Milho – 4

 

Os “objetos de espírito” de Edgar Morin, os “objetos ideais” * de Jacques Schlanger, os memes de Richard Dawkins – considerados como entidades relativamente autônomas e até como seres vivos – se inserem num longo percurso que teve um momento decisivo no séc. XVIII quando apareceu a “ideologia”, isto é, a “ciência das idéias” “consideradas em si mesmas”, ciência que seria uma “parte da zoologia”.

Essa “ciência” não demorou muito para chegar ao Brasil: a Biblioteca Mário de Andrade preserva um exemplar da terceira edição, publicada em Niterói em 1837, de ELEMENTOS D’IDEOLOGIA. IDEOLOGIA PROPRIAMENTE DITA, obra de Destutt de Tracy, um dos papas dos “ideólogos” ou “ideologistas”. Para eles, tratava-se basicamente de entender “o que é pensar”, a “inteligência humana”, e de perceber que as idéias tinham uma “formação” e que havia uma “filiação” entre elas.

No séc. XIX começa-se a questionar a relação entre as idéias e os homens que as pensam. É o que se pode verificar numa carta de Fredrich Engels a um certo Heinz Starkenburg, datada de 1894. Engels reflete sobre as idéias de Marx, que  “descobriu a concepção materialista da história, mas Thierry, Mignet, Guizot e todos os historiadores ingleses, até 1850, mostram que já se marchava nesse sentido. E a descoberta dessa mesma concepção por Morgan demonstra que já existiam todas as condições para que ela fosse descoberta e que, exatamente, ela tinha que ser descoberta”.

Portanto o materialismo histórico não surge apenas do cérebro de Marx. Ele se encaixa numa filiação que se desenvolveu no decorrer de um determinado período histórico e econômico. Essa concepção apresenta uma necessidade em si (“tinha que ser descoberta”). E se não fosse Marx, teria sido um outro. É o que pode se deduzir de outro trecho da mesma carta, em que Engels tece considerações sobreo o “grande homem”: “E aqui surgem os chamados grandes homens. O fato de que surja um deles – precisamente este; num momento dado e num dado país – constitui, naturalmente, puro acaso. Se, porém, o suprimirmos, far-se-á sentir a necessidade de substituí-lo e surgirá um substituto: será pior ou melhor – mas acabará por surgir mais cedo ou mais tarde. Foi um acaso que coubesse precisamente ao corso Napoleão o papel de ditador militar, exigido pela República francesa, esgotada por sua própria guerra. Mas, caso não tivesse existido um Napoleão, outro teria vindo ocupar seu posto. É o que nos demonstra o fato de que, sempre que foi necessário um homem – fosse ele César, Augusto, Cromwell etc. – esse homem surgiu”.

Portanto o aparecimento e a elaboração das idéias não dependem apenas do pensador. Elas aparecem em função de uma necessidade gerada pelo momento histórico e econômico: “A necessidade que assim se impõe através de acasos [ou seja, o aparecimento do “grande homem”] é também, em última instância, a necessidade econômica”, escreve Engels. Nada mais distante do pensamento de Dawkins ou Morin (o qual não cita Engels na sua bibliografia).

No entanto, as reflexões de Engels não consideram mais o pensador como a causa do pensamento. A idéia, que tem de aparecer, aparecerá independentemente de quem a pense. A idéia não nasce de uma necessidade interna ao sistema das idéias, sem dúvida, mas em Engels já se abre um fosso entre o pensamento e o homem que pensa. A idéia, fruto da necessidade histórica, já não é mais fruto do pensador. Este se torna um instrumento de que se vale o momento histórico para que apareça a idéia que lhe é necessária.

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* A expressão “objet idéel”, cunhada por Schlanger e retomada por Morin, foi traduzida por “objeto ideal” na versão brasileira de O MÉTODO, o que provoca alguma confusão. A expressão de Schlanger significa “objeto de idéia”, “idéia como objeto”. A tradução brasileira evoca um objeto que se aproximaria de uma perfeição.