O golpe do making of

 

Tava tudo indo muito bem (a linguagem representava a realidade e a realidade era representada pela linguagem), quando apareceram uns caras, Rimbaud, Mallarmé, Joyce e companhia, e as coisas começaram a desandar. Todo mundo vinha falando que a linguagem, a narração literária ou cinematográfica, tudo isso não passava de um monte de convenções.

Nos anos 60, praticaram a desconstrução, Godard era mestre nisso. Linguagens e narrativas ficaram deprimidas, enquanto a documentação, o processo foram ganhando terreno. Vendo a situação, na calada da noite americana (1973), o making of (que não passava de simples documentação de uma obra cinematográfica) deu o golpe. E declarou: “Agora, a linguagem sou eu!”.

Eu sempre achei essa declaração muito exagerada, mas não se pode negar que o making of tenha alcançado o status de uma linguagem possível.

Essa linguagem making of, amplamente usada e abusada no Brasil, chegou a uma obra-prima: A HORA DA ESTRELA de Jorge Furtado, Guel Arraes e Regina Casé.  Esse cume (em termos de making of como linguagem) não foi ultrapassado e dificilmente o será.

Foi assim que o making of se tornou mais uma das inúmeras convenções que abarrotam os sótãos de nossas linguagens narrativas.

O que nos sobra: as angústias de JOGO DE CENA e as palhaçadas de JESUS NO PAÍS MARAVILHA?