Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

14/01/2011

Resta pouco a dizer

 
 

Resta pouco a dizer

 

RESTA POUCO A DIZER, excelente espetáculo (Teatro Anchieta) de Fernando e Adriano Guimarães, alterna textos curtos de Samuel Beckett com performances. Na primeira, dois atores ficam imersos em dois tanques de água já na entrada do teatro; nas seguintes apenas a cabeça é imersa. O que poderia parecer uma extravagância vai revelando no decorrer do espetáculo uma rigorosa lógica interna. Essa lógica é a da respiração. E da antirrespiração, da apneia, quando a cabeça está imersa. Assim que a cabeça sai da água, a boca toca um texto em disparada mecânica. O primeiro texto é “Respirar é um ato obrigatório”, que, salvo engano, foi utilizado pelos mesmos Guimarães em outra performance aquática no SESC Paulista há alguns anos.

O que isso tem a ver com Beckett? Fica claro na terceira peça, JOGO (1962) em que três personagens metralham o diálogo, seguindo didascália do dramaturgo projetada numa tela durante o espetáculo. Essa fala metralhada exige uma forte inspiração que permita articular a maior quantidade possível de texto até que, esgotado o fôlego, uma breve pausa prepara nova inspiração (afinal ninguém é de ferro). Assim se estabelece uma relação entre respiração, emissão de texto e imersão na água. Algumas dicas guiam o espectador: a peça que precede JOGO é ATO SEM PALAVRA, pode ser tomada como contraponto a uma peça de fala disparada (por outro lado ATO é um Escher ou um Moebius dramático; além disso, alguns textos do espetáculo são ditos em forma de anel). Outro contraponto: as performances apresentadas entre as peças de Beckett consistem em um ou mais atores ficar em pé diante de um balde d’água e se curvar até a cabeça ficar imersa, ora JOGO apresenta personagens enfiados dentro de caixas das quais emergem apenas as cabeças. Outra conexão entre JOGO e a primeira performance: uma campanhia, tocada por um mestre de cerimônia, indica o momento exato em que os atores devem entrar na água, onde ficarão até não agüentar mais, emergirão e imediatamente dispararão o texto até novo toque da campanhia. Essa estrutura evoca a escolhida por Beckett em JOGO em que a campanhia é substituída por um canhão de luz que só ilumina um ator e só fala o ator iluminado. O canhão de luz dispara o texto como a campanhia o interrompia.

O eixo conceitual de RESTA POUCO A DIZER (muito pouco mesmo) é a respiração, ato obrigatório que o espetáculo transgride (até certo ponto, atores e atrizes permanecem vivos até o fim do espetáculo).

Gostaria de acrescentar uma observação sobre o texto metralhado que, ao limite, é incompreensível. A preocupação básica dos atores é a precisão de articulação das sílabas, uma mais do que breve pausa entre as palavras e a quantidade de texto que conseguem emitir a cada inspiração. Assim o texto, mesmo a história triangular de JOGO, deixa de ser um relato pessoal ou uma comunicação entre pessoas, deixa de ser uma área de expressão da subjetividade, de ser modulado pelas entonações e o tempo das emoções. Volto à minha obsessão: JOGO DE CENA. A partir do momento em que o texto deixa o corpo que vivenciou a experiência relatada e que foi o primeiro narrador, ele ganha autonomia. Sua autonomia textual se presta a uma interpretação realista emocionada como no filme de Coutinho, mas pode igualmente e sem nenhum problema se tornar um texto chispado mecanicamente, área de trabalho da respiração (a qual não estará mais a serviço das emoções) ou de qualquer outro parâmetro que se queira.

É um espetáculo preciso, dinâmico, que nunca perde o tônus.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h41
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Pacific – 3

 
 

Pacific – 3

  

De JCB para Marcelo Pedroso (20.12.2010)

 

Marcelo,

 

Gostei muito do texto do André Brasil, ele dá boa orientação para pensar; por ex.: “colonização da vida cotidiana”, que tangencialmente faz com que o privado deixe de existir. O lazer como uma substituição obrigatória do trabalho. Regular ou suplantar a esfera do pessoal (pego essas palavras na Pintura da Vida Moderna de Clark). Acredito, meio baseado no Guy Debord, que a empresa (no caso de turismo) tem que gerar em você o desejo de viajar. Tentando satisfazer o seu desejo você faz funcionar a empresa. Se a empresa gera o seu desejo, significa que sua própria subjetividade é pelo menos em parte um produto da empresa. Seria essa uma das características do que alguns chamam a 3ª fase do capitalismo. Acredito que Pacific permite refletir sobre isto.

