Milho – 5

  

Em textos anteriores usei a expressão “autonomia relativa” para me referir a sistemas criados pela atividade dos homens em sociedade, mas que a partir de determinado momento de seu desenvolvimento passam a gerar necessidades próprias, o que os distancia das causas iniciais da sua formação (sem que estas deixem completamente de atuar). Nesta evolução eles podem retroagir sobre o sistema que lhes deu origem e passar a usá-lo em benefício próprio. E se assim não for, é “como se” fosse.

Esta idéia, fui pescá-la numa carta de Fredrich Engels enviada a um certo senhor Schmidt no final do Séc. XIX. Esta carta, que usa a expressão “independência relativa” (Marx/Engels: Obras escolhidas, Ed. Vitória), é às vezes citada em estudos sobre arte e cultura, porque ela suaviza as relações mecânicas que um marxismo dogmático estabelece entre infra e superestrutura, na qual se encaixaria a cultura.

Nesta carta, em momento algum Engels se refere à arte. Ele explica a Schmidt:

“Ali onde a divisão do trabalho já existe em escala social, os diferentes ramos da atividade tornam-se independentes uns dos outros. A produção é, em última estância, o fator decisivo. Uma vez, porém, que o comércio de produtos se torna independente da produção propriamente dita, passa a obedecer à sua dinâmica própria e esta, embora submetendo-se, em termos gerais, à dinâmica da produção, rege-se, em seus aspectos particulares e no quadro desta dependência geral, por suas próprias leis, as quais correspondem à natureza específica desse novo fator. A dinâmica do comércio de produtos tem etapas especiais e reage, por sua vez, sobre a dinâmica da produção”.

Engels acrescenta: “O mesmo ocorre com o mercado de dinheiro. Quando o comércio de dinheiro se separa do comércio de mercadorias, passa a seguir um desenvolvimento independente, com suas fases próprias que decorrem de sua própria natureza, e com suas leis especiais, embora subordinando-se a determinadas condições impostas pela produção e dentro desses limites”.

“A sociedade cria certas funções comuns de que não pode prescindir. As pessoas indicadas para estas funções passam a constituir um novo ramo da divisão do trabalho DENTRO DA SOCIEDADE. Assim, passam também a defender interesses especiais, opostos aos interesses dos que lhes outorgaram esses mandatos: tornando-se independentes frente a estes...” (grifo do autor).

“Os homens que se ocupam disso [a ciência] pertencem, por sua vez, a órbitas especiais da divisão do trabalho e crêem desenvolver um domínio independente. E à medida que passam a formar um grupo autônomo dentro da divisão social do trabalho, suas produções, inclusive seus erros, influem sobre todo o desenvolvimento social e mesmo sobre o desenvolvimento econômico. Apesar disso, porém, eles continuam sob a influência dominante do desenvolvimento econômico”.

O que penso ser interessante nessas considerações, cuja preocupação básica é a divisão do trabalho e suas conseqüências, é que um sistema, sem se tornar totalmente independente das causas que o criaram, passa a se comportar conforme leis e interesses próprios, podendo inclusive, para isso, agir sobre as causas iniciais. Podemos imaginar o seguinte: uma sociedade ou grupos sociais, que se sentem ameaçados pela chamada “violência urbana” e pelo chamado “terrorismo”, passam a desenvolver mecanismos de proteção. Estes tornam-se um sistema amplo e complexo. É só pensar no exército de vigias que nos controlam (uma extensa mão-de-obra), nas câmeras de vigilância, nos detectores de metais, portas-giratórias, carros blindados, grades, feira de novidades etc etc. Esse sistema passa a desenvolver interesses próprios e poderia chegar, se cessassem a violência urbana e o terrorismo (o que não vai acontecer), até a gerar violência para continuar a se manter e a se expandir. As empresas precisam continuar a lucrar. É o que pode estar acontecendo com empresas que produzem detectores de vírus informáticos: se os hackers deixassem de produzi-los, elas teriam de gerá-los para continuar a desenvolver seus produtos.

O que interessa na carta de Engels é que ela aponta para o conceito de sistema relativamente autônomo, que passa a atuar não apenas em função das causas iniciais, mas em favor de sua própria sobrevivência e expansão. Ela se encontra assim na linha genealógica que leva aos sistemas relativamente independentes do “milho” e dos “seres de espírito”.

Teço com linhas alheias.