceitos e as teorias [são] mais do que objetos dotados de realidade objetiva: têm um ser próprio, uma existência”.

Morin: “Os seres de espírito retiram e sugam sua substância vital da vida dos espíritos/cérebros e da vida das sociedades; ao fazê-lo, tornam-se vivos. Como os seres vivos, têm os seus próprios fins, ao mesmo tempo em que são meios de outras instâncias vivas”. Tudo se passa como se existisse, ou temos a impressão de que existe um mundo de idéias (noosfera) que teria uma dinâmica própria – assim como o milho – para se expandir, se transformar, se desenvolver. E esses objetos usam os homens para pôr em funcionamento essa dinâmica. Podemos pensar que nós criamos e divulgamos idéias e conceitos. Mas temos razões de sobra para imaginar que pode não ser assim. Seríamos então usados pelas idéias para sua evolução, expansão etc, e inclusive para gerenciar as contradições existentes entre elas. Desse modo, ao escrever um artigo ou um livro, ao dar uma aula ou fazer uma palestra, e inclusive no próprio ato de leitura, seríamos hospedeiros e veículos usados pelas idéias na sua luta pela existência – e a isso não escapa este texto. (a seguir)