Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

29/10/2010

CÓPIA FIEL de Kiarostami – 2

 
 

CÓPIA FIEL de Kiarostami – 2

 

 

Juliette Binoche interpreta uma francesa que vive na Toscana onde dirige uma galeria de arte. No início da narrativa ela encontra um escritor inglês que viajou à Itália para o lançamento de um livro seu.

No final do filme, cuja trama pode se desenvolver em dois dias ou pouco mais, eles estão casados há quinze anos, vivem separados e ele veio à Itália para se encontrar com ela no dia do aniversário de seu casamento. Eles visitam a pousada onde passaram a lua de mel, e à noite ele deverá viajar de volta à Inglaterra.

A situação em que encontramos os personagens no final do filme (quinze anos de casados, aniversário) não é uma situação que existia no início mas teria sido sonegada ao conhecimento do expectador por algum procedimento narrativo. No início da narrativa os personagens não se conhecem, no final estão casados há quinze anos. A narrativa não se desenvolve a partir de uma situação inicial (conhecida ou não do espectador) e que permaneceria com a função de ponto de partida até o desenlace. Proponho:

Uma possibilidade de compreender Cópia fiel passa pela Teoria da Complexidade (ou do Caos) e a sensibilidade das condições iniciais do sistema. Nessa narrativa as condições iniciais são instáveis e se modificam no decorrer do filme, i. e., se modificam no decorrer da própria narrativa. Exemplificando: num determinado momento o personagem de Juliette Binoche afirma que o personagem masculino não fala sua língua, o francês. Pouco depois ele fala fluentemente francês.

Acredito que essa estrutura narrativa seja inovadora e contribui para escapar às convenções realistas (mesmo que a trama seja fantástica) em que as condições iniciais permanecem fixas.

Essa estrutura narrativa gera dúvidas constantes sobre o que está sendo visto e ouvido. O espectador fica num estado permanente de incerteza.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h28
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

CÓPIA FIEL de Kiarostami – 1

 
 

CÓPIA FIEL de Kiarostami – 1

 

 

Obrigado Abbas, você respondeu.

A relação entre o diretor italiano Roberto Rossellini era um tanto misteriosa. Era evidente que havia algo, mas o quê? Em Caminhos de Kiarostami (2004) escrevi: “Kiarostami é sempre mais do que discreto quando lhe fazem perguntas sobre filmes que viu e de que gostou. [...] Em entrevista, Kiarostami diz que no Irã do Xá podiam ser vistos filmes americanos “que estavam distantes de nossa vida”, e filmes neo-realistas, De Sica e Rossellini, “que estavam mais próximos” (Peter Lennon). S.F. Said o entrevistou especificamente sobre Viagem à Itália de Rossellini, Kiarostami conta a seguinte história: “Recentemente num festival, me pediram que escolhesse um filme que eu quisesse ver uma segunda vez. Escolhi Viaggio in Italia de Rossellini. Quando o vi de novo, pensei que este não era o filme que tinha visto vinte anos atrás. Ele ainda tem momentos excelentes, mas tem erros terríveis. Quando você gosta de um filme durante vinte anos, ele é como uma árvore que cresce com independência dentro de você. Mas você está falando de uma árvore que não existe, porque o que existe de fato é uma pequena planta. O que você vê depois de vinte anos ainda é a pequena planta que você viu no passado [...] O filme parecia tão real, como se a câmera não existisse. Nunca vi a cenografia, vi somente a naturalidade. Eu não sabia que o carro tinha sido colocado sobre trilhos e estava sendo puxado [... Agora] vejo quantos artifícios havia. Toda essa artificialidade que eu sabia estar atrás das cenas se tornou evidente aos olhos de um diretor de filmes”. Não satisfeito com a resposta, Said “inspira fundo” (sic) e desfecha a estocada:  acha Kiarostami que Rossellini teve uma grande influência sobre seu próprio estilo? A resposta encerra a entrevista: “Sim, mas eu não quero continuar a falar sobre uma pessoa falecida”. A minha suposição é que a primeira projeção impressionou Kiarostami e, arrisco, foram a viagem e o carro que o marcaram. O filme abre com uma estrada filmada dentro de um carro em movimento, temos vistas da paisagem tomadas da janela, o motorista e a passageira conversam. Quando do lançamento do filme no Brasil, escrevi: ‘É justamente esta noção de trajeto que traduz o objeto concreto que é a espinha dorsal do filme: o automóvel”, o que poderia se aplicar a um filme de Kiarostami. Não se trata de uma influência de Rossellini sobre Kiarostami (aliás, ele recusa com toda razão o termo de “influência”), e seria ingênuo considerar que Viagem à Itália tenha moldado ou coisa parecida a obra de Kiarostami. Mas é possível que ele tenha encontrado nas imagens e estrutura deste filme – o trânsito, o carro na estrada, o interior do carro, personagens conversando dentro do carro – como que uma formalização de um imaginário sobre o qual ele já vinha trabalhando, digamos que o filme de Rossellini teria agido como um catalisador sobre o imaginário de Kiarostami.”

Agora podemos afirmar: Viagem à Itália foi um catalizador: Cópia fiel, apresentado na 34ª  Mostra, é a prova. O filme de Kiarostami é como uma reescrita do filme de Rossellini, com Juliette Binoche no papel de Ingrid Bergman e William Shimell no de George Sanders. Viagem à Itália é um fantasma que viveu 30 ou 40 anos na mente de Kiarostami e agora desabrocha em Cópia fiel.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h20
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

historico

busca

Neste blog Na web
Visitas Contador