Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

04/05/2009

Rudá 3

 
 

Rudá 3

 

Quando O Ministério da Justiça baixou a lista dos 25, aplicando o AI5 (Ato Institucional no. 5) a professores da Usp, eu me encontrava em Brasília. Como não se sabia que medidas seriam tomadas pelos militares, me escondi por uns dias. Voltei a São Paulo, onde eu era professor na então Escola de Comunicações Culturais.

Rudá, chefe do departamento que abrigava teatro, cinema, tv e rádio, me convocou para que eu retirasse meus pertences da escola e lhe apresentasse um balanço dos cursos já dados e os projetos que eu tinha.

Dias depois, Rudá recebeu um ofício do senhor diretor comunicando-lhe que eu tinha sido visto nas dependências da escola, e que tal situação não deveria se repetir.

Rudá respondeu ao senhor diretor com uma longa carta em que expunha que eu de fato tinha ido à escola a pedido dele, chefe do departamento; que ele ignorava qualquer dispositivo legal que me proibisse de circular pelas dependências da escola; e que, se o senhor diretor julgava que eu não devia entrar na escola, ele que tomasse as providências cabíveis, pois tomar tais providências não fazia parte das atribuições de um chefe de departamento.

Essa carta é um exemplo de coragem, de resistência contra a opressão, e da dignidade que Rudá sempre manteve nas instituições com as quais colaborou ou que dirigiu. Um dia ainda encontrarei a cópia dessa carta que Rudá me deu, momentaneamente extraviada.

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 11h47
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Rudá 2

 
 

Rudá 2

 

No dia 1.o ou 2 de abril de 1964, após longas horas de vigília, resolvi ir até a casa de meus pais tomar banho, seria mais seguro do que no centro onde eu morava. Chegando lá, meu pai me disse que uma amiga minha tinha telefonado avisando que a polícia me tinha procurado no jornal Última hora, no Teatro de Arena e na Faculdade de filosofia, e que era melhor eu desaparecer por uns tempos. No dia seguinte, meu pai me levou para a casa de um amigo, perdida no interiorzão do estado de São Paulo. E lá fiquei.

Semanas mais tarde, sem pré-aviso, Rudá de Andrade apareceu. Queria saber se eu estava bem. Ele tinha uma grande dúvida: se a polícia ainda estava à minha procura ou se me tinha esquecido. Para sondar a polícia e saber se seria possível retornar a uma vida cotidiana mais ou menos normal, embora com restrições e precauções (voltar à Cinemateca, por exemplo, estava excluído), se poderia fazer uma provocação e esperar a reação da polícia. Rudá queria saber se eu concordava e se eu o deixaria articular essa provocação. Ok.

Tempos depois, a Cinemateca Brasileira anunciou a exibição um filme de Einsenstein, apresentado por JCB. A programação se daria num auditório do então prédio dos Diários Associados, na rua 7 de abril. Rudá tinha contatos na imprensa e tinha providenciado a presença de fotógrafos para que minha fotografia pudesse ser publicada nas colunas mundanas no fim de semana seguinte.

No dia D, me levaram até o prédio dos Diários e, acompanhado, fiquei esperando dentro do carro que o auditório lotasse. Meu acompanhante recebeu um sinal, e rapidamente saimos do carro e entramos num elevador. Quando cheguei ao andar, todos os elevadores foram desligados. Fiz a minha palestra (provavelmente não a melhor da minha vida, tempos depois Vlado Herzog me disse que eu tinha sido bastante confuso).

Quando acabei, a sala se apagou e a projeção foi iniciada (teria sido Alexandre Nevsky?). Me pegaram, me fizeram sair do auditório por uma outra porta, me botaram num outro elevador, o único que tinha sido religado, me botaram dentro do carro e me devolveram ao meu esconderijo. No fim de semana, fotos minhas foram publicadas e a polícia não reagiu. Esperou-se mais alguns dias. Eu podia voltar cautelosamente a vida civil.

Esse epsódio rocambolesco foi planejado e orquestrado por Rudá.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 11h42
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