Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

07/08/2009

O fantasma da literatura – 2

 
 

O fantasma da literatura – 2

 

 

 

 Ao comentar um relato feito por um personagem de Roberto Bolaño, que teria como que perdido o referente da história que está narrando, Ezequiel De Rosso (La literatura como tauromaquia) usa uma expressão maravilhosa: una traducción sin original. 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h22
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06/08/2009

Moscou

 
 

Moscou

 

 

 

 

Concordo plenamente com o comentário de Eduardo Escorel (Piauí, 35, 3.8.2009) sobre o último filme de Eduardo Coutinho: MOSCOU é uma catástrofe e um impasse.

A catástrofe, acredito que Escorel a tenha analisado com fina sensibilidade.

Quanto ao impasse, penso que ele deve ser colocado em outra perspectiva que não apenas a carreira de Coutinho ou sua filmografia: ele realizou filmes notáveis, este último infelizmente não é tão bom. Penso que o impasse não é só do Coutinho, mas é coletivo.

JOGO DE CENA põe em dúvida toda a filmografia de Coutinho desde SANTO SANTO FORTE (uma coragem excepcional). JOGO DE CENA põe em dúvida todos os filmes documentários baseados na fala como discurso da subjetividade e no relato de histórias de vida. Põe em dúvida a relação entre o corpo falante e a fala da subjetividade (quem emite esta fala? essa fala fala do quê?). Põe em dúvida a relação entre a fala e a subjetividade.

Após a projeção de JOGO DE CENA falei e estranhei (isto é verdade): quem fala? eu? eu quem? O filme desestabiliza a noção de sujeito. Ou eu estou a ver fantasminhas, ou JOGO DE CENA é de uma trágica radicalidade. O problema não é de Coutinho, mas de todos aqueles que se sentem atingidos por essa trágica radicalidade.

Filmes de que participei, gravados antes de JOGO DE CENA, me parecem hoje pueris. Estou atualmente trabalhando num documentário que envolve discurso da subjetividade e relatos de histórias de vida: simplesmente eu não consigo entrar neste filme. JOGO DE CENA foi longe demais.

A frase de Escorel – “Coutinho é o grande ausente de MOSCOU” – é de uma grande beleza e de uma extraordinária precisão. Coutinho não poderia “ser” presente porque o sujeito está desestabilizado. Quando voltaremos a ser presentes?

Fantasiei que, para quebrar o impasse em que JOGO DE CENA nos meteu, Coutinho poderia/deveria sentar diante de uma câmera, em primeiro plano, permanecer em SILÊNCIO, por  tempo indeterminado.

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h35
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05/08/2009

Sophie Calle e a autoficção



 

Sophie Calle e a autoficção

 

Autoficção é um termo em moda. Toda uma tradição literária, que abrange confissões, memórias, diários, autobibliografias, vem sendo qualificada de autoficcional.

Que a questão do verbal e do narrativo esteja presente em cada texto em que uma pessoa relata ou se refere a uma vivência, não há dúvida.

Mas me pergunto se não teríamos interesse em acrescentar outras características à noção (ou idéia) de autoficção, para permitir que ela se refira com mais precisão a uma forma de expressão com a qual trabalhamos atualmente, ou que estamos buscando.

O que me parece necessário acrescentar é a noção de mediação. Não seria suficiente que uma história de vida seja elaborada por quem a vivenciou sob forma de texto ou de espetáculo – embora aí, já haja uma mediação muito forte, a do público leitor ou espectador.

Seria necessário que materiais de qualquer natureza provenientes dessa vivência sejam transmitidos a outrem. Outra(s) pessoa(s), outros sistemas. E que estes materiais sejam reelaborados por estas outras pessoas, para em seguida serem retrabalhados ou não pelo indivíduo que deu origem ao processo, e chegarem ao público.

Se se considerar a mediação do outro necessária para que haja autoficção, a exposição de Sophie Calle é um belíssimo exemplo de autoficção. A partir de uma situação de vida, ela deslanchou um processo multifacetado (sobre o qual ela conservou um total controle ou não), recebeu materiais oriundos da reelaboração pelos outros, que ela provavelmente selecionou e com certeza ordenou, e os tornou públicos. Mais exatamente: tornou pública. Porque esse rearranjo dos materiais provenientes da reelaboração dos outros se tornou obra. Neste caso: autoficção poderia significar: transformar-se  em obra pública pela intermediação, em alguns casos com algum grau de controle, dos outros.

