Milho 7

 

 

A respeito de afirmações de Michael Polan feitas em O DILEMA DO ONÍVORO e que relatei na crônica Milho 1, Adjalbas Macedo escreve:

 

“A simbiose entre homem - planta de milho, na concepção de seleção das espécies, não é válida. Os grãos de milho são polinizados via vento ou insetos, e após a maturação na espiga, mesmo estando envolvidas em palha de proteção, não empede a sua germinação na espiga e posterior dispersão para o solo, onde reiniciam o ciclo da vida. Portanto, não vejo a intervenção humana como necessária para a sobrevivência das espécie, mas sim o contrário, pois o advento do homem, selecionou várias cultivares de milho, iniobindo a sobrevivência de outras. Na atualidade não há mais do que 5% de cultivares de milho com combinação genética diferentes para determinadas caracteristicas”.

 

Adjalbas contesta Pollan e oferece boa oportunidade para explicar em que perspectiva eu tento colocar esse alinhavado de citações que essa série de textos. Em momento algum a preocupação incide sobre a verdade ou inverdade do conteúdo das citações.

Não se trata de saber se as afirmações de Pollan são verdadeiras ou falsas. Da mesma forma, a questão não é saber se os “seres de espírito” de Edgar Morin ou os memes de Richard Dawkinns existem ou não, embora os autores apostem nessa existência.

O critério de veracidade não se aplica na perspectiva que estou tentando construir. A interrogação é: por que é possível, na nossa época, pensar assim? por que há pessoas que elaboram hoje tais pensamentos, ou mais exatamente, tal forma de pensamento? por que encontramos uma similaridade nestes pensamentos que têm objetos díspares: o milho e as idéias. E mesmo que essa similaridade seja contestada ou até negada, por que alguém (no caso: eu) pode propor a existência de tal similaridade?

Por que não consideramos a reflexão de Pollan sobre a possibilidade de colonização do homem pelo milho uma boa piada, e não imaginamos os skrotinhos de Angeli com espigas lhes saindo por todos os orifícios? Por que o New York Times abre uma página inteira a uma pessoa que pensa desse modo para publicar uma carta dirigida ao futuro presidente dos Estados Unidos?

Independente do teor de veracidade do pensamento desses autores e dos objetos a que se referem, essa forma de pensamento – enquanto forma – é um discurso relacionado com o momento pelo qual passa a sociedade em que vivemos, ou parte dela. Com quê este pensamento está dialogando? O que pode nos revelar a nosso respeito? Para que direções ele aponta? Em que ele pode enriquecer nossa reflexão sobre nós próprios e nossas relações com a sociedade? Em que a nossa ação pode levar ou não em conta essa forma de pensamento, ou ela atuar sobre a nossa ação?

Essa forma pode ser atuante independente do teor de verdade ou falsidade que atribuiremos às suas afirmações, independente de concordarmos ou não com ela. Ou seja: ao pensar a existência de sistemas originados pela atividade humana, que ganharam independência relativa e desenvolvem estratégias de sobrevivência e expansão para as quais instrumentalizam os homens – não a pergunta: é correto pensar isso?, mas: como podemos nos relacionar com este pensamento? Independentemente de qualquer verdade, que dinâmicas de ação, de reflexão, de compreensão da nossa sociedade e de nos como sujeitos tal forma de pensamento pode disparar?

 

É possível responder a estas perguntas? De que forma?