Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

26/02/2010

Eduardo Coutinho & Luiz Ruffato

 

 

 

Li ESTIVE EM LISBOA E LEMBREI DE VOCÊ de Luiz Ruffato.

Li a “nota”: “O que se segue é o depoimento, minimamente editado, de Sérgio de Souza Sampaio, nascido em Cataguases (MG) em 7 de agosto de 1969, gravado em quatro sessões, nas tardes de sábado dos dias 9, 16, 23 e 30 de julho de 2005, nas dependências do Solar dos Galegos, localizado no alto das escadinhas da Calçada do Duque, zona histórica de Lisboa. A Paulo Nogueira, que me apresentou a Serginho em Portugal, e a Gilmar Santana, que o conheceu no Brasil, oferto este livro. – L.R.”

Fui de cara limpa para o livro e acreditei no que tinha lido. Estranhei um pouco a “oferta” já que previamente o livro tinha sido dedicado a nada menos que seis pessoas. Esquisitice, passei por cima. Comecei a ler o depoimento e logo fiquei envolvido. A incorporação da oralidade e de mineirismos dão ao texto estranheza e vigor. Tamanho o vigor e tão grande meu maravilhamento que comecei a ter dúvidas sobre o ‘minimamente editado”, que se tornou um “muitíssimo”. Num momento a minha leitura vacilou. Não sabia mais o que estava lendo. Qual era o status do texto? A perícia, o virtuosismo nos meandros das frases, as correlações das temporalidades, este era um texto de Luiz Ruffato. Mas então, a nota? Toda a minha leitura e o meu envolvimento com o texto, mesmo quando não tinha mais dúvida quanto a autoria, inclusive da nota, ficaram marcados por este estremecimento inicial do texto, que não revela de imediato a sua natureza e deixa o leitor momentaneamente na incerteza.

 

Li diversos comentários e resenhas sobre o romance. Nenhum se refere ao ato de leitura e muito menos a qualquer dúvida. Ou eu sou excessivamente crédulo, ou os críticos abordaram o texto a partir de informações prévias (inclusive as fornecidas pelo autor em entrevistas). As informações que cercam e precedem as obras prejudicam a leitura, a curiosidade, o prazer da descoberta, da compreensão ou incompreensão. Uma vez de posse dessas informações só resta “conferir’. “Conferir” é um horror.

 

Qual é a operação proposta por ESTIVE EM LISBOA? O autor apropria-se do depoimento de uma pessoa que narra uma história de vida. Só que neste romance, não só o depoimento como a apropriação são uma ficção, uma simulação, LR simula no plano do literário o que Eduardo Coutinho tem praticado em filmes recentes (EDIFÍCIO MASTER etc): apropriação audiovisual de depoimentos estimulados de pessoas que narram histórias de vida. O que Coutinho radicalizou de forma tão perturbadora (para não dizer trágica) em JOGO DE CENA: o depoimento destaca-se do sujeito que vivenciou para se tornar matéria para o trabalho interpretativo de uma atriz. Mais um pequeno deslocamento e podemos imaginar que o ter-sido-vivido não é indispensável para que o texto se sustente e para o trabalho da atriz.  Basta o texto ter coerência, verossimilhança, densidade. Aí entra LR. O Coutinho desses filmes e o Ruffato desse romance pertencem ao mesmo universo estético e social. Ambos pertencem à era do “reality show” ou “esfera realidade” ou “nebulosa realidade” ou “reality as a show” ou “reality is a show” ou “show is reality”. O que no cinema se manifesta sob a forma de documentário e na literatura como “a sede de realidade do mercado editorial contemporâneo” (nas palavras de Vilma Costa). E não só de realidade mas também de simulacros.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h00
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

22/02/2010

Deficiência visual

 

 

Desde 2005 estou com doença degenerativa da retina (wet macula).

No início conseguia ler livros com lupa. O grau das lupas foi aumentando. Tentei máquinas de leitura digitais, elas são caras e pesadas. Encontrei outra solução: fotocopiar cada página de livro ampliada em papel A4, e então ler com lupa. Essa solução é relativamente barata, é leve, ela só exige uma luz bastante forte. Não sei durante quanto tempo poderei ler dessa forma, mas por enquanto é uma solução que funciona.

 Só que essa solução é proibida por lei.

O parágrafo 2º do art. 46 da lei sobre direitos autorais (Lei no 9.610 de 19.2.1998) só autoriza a reprodução em um só exemplar de “pequenos trechos” de obras literárias, artísticas ou científicas, “para uso privado do copista, desde que feita por este, sem intuito de lucro”.

Além disso o inciso “d” do parágrafo 1º do mesmo artigo autoriza a reprodução de “obras literárias, artísticas ou científicas, para uso exclusivo de deficientes visuais, sempre que a reprodução, sem fins comerciais, seja feita mediante o sistema Braille ou outro procedimento em qualquer suporte para esses destinatários”.

Há deficientes visuais que não são completamente cegos e não lêem o Braille, e que podem ler o alfabeto visual, mas não conseguem ler, mesmo com lupas, as fontes usadas em geral nos livros à venda no mercado.

A esses deficientes sobra a seguinte parte do inciso “d”: “ou outro procedimento em qualquer suporte para esses destinatários”. Só que não se sabe quais seriam esses procedimentos e suportes. Essa frase inclui somente procedimentos táteis ou também visuais?

Quanto às empresas de fotocópias, se recusam a fotocopiar livros não só na íntegra mas inclusive “pequenos trechos”, já que o próprio copista deveria fazer a cópia. Como no Brasil as fotocopiadoras não são de acesso livre nem em lojas nem nas universidades (diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos e na Europa), o parágrafo 2 implica que o copista disponha de uma fotocopiadora.

Seria necessário regulamentar o que se entende por “outro procedimento em qualquer suporte”, para que deficientes visuais que têm capacidade de ler com os olhos possam se beneficiar de fotocópias ampliadas de livros.

Tais pessoas poderiam se identificar mediante atestado de deficiência visual fornecido por um oftalmologista, uma clínica etc. Poderia até se exigir nota fiscal comprovando compra do livro, ou atestado de empréstimo de uma biblioteca.

Mas o que não se pode é impedir – por lei – que tenham acesso aos livros os deficientes visuais que ainda têm alguma capacidade de ler o alfabeto visual, nem obrigá-los a adquirir máquinas de leitura digitais que, além de onerosas, são frequentemente menos práticas do que alardeiam os vendedores.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h13
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

Saco

 

 

Vi o filminho antipoluição que anda passando nas salas Unibanco aproveitando um plano de SANTIAGO de João Moreira Salles:

Saco é um saco

Saco é um caso

Saco é um asco

Saco é o caos

Soca o saco

Ai! Isso dói

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h50
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

historico

busca

Neste blog Na web
Visitas Contador