Viajo porque preciso, volto porque te amo – 9

 

Viajo porque preciso abriu o segundo festival pan-amazônico de Belém!

Na saída, um distinto espectador achava que o filme tinha algo de estranho, mas não identificava o quê.

Olhando para o distinto espectador, me veio a palavra que gerava esse estado de perplexidade: testosterona. O distinto espectador concordou plenamente com um “é isso” que indicava que o problema tinha sido localizado.

Chegamos à conclusão que Viajo era um filme gay, que um hétero não se entusiasmaria tanto com a testosterona de outro macho. É verdade que o comentário sobre o colchoeiro que não brocha foi cuidadosamente inserido no monólogo num momento de fragilidade do personagem, que acaba de revelar ter desistido de um programa sexual a caminho do motel. Mas talvez se possa estranhar que a trajetória de Zé Renato que se morre de amor por uma mulher e procura prostitutas acabe com a festança masculina dos ‘clavadistas’ de Acapulco.

Na realidade, a questão não me tinha passado despercebida, mas nunca tinha encontrado quem estranhasse o erotismo ou a sexualidade que emana do filme. O colchoeiro e os ‘clavadistas’ soam estranhos diante da obvia heterossexualidade do personagem. Apesar dessa heterossexualidade claramente afirmada, o erotismo do filme é furta-cor e essa é uma das suas qualidades, faz parte da sua sensibilidade e do seu mistério. Viajo não é um filme gay, é um filme contemporâneo.