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Blog de Jean Claude Bernardet

31/08/2009

O fantasma da literatura – 6

 
 

O fantasma da literatura – 6

 

 

 

No ônibus barulhento o rapaz ouve uma voz caótica pelo seu rádio de comunicação. Agora é a vez de ele responder. Ele diz: Não copiei.

Tradução: Não entendi.

Passamos parte da nossa vida copiando, xerocando, enviando e-mail que são cópias, duplicando, salvando, salvadando como, fazendo back-up, cópias de segurança em pen drive etc.

Copiar é uma das principais atividades do presente momento da nossa civilização.

A gíria do garoto tá em cima.  

Oh Bartleby...

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h38
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O Fantasma da literatura – 5

 
 

O Fantasma da literatura – 5

 

 

ATENÇÃO V (1981-82) : a obra se compõe de uma fotografia PB e 25 desenhos grafite que reproduzem detalhes da foto. Não há relação analógica entre a foto e a disposição dos desenhos. Quem quiser procura na foto um detalhe desenhado, pode encontrar ou não, e o movimento inverso também é possível: escolher um detalhe na foto e verificar se ele foi selecionado e desenhado pela artista. Os desenhos remetem à foto e a foto sem os desenhos não teria o que fazer na exposição.

 

ATENÇÃO I (1980-2007) se compõe de uma foto PB abaixo da qual foi disposto um painel eletrônico, onde desfilam palavras e frases que remetem a detalhes da foto.

 

TESTARTE VI – MUROS (1977-2003) se compõe de dez fotos apresentando detalhes de muros manchados, mofados. As fotos são ativadas pelo conhecido texto de Leonardo da Vinci que convida o observador a olhar fragmentos de muros e a perceber paisagens, batalhas e seres estranhos. Ou seja: olhe muros e veja outra coisa.

 

Estas obras de Vera Chaves Barcelos podem ser vistas na bela exposição Imagens em migração no MASP.

 

Pois pois, dirão, o que isto tem a ver com literatura? Certo. Mas tem a ver com fantasmas.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h20
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Autoficção - 3

 
 

Autoficção - 3

 

 

Carta enviada e Zeca Palaghano

 

Zeca

 

Devo te atazanar com minhas cartas, mas ontem escrevi o seguinte, que vou transcrever, sem pensar muito, acho que raciocinar muito e pesar os argumentos bloqueia o pensamento e é melhor dizer besteiras:

Me perturba o que vc escreveu, que considera SERGE DOUBROVSKY o pai da autoficção. Por que vc acha isso Isabelle Grell, que é a entrevistadora de que lhe falei, escreveu um pequeno o artigo sobre autoficção na literatura brasileira, onde ela cita Cristovão Tessa e O Filho, mas também Lima Barreto e José Lins do Rego. Por mais tenha havido uma primeira versão do Gonzaga em que o personagem se chamava Afonso, nome do autor, por mais que Menino de engenho seja um romance com material autobiográfico, não vejo o interesse em falar de AF.

Que qualquer relato de vida implica em ficção, sim, porque a vida é inenarrável (por não ter a estrutura da linguagem verbal – retomo aqui argumentos medievais de Guilherme de Ockam, meu querido). Portanto qualquer relato de história de vida implica moldar a vida” conforme a sintaxe, o vocabulário e as estruturas narrativas disponíveis. Neste sentido qualquer autobiografia totalmente verídica e sincera é pura ficção. Mas nem por isso eu falaria em AF. Prefiro falar de mise en texte como se fala de mise en scène.

Li Les mots há muito tempo, mas eu tenderia a falar de mise en texte a respeito do livro de Sartre (embora DOUBROVSKY possa vir a convencer do contrário, ainda não li o artigo dele sobre Sartre) (não tenha ideia como dizer mise en texte em português – vc tem? Vc acha interessante pensar nisso? – que seria para o texto o que é a encenação para a cena)

Bom, então, o que seria a AF. Poderia ser a Aliança Francesa. Vou chutando: não é uma questão exclusivamente literária, embora possa recorrer à palavra e à literatura – elaborar narrativas ou coisas conexas usando material que tenha sido de alguma forma vivenciado como MATÉRIA PRIMA. Então o material vivenciado, inclusive aquele que já é apresentado sob a forma verbal, deve ser reelaborado, transformado – explorar as potencialidades do indivíduo ficcionante/ficcionando. Trabalhar tensões, limites, possibilidades, potencialidades (e portanto não necessariamente situações vivenciadas – o que poderia ser considerado mentira, desvirtuamento, sonegação etc. na autobiografia não o será necessariamente na AF) – colocar em xeque qualquer diferenciação entre pessoa / personagem (como nos reality shows). A subjetividade deixa de ser uma intimidade, a intimidade torna-se exterioridade. – e tendo a acreditar, não sei por quê, uma intuição, que a AF passa pelo outro. Para que a subjetividade e o vivenciado adquirem realmente a condição de matéria prima, têm que passar pelo outro. É ao passar pelo outro que o vivenciado por um indivíduo deixa de ser individual e se torna matéria prima a ser elaborada e, posteriormente, o individuo reelabora, reorganiza o elaborado pelo outro, o indivíduo se reapropria e material reelaborado pelo a parti de sua iniciativa, e o torna público. Nesta perspectiva Sophie Calle e seu Prenez soin de vous é um ideal. Bom, não quero fazer disso um dogma nem deixar de reconhecer como AF obras que não tenham passado por este tipo de elaboração, o que acabaria por excluir da AF qualquer produção textual elaborada por um só indivíduo. E no entanto eu me pergunto se DOUBROVSKY é mais autoficcional quando escreve o romance O Monstro/Filho (de que só conheço alguns poucos  - e belíssimos – fragmentos por enquanto) ou quando escreve seu ensaio sobre Corneille. Ontem quando li a entrevista de DOUBROVSKY, entendi que ele compreendia Corneille passando por si mesmo, e se compreendia a si mesmo passando por Corneille. (por mais que a relação DOUBROVSKY/Corneille seja eivada de freudismo nas palavras de S). Isto me fez pensar no que eu tinha feito em 1967 numa parte de meu livro Brasil em tempo de cinema (que, já em 1967, no próprio livro, eu qualifiquei de “e quase autobiográfico”- o que me valeu algumas críticas, mas que é hoje a parte mais atual do livro) que é me compreender através de Antônio das Mortes, e compreender Antônio das Mortes através de mim. Talvez este trecho do ensaio seja muito mais AF do que o romance de caráter autobiográfico Aquele rapaz.

Mas não é só em relação a Corneille que DOUBROVSKY pratica AF., no Monstro também. Mas não porque as referências são autobiográficas. Intuitivamente como eu sinto que funciona o texto? DOUBROVSKY tem uma intensa necessidade interna de escrever, e ele escreve livros SOBRE Corneille, Proust. Mas não é suficiente, ele tem que escrever ficção, romance (ou seja: a partir dos elementos freudianos fornecidos por DOUBROVSKY, ele tem que realizar o sonho da mãe, o projeto que a mãe tinha para ele e que ele incorporou), então há essa necessidade compulsiva de escrever, não ensaios, mas o Romance. E ele não consegue, não tem imaginação, não sabe o que escrever, a frase não flui. Uma tortura. Pois ele escreve com sua impossibilidade de escrever, essa impossibilidade se torna sua ferramenta, essa impossibilidade é a dinâmica estética de sua escrita. Ele faz o que eu não fiz

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h11
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