Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

05/11/2010

CÓPIA FIEL de Kiarostami – 4

 
 

CÓPIA FIEL de Kiarostami – 4

 

Na crônica anterior vimos que um comentarista considera que o filme de Kiarostami se quebraria e a seguir se  iniciaria um segundo filme. O corte se daria no café depois do “escritor” sair para atender o celular. O segundo filme começaria com a conversa da atendente que toma o “escritor” pelo marido da mulher e esta não desmente.

Retomando a idéia da instabilidade das condições iniciais, não penso que haja um corte, um momento preciso em que se passaria de uma situação (escritor inglês veio à Itália para fazer uma palestra por ocasião do lançamento de um livro seu, uma galerista assiste à palestra por se interessar pelas ideias expostas no livro, o escritor e a galerista não se conhecem) a outra (eles estão casados há 15 anos). Haveria ao contrário um deslizamento em que as condições iniciais vão se transformando aos poucos. A entrada dos personagens no carro já inicia a formação do casal, deixando os livros no banco traseiro do carro ele se torna um pouco menos escritor, a agressividade de Juliette Binoche prenuncia as cobranças que ela fará posteriormente como esposa que, no carro, ela começa a ser mas ainda não é. A cena do café e a seguir o diálogo do homem que passa do inglês ao francês completam a reorganização das condições iniciais desse sistema narrativo. Ele fez uma viagem à Itália para visitar a esposa, de quem está separado, no dia do15o aniversário de seu casamento.

Não tenho a menor ideia se Kiarostami pensou ou não nesta estrutura narrativa, acredito que não porque o filme não é a execução de um projeto previamente estabelecido e fechado. Essa organização narrativa foi provavelmente se formando durante a elaboração do roteiro, a filmagem e a montagem. E a posteriori pode-se perceber a organização do filme. De forma que me parece lógico o cineasta afirmar que este é um filme sem estrutura narrativa (ver crônica precedente). Pode ser que eu esteja inventando tudo. De qualquer forma a ideia de uma narrativa cuja situação de base é instável e mutável me parece abrir perspectivas estimulantes.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 12h52
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04/11/2010

CÓPIA FIEL de Kiarostami – 3

 
 

CÓPIA FIEL de Kiarostami – 3

Percorri alguns comentários sobre Cópia fiel encontrados na internet: nenhum alude a uma eventual estrutura narrativa na qual haveria alterações da situação de base no decorrer da narrativa. A interpretação dominante é que os dois personagens não se conheciam no início do filme e em determinado momento, sem aviso prévio, “fingem ser um casal de verdade”, passam a interpretar papéis, ela se comporta como se fosse a esposa e ele a segue no jogo. Dessa forma ambos passam a representar a sinistra decomposição de um casal, que de fato não são.  Dessa forma o filme ganha coerência psicológica e se encaixa numa forma clássica de narrativa.

Nenhum comentarista propõe o inverso: um homem e uma mulher, que só na segunda parte do filme saberemos casados há 15 anos, fingem no início não se conhecer e praticar um jogo de sedução para tentar reerguer um casamento que, saberemos depois, afundou.

Em ambos os casos, se trabalha com um ponto de partida fixo e se aborda personagens e situação sob um ângulo psicológico. Encaixar esse enredo nas convenções narrativas e psicologisar o filme apresentam dois inconvenientes:

O primeiro é que o comentarista não consegue dar conta da estrutura narrativa. Conforme um crítico num determinado momento o filme se dobra ou se quebra em dois (“se plie em deux”) e então começa um “segundo filme”. Então temos dois filmes. Ou então: a ideia de se fingir de casados “appears to amuse them both, and without ever remarking explicitly on what is happening, the pair embark on a kind of exploratory role-play…” (Peter Bradshaw – grifo meu). Quanto a Kiarostami, como costuma fazer, ele não facilita o trabalho: “It´s quite hard to say what it´s [the movie] about because it doesn´t have a narrative structure, so I think it´s going to be more of an experimental work…” (grifo meu). Portanto um filme sem estrutura. OK.

