O fantasma da literatura

 

 

 

Resumir o enredo de um conto, um romance ou um filme dá na mesma, se o ato significativo for “resumir a ação de”. Que o conto, o romance ou o filme existam ou não, pode ser irrelevante, se o que importa for “o estilo de resumir a ação de”. Deste ponto de vista: “é a ação de” ou “é como se fosse a ação de” dá na mesma.

“Como se fosse resumo da ação/enredo de” pode se chamar de “estilo argumental” (no sentido de argumento cinematográfico)

O estilo argumental é sempre referencial, i.e., remete necessariamente a um outro texto a ser criado (o enredo de um filme, um roteiro cinematográfico). Eventualmente o “outro texto” pode já existir e o argumento ser deduzido dele (o que é costume na preparação de projetos cinematográficos para enviar a comissões). De qualquer forma o argumento conta uma história que remete a essa mesma história, porém ampliada e contada diferentemente.

O “outro texto” é necessariamente um passado ou um futuro. Quando não há texto passado nem haverá texto futuro, o “estilo argumental” continua referencial, só que o “outro texto” é virtual. Isto quer dizer que não existe nem existirá, ele só existe como evocação do “estilo argumental” e, embora só exista como evocação, é o “texto evocado” (inexistente) que sustenta o texto argumental. Em outras palavras, o “estilo argumental” dá realidade ao “outro texto”, sem lhe dar atualidade.

No caso de um texto referencial com texto referido existente, o conhecimento deste último pode enriquecer a leitura ou até ser indispensável para melhor compreensão do texto referencial. É o que acontece com A GAIVOTA de Tchekov encenada por Henrique Diaz ou a Oréstia de Sófocles na interpretação do grupo teatral Societá Raffaello Sanzio.

No desconhecimento por parte do leitor ou espectador do texto referido, ou na inexistência dele, reside a solidão do texto referencial. Na inexistência de texto referido, reside uma dimensão trágica da literatura referencial. Quando o texto referido não existe, o texto referencial se sustenta num texto referido que ele cria virtualmente e que é seu esteio.

Essas reflexões me foram sugeridas pela leitura de alguns dos textos que compõem a coletânea LLAMADAS TELEFÓNICAS de Roberto Bolaño.

Acrescento que o comentário sobre meu livro AQUELE RAPAZ que mais me seduziu dizia aproximadamente o seguinte: AQUELE RAPAZ é um roteiro para um romance que não foi escrito (peguei isso como um elogio, mas talvez o comentarista estivesse apontando uma deficiência minha).