O milho – 3

 

Em O GENE EGOÍSTA (1976), o biólogo Richard Dawkins, que se confessa “darwinista entusiasta”, cria um conceito que corresponde aproximadamente ao “objeto de espírito” de Edgar Morin: o “meme” de Dawkins pode ser uma idéia, uma teoria, uma melodia etc, ou parte de. O autor se expressa da maneira seguinte: a idéia de Deus é o “meme para Deus”. A tese proposta é que os memes se comportariam de modo análogo aos genes. O meme é uma entidade que luta pela sua sobrevivência, para ter vida própria e se expandir. Para tal, ele se vale dos homens como hospedeiros e veículos.

Ele vai assim conquistando uma vida relativamente autônoma. Embora entidade viva, ele não é dotado de consciência, vontade ou capacidade de planejamento. Ele não é um ente intencional. No entanto, comporta-se como se fosse, e como se tivesse estratégia de expansão e dominação. “Se um meme quiser dominar a atenção de um cérebro humano, ele deve fazê-lo às custas de memes rivais. Outros artigos nos quais os memes competem são tempo de rádio e televisão, espaço para anúncios, espaço de jornal e espaço de estantes de biblioteca”, escreve Dawkins. Nesse mesmo sentido, as editoras Itatiaia e Edusp colaboraram ou foram usadas para a sua propagação no Brasil.

Esse trabalho de dominação exige do meme não apenas uma capacidade de replicação (de se repetir de cérebro em cérebro), mas principalmente de ser um replicador flexível, maleável, que pode se associar a outros.

A idéia do meme, ou seja, “o meme para o meme” está caminhando lentamente, mas está caminhando. Para isto, além de ter cunhado o conceito, Dawkins lhe deu um pequeno empurrão inicial. Ele pediu ao colega N. K. Humphrey que resumisse seu texto sobre os memes, o que foi feito nos seguintes termos:

“... os memes devem ser considerados como estruturas vivas, não apenas metafórica mas tecnicamente. Quando você planta um meme fértil em minha mente, você literalmente parasita meu cérebro, transformando-o num veículo para a propagação do meme, exatamente como um vírus pode parasitar o mecanismo genético de uma célula hospedeira. E isto não é apenas uma maneira de falar – o meme, por exemplo, para crença numa vida após a morte é, de fato, realizado físicamente milhões de vezes, como uma estrutura nos sistemas nervosos dos homens, individualmente, por todo o mundo”.

Após isso, não sei como frutificou a idéia de Dawkins. A analogia do meme com o gene e o vírus foi considerada altamente duvidosa. O que não o impediu de seguir caminho e atingir o cérebro de Edgar Morin, que o cita numa nota do quarto volume de O MÉTODO, o qual trata da vida das idéias. Por vias totalmente diversas Dawkins e Morin chegam a concepções bastante semelhantes, sendo que Morin lhe  acrescenta uma característica a que Dawkins não se refere, a saber que ele goza de “autonomia relativa”, conceito fundamental no pensamento de Morin.

 Mas é muito provável que para se expandir o meme de Dawkins não precise que o conceito seja nomeado, o que lhe permite criar laços entre pensamentos de várias fontes e de referentes diversificados:  Dawkins, Morin, e também Aragon. Neste último caso é como se o meme, cujo conceito foi gerado na década de 1970, anexasse um território que o precedeu, já que o texto de Aragon data de 1930. Assim o milho, os “objetos de espírito”, o “vasto raciocínio” e o meme são vistos como produções humanas que se afastaram da causa de sua criação e lutaram para ter uma vida própria relativamente autônoma, operação essa que os leva a usar o seu criador e a dominá-lo.