Outro inconveniente de encaixar o filme em convenções narrativas e perceber o enredo apenas do ponto de vista psicológico, é que o reduzimos a mais um dos milhares de filmes sobre casais. E então poderemos dizer que Binoche está magnífica ou over, que Shimell está contido ou insuficiente, que Kiarostami faz um retrato devastador do casamento. Ou achar óbvias e repetitivas todas essas noivas. Ou achar que “o casal não é nada convincente e o filme afunda num tédio profundo...”, ou que a “inter-relation between the characters is never in the smallest way convincing...” e que o filme “is unconvincing and unintereresting.”

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 10h10
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01/11/2010

De raízes & rezas, de Sergio Muniz

 
 

De raízes & rezas, de Sergio Muniz

Leio a análise que Clara Leonel Ramos fez do filme de Sergio Muniz De raízes & rezas entre outros na sua tese de título caravanesco: As múltiplas vozes da Caravana Farkas e a crise do ‘modelo sociológico’.

Me deparo com a seguinte frase: “O filme apresenta a religiosidade popular do ponto de vista de uma experiência subjetiva de fé, legítima e valorizada, através do depoimento da rezadeira Maria”. Evidentemente essa não é a abordagem habitual da religião e do religioso nos filmes produzidos por Farkas, que privilegiam o enfoque sociológico. A religião tende a ser vista como forma de alienação popular.

A abordagem de Muniz ainda é inusitada em 1972 e a frase de Clara leva a ver em De raízes & rezas um precursor de Santo forte que Eduardo Coutinho realizaria anos mais tarde.

Acho interessante traçar, criar ou detectar genealogias dentro da produção cinematográfica brasileira (mesmo que Coutinho nunca tenha tomado conhecimento do filme de Muniz).

As colocações de Clara Ramos permitem repensar a grande guinada que o cinema brasileiro dá na primeira metade dos anos 70 em relação às concepções do religioso dos anos 60, principalmente do Cinema Novo. De certa forma De raízes... prepara os grandes marcos dessa guinada que são O amuleto de Ogum (1974) de Nelson Pereira dos Santos e Iaô (1976) de Geraldo Sarno.

 Esse é um bom tema para discussão atual, já que o país parece estar se encaminhando paulatinamente para uma teocracia (ver artigo “A mais religiosa de todas as campanhas”, O Estado de S. Paulo, 31.10.2010.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h50
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Coutinho / Uma dia na vida

 
 

Coutinho / Uma dia na vida

A 643ª sessão da 34ª Mostra Internacional de Cinema ficará HISTÓRICA: projeção do material de pesquisa captado por Eduardo Coutinho na TV para um “filme futuro” desafiou a Lei dos Direitos Autorais.

Além dos pontos comentados por Jorge Furtado e Eduardo Escorel depois da projeção [espantosa capacidade de reinvenção de si e de sua obra demonstrada por Coutinho; efeito Marcel Duchamp/mictório/fonte; esquecimento e sedimentação; espectador doméstico e espectador público etc.], pode se destacar também que (trabalhando com um método por ele nunca praticado: nenhum material filmado por ele, apenas captado na TV e “minimamente editado” como diria Luis Ruffato), Coutinho permanece fiel a uma linha dominante na sua obra: a temática feminina, mas com abordagem renovada.

Não só porque a seleção do material captado privilegia a temática feminina, ou porque um relato ouvido em Um dia na vida poderia ter sido feito por um personagem de Jogo de cena, mas porque estes são provavelmente programas de TV a que assistem mulheres como as de Jogo de cena e porque essas são as mulheres que esses programas escolhem como alvo. Por mais que os dois filmes sejam completamente diferentes, intuo entre eles uma discreta intimidade.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h47
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