Milho – 6

 

Continuemos.

Sempre em torno dessa forma de pensamento: um sistema originalmente criado pela atividade humana se torna ou se tornaria relativamente independente das causas que o originaram. Assim, ele gera necessidades próprias, em função das quais desenvolve estratégias de sobrevivência e expansão. Não só isso como, para o sucesso de suas estratégias, passaria a instrumentalizar os homens que estão na sua origem.

É possível que a primeira pessoa que tenha intuído o fenômeno seja Marx, é o que me parece no quadro dos meus conhecimentos.

Frases extraídas do Livro I do Capital:

“Mas a forma mercadoria e a relação de valor entre os produtos do trabalho, a qual caracteriza essa forma, não têm a ver com a natureza física desses produtos nem com as relações materiais dela decorrentes. Uma relação social definida, estabelecida entre os homens, assume a forma fantasmagórica  de uma relação entre coisas”.

Há “... formas que, à primeira vista, se apresentam como pertencentes a um período social no qual a produção e suas relações regem o homem em vez de serem regidas por ele...”.

“Por isso, descobrem nossos donos de mercadorias que a mesma divisão do trabalho, ao fazer deles produtores privados, torna independente de sua vontade o processo social de produção e as próprias relações que mantêm dentro do processo, e, ainda, que a independência recíproca das pessoas se integra num sistema de independência material imposta pelas coisas”.

“... mas, na verdade, o valor apresenta-se aqui como uma substância automática, dotada de uma vida própria...”.

Marx analisa os mecanismos produtivos e econômicos que geram essa “vida própria”. À margem da análise, para que o leitor consiga, não apenas compreender, mas sentir, intuir um fenômeno que não é fácil conceber, ele recorre à seguinte analogia:

“Para encontrar um símile, temos de recorrer à região nebulosa do mundo religioso. Aí, os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, figuras autônomas que mantêm relações entre si e com os seres humanos. É o que ocorre com os produtos da mão humana, no mundo das mercadorias”.

 

Na crônica Milho 1, extraí as seguintes frases do livro O DILEMA DO ONÍVORO, de Michael Pollan:

“De todas as espécies que descobriram uma maneira de prosperar no mundo dominado pelo Homo sapiens, por certo nenhuma outra foi tão espetacularmente bem-sucedida como a Zea mays,a gramínea que conseguiu domesticar seu domesticador [...] O milho é o herói de sua própria história e ainda que nós, seres humanos, tenhamos desempenhado um papel crucial na sua ascenção até o domínio do mundo, seria errado sugerir que nós é que estivemos dando as cartas até agora, ou que tenhamos agido de modo a defender da melhor forma nossos interesses. E, realmente, há razões de sobra para pensar que o milho conseguiu nos domesticar”.

E Marx:

“Não é mais o trabalhador que emprega os meios de produção, mas os meios de produção que empregam o trabalhador. Em vez de serem consumidos por ele como elementos materiais de sua atividade produtiva, consomem-no como o fermento de seu próprio processo vital”.

Genealogia de uma forma de pensamento.

 

[tradução de Reginaldo Sant’Anna, Ed. Civilização Brasileira, alterada à luz da trad. francesa de J. Roy, Ed. Flammarion]