O Fantasma da literatura – 3

 

 

 

Diversos pesquisadores se debruçam sobre a obra de Roberto Bolaño e estudam paródia, duplo, espelhamento, intertextualidade, palimpsesto, reescritura, ressignificação e, acrescento eu, auto-intertextualidade (La escritura como tauromaquia) .

Sobre a obra de Bolaño e sua escrita, eu sei agora muita coisa que ignorava quando comecei a ler compulsivamente OS DETETIVES SELVAGENS e a seguir outros romances e contos. Se, ao iniciar a leitura, tivesse sabido o que eu sei agora, é provável que a intensa experiência de leitura que continua sendo a base do meu relacionamento com a literatura de Bolaño não teria ocorrido ou teria sido tênue. Mas não tenho a ingenuidade de pretender ter feito uma leitura ingênua:

A história dessa mulher trancada durante dias num banheiro da Universidade de Mexico, que de vez em quando olha pela janela enquanto as tropas invadem e ocupam a universidade em 1968, eu já li. Conheço essa história, num texto de Bolaño, certo, mas qual? Ou teria sido em alguma resenha? Não li nada sobre Bolaño.

E também essa exposição de fotografia no quarto de um apartamento. Os convidados se amontoam, mas o fotógrafo não deixa entrar ninguém. Agora ele deixa, mas um por um. E essa mulher que sai do quarto onde ela terá visto as fotografias, meio tonta, ela precisa de ar. Isso tudo também eu já li. Num texto de Bolaño, certo. Mas qual? Não lembro em que romance ou conto dos muitos que já li desse autor.

E o que realmente estou lendo? A narração dessa história por Bolaño? ou a narração é o que já tinha lido, e agora estou lendo um reflexo, uma reescritura? Ou o reflexo é o que li primeiro? A situação é a mesma, personagens e fatos são os mesmos, mas a maneira de contar é ligeiramente diferente, onde está a diferença?

Essa extraordinária experiência de leitura me faz duvidar da realidade, onde está a realidade? Estou perdido num jogo de espelhamentos e reflexos literários e não consigo perceber qual é a realidade, a verdadeira.

Essa leitura é uma experiência sensorial que trabalha nossa problemática relação com a realidade numa sociedade de virtualidades.

Uma sensação semelhante e tão poderosa eu tive assistindo a JOGO DE CENA: no meio do filme uma mulher conta uma história de vida; essa história já a ouvi, ela já foi contada, tenho certeza. Mas não consigo pôr um rosto sobre a narração anterior. Fico desequilibrado, dividido entre acompanhar essa re-narração e o movimento da minha memória que vasculha o passado recente para encontrar um rosto, que finalmente eu não encontro, o filme vai seguindo e seu ritmo me leva. Quem está fazendo o atual relato a pessoa que vivenciou a situação? uma atriz?

Sylvia Molloy (citada por Cecilia Manzoni: La literatuca como tauromaquia), encontrou uma expressão que feliz para se referir à essa sensação de vacilo da realidade, esse vacilo que não me permite pisar em terra firme, como se o chão me fugisse debaixo dos pés. Ela escreve: un reconocimiento pero no una identificación.

 

P.S. – A mulher que ficou no banheiro da UNAM é Auxilio Lacouture e o fotógrafo é Carlos Wieder. As trajetórias desses personagens na obra de Bolaño já foram rastreadas. Ainda bem que eu não sabia.