Em relação a JOGO DE CENA: embora o fenômeno da narrativa esteja funcionando a pleno vapor nos depoimentos – estes ainda não constituiriam autoficção, a qual se formaria passando pelo Coutinho, que entrega os materiais a atrizes, as quais reelaboram os depoimentos, o que volta a passar pelo Coutinho que ordena os materiais devolvidos numa montagem audiovisual tornada pública.

Melhor parar por aí. Tudo isso é confuso, mas talvez haja alguma intuição.

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h23
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03/08/2009

Eduardo Coutinho & Sophie Calle

 
 

Eduardo Coutinho & Sophie Calle

 

 

 

 

 

Pode-se superar JOGO DE CENA? Se ficamos no quadro dessa modalidade de cinema documentário, não se veem muitas luzes no fim do túnel.

MOSCOU – o filme da palavra encenada ou da encenação da palavra – que Eduardo Coutinho realizou após JOGO DE CENA, mais atesta, me parece, um impasse do que uma superação. Talvez não haja possibilidade atual, ficando no cinema da fala, de ultrapassar o filme de Coutinho. A impressão (que eu tenho) de beco sem saída é intensa (da mesma forma que ULYSSES colocou o realismo num beco sem saída). A não ser que a fala se torne debochada, grotesca, irônica, e neste sentido iríamos na direção de JESUS NO MUNDO MARAVILHA que me parece ser atualmente o único filme brasileiro que consegue dialogar com JOGO DE CENA (imagino que Coutinho, caso o tenha visto, deve detestar o filme de Newton Cannito).

JOGO DE CENA pertence ao mesmo universo estético e cultural que a magnífica instalação de Sophie Calle no Sesc Pompéia: CUIDE DE VOCÊ. Há inclusive um lugar e um momento em que vemos uma multiplicidade de fotografias de mulheres lendo a carta que está no centro da exposição, e ouvimos vozes sem identificar a que corpos elas pertencem. Neste conjunto há um espaço maior onde passam vídeos; um deles mostra uma mulher interpretando a carta ao violão; ela está sentada sozinha numa sala de teatro com poltronas vermelhas vazias. Essa articulação: muitas mulheres, um discurso referente a uma história de vida, corpos e vozes desvinculadas dos corpos, uma sala de teatro: é a síntese do dispositivo de JOGO DE CENA.

Mas CUIDE DE VOCÊ não me deu a impressão de impasse provocada pelo filme: e depois, o que vai ser?

Ao contrário, a exposição de Sophie Calle deixa uma sensação de abertura, de respiração, dá para retomar o fôlego.

Há um contraste sensorial entre o filme e a exposição que já pode fornecer um primeiro elemento de compreensão: o filme é claustrofóbico (no dispositivo minimalista construído por Coutinho, todas as mulheres, por mais diversas que sejam, convergem para o mesmo espaço e ficam na mesma disposição espacial em relação ao cineasta e à sala), enquanto as paredes brancas e o necessário deslocamento do observador na sala de exposição deixam circular o ar.

Ocorre que o filme adota uma dinâmica centrípeta, enquanto a exposição é centrífuga. Diferença essencial. A disposição dos textos e fotos na parte alta de algumas paredes, e portanto de acesso mais difícil para a vista, como que expande os limites do espaço, sugere um espaço em expansão.

E acredito que este seja um dos aspectos fundamentais da exposição. O ponto de partida é uma pequena célula – a carta de ruptura – que reverbera numa multiplicidade de mulheres que a leem e a interpretam. Estas mulheres são filmadas, imagem e som, em diversos ambientes, o que provoca uma multiplicação dos espaços. O espaço onde está o observador se abre, ao limite, indefinidamente.

Além das mulheres que interpretam a carta (interpretar em dois sentidos: a simples leitura já é uma interpretação, além dos comentários que podem ser acrescentados), outras, juristas, tradutoras, linguistas etc., teorizam (digamos assim) sobre a carta, o que multiplica as abordagens e as facetas. Mesmo que não haja nenhuma paleontóloga, esta é potencialmente possível nesse universo em expansão. Mesmo que a exposição não apresente uma tradução da carta para o grego, ela está em potencial no universo em expansão.  

Contribui à construção dessa dinâmica a multiplicidade das mídias e meios de expressão que interpretam e refletem sobre a carta: a fotografia fixa, a imagem animada, o texto escrito, a sobreposição de texto e grafismo, a música, o canto, a dança, a performance, o origami etc.

A partir de uma pequena célula, de uma situação de vida documentada por uma carta de ruptura, abre-se um universo em expansão: é uma dinâmica da liberdade.

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h23
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