O boom do documentário – 3

 

O romance “tem como finalidade, valendo-se de uma ação verossímil, pintar os homens e a natureza na sua verdade” (1866) – “O romancista vai em busca de uma verdade” (1879)

Durante anos, o romancista francês Émile Zola refletiu sobre o romance naturalista. Uma de suas convicções era que o romance, embora não possa atingir totalmente a verdade, tem o dever de buscá-la sempre e de se aproximar dela o quanto possível.

Conforme Zola, o romance naturalista é regido também por outros princípios, entre os quais o seguinte, fundamental na concepção do escritor: “E, uma vez levantados os documentos, seu romance, como eu já disse, se estabelecerá por conta própria” (1878):

O romance prescinde do romancista para se escrever, desde que a documentação necessária tenha sido coletada e reunida.

 “O romancista naturalista faz como se desaparecesse completamente atrás da ação que narra” (1875).

O completo desaparecimento do romancista, Zola sabe que é impossível, inclusive porque ele pensa o romance como a verdade vista através de um “temperamento”, que é o escritor e sua personalidade. No entanto, o romancista deve se esforçar para que sua intervenção seja a menor possível, para que sua presença não seja – ou quase – percebida. Ao limite, como se não houvesse romancista e o romance existisse por si só.

Uma narração que chega bem pertinho da “verdade”, e um narrador que intervém o menos possível, se torna quase imperceptível e ao limite some, são ideias que Zola defendia na segunda metade do século XIX. No entanto, essas ideias permanecem vigentes entre nós. A arte que tangencia a “verdade” e o artista que some fazem parte de um discurso que se organizou há décadas. Atualmente, para se manter vivo e atuante, ele só precisa de HOSPEDEIROS que o repitam – eventualmente com algumas pequenas atualizações. Ele é tipicamente um meme conforme a concepção de Richard Dawkins (ver crônica “O milho 3” neste blog).

“Meu problema era não atrapalhar o Kiko [Enrique Diaz] e que os atores estivessem o mais próximo da verdade. Mas, para mim, que estou acostumado a fazer filmes em que tenho o controle até no descontrole, foi difícil alcançar essa não interferência”.

Esse texto encontra-se na matéria “Abrindo as cortinas” da revista PLANO B [passou a chamar-se BETA], no 4, de 2009. Ele se refere ao filme MOSCOU e é atribuído a Eduardo Coutinho.

Que Coutinho tenha dito exatamente essas frases ou que elas tenham sido um tanto copidescadas, pouco importa: o meme encontrou seu veículo para se manter vivo.