Corumbiara

 

 

CORUMBIARA de Vincent Carelli é um filme militante. Hoje em dia, até parece palavrão. Ele foi feito para denunciar um massacre de índios ocorrido em meados dos anos 1980. Ele apresenta indícios, vestígios que possam comprovar o massacre. Ele se compõe de materiais filmados no decorrer de vinte anos, é um projeto que Carelli perseguiu durante 20 anos, é um projeto de vida. Durante essas duas décadas foram flagradas situações e momentos extraordinários. Cito alguns: o encontro com dois sobreviventes, a busca dos sobreviventes por outros sobreviventes, o confronto com fazendeiros (câmera oculta), intervenções da Polícia Federal, a descoberta dos “buracos” cavados na terra servindo de esconderijo, a descoberta do índio solitário traumatizado que não suporta a aproximação de brancos. Estes não são fatos relatados, mas momentos preciosos e únicos que a câmera conseguiu captar.

Embora com preocupações alheias às que motivaram grandes filmes brasileiros recentes (como Serras da Desordem, Santiago, Jogo de Cena, Pan-Cinema Permanente), ele entra no coro das obras que discutem o relato de vida, a palavra, a história, a representação, a narração etc. Só que ele entra por uma via inesperada no quadro da filmografia citada.

Já que não se conseguiu reunir provas que atestem o massacre, pois as provas foram destruídas, já que não há como incriminar os culpados e levá-los aos tribunais, o que se impõe é CONTAR A HISTÓRIA. Contar a história e torná-la pública com veemência substitui uma ação concreta e necessária mas impossível nas atuais condições sociais e políticas. CORUMBIARA não testemunha, mas age. Contar a história é uma ação que denuncia o massacre a sociedade. Contar é agir.

A questão da imagem, do narrar a história está visceralmente integrada a este filme militante. Basta relatar o seguinte episódio:

A aproximação do índio solitário refratário a qualquer contato com brancos é feita por duas pessoas:um indegenista conhecido como Alemão, e o próprio cineasta Vincent Carelli. O índio flecha. Isto a câmera flagrou. Carelli explica que o índio não flechou o Alemão, mas ele, Carelli, porque ele segurava a câmera.