E refletir também sobre um tema apresentado pelo artigo: a empresa (no caso fabricante de equipamento audiovisual) tem que gerar em você o desejo de “aparecer”, de se encenar, de fazer com que o aparecer seja o ser. Isto permite repensar um aspecto da produção de Pacific. Eu no fundo considerava que você tinha tornado público uma produção da esfera privada (com as devidas autorizações). Mas talvez tenha acontecido algo um tanto diferente: os turistas que aceitaram ceder o material para a feitura de um filme público, poderão ter visto na tua proposta uma possibilidade de ampliar o que já estava no material que produziam: ampliar o aparecer, a encenação, o espetáculo para uma escala maior, como que reforçando e dando maior visibilidade ao projeto original. De forma que talvez não se possa dizer que a operação consistiu simplesmente em passar do privado ao público, com as devidas autorizações, porque o privado, tanto do lado do turismo como do audiovisual, já não era mais o privado. É certo que Pacific toca pontos sensíveis da contemporaneidade.

Em tempo: Comentei o filme com Vânia Debs. Ela me disse que deveria colocar isso no blog. Você aceitaria que a 1ª carta que lhe enviei, a sua resposta e esta atual sejam postadas?

Em tempo 2 – no dia 17.12.2010, mais ou menos às 20h o Jornal da Band divulgou uma matéria sobre cruzeiros marítimos da nova classe média. O teu filme acertou no alvo

Um abraço,

Jean-Claude

 

Ainda no mesmo dia:

Marcelo

 

 

e outra : tanto o pedido de cessão de material que vc fez aos turistas, como sua aceitação, como o filme têm que ser pensados, não na tradição do velho humanismo, mas na época do reality show e do facebook, com as consequências éticas que isso implica

Re-abr

jcb

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h42
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13/01/2011

Pacific – 2

 
 

Pacific – 2

 

De Marcelo Pedroso a JCB (18.11.2010)

 

Bom dia, Jean-Claude. Tudo bem?

Peço desculpas pela demora em responder, mas estava realmente com acesso à internet muito restrito enquanto viajava.

Mas vamos lá...

A questão ética tem regido sim alguns debates em torno do filme e, embora eu considere um tema importantíssimo, fico um pouco chateado quando ele se sobrepõe a outras questões que julgo igualmente pertinentes. Mas de uma forma geral, poderia te dizer o seguinte: o filme se propõe, sim, a lançar um olhar sobre o olhar dos personagens, sobre sua vivência de mundo que se manifesta através das imagens que realizam. E, neste sentido, enquanto diretor do filme, estou necessariamente ocupando um espaço de poder, já que fui eu quem organizei toda a narrativa e discurso do documentário. E eu fiz isso, deliberadamente, à revelia dos personagens, não se trata de um filme de colaboração ou participação, mas da forma como eu, pessoalmente, enxergo aquele mundo a partir das imagens que me chegaram.

Mas posso te dizer que isso não foi fácil e que executei essa tarefa como num exercício de arriscado funambulismo. Isso porque, se em sua gênese, o projeto tinha uma inclinação muito forte à crítica, a questionar os valores da classe média e seus excessos, isso foi se transformando ao longo do processo. De alguma forma, as imagens me enterneceram e eu passei a reconhecer ali, naquele imaginário extasiado, elementos que dizem respeito à nossa própria constituição enquanto pessoas, a aspectos os mais frágeis de nossa formação.

Acho que a partir daí a montagem do filme ganhou uma certa ambiguidade que julgo muito salutar e que talvez corresponda a meu ponto de vista sobre o objeto do documentário (ressalvando aqui o quanto é dificil para mim falar de "objeto" no Pacific, por entender que não se trata de algo facilmente centralizável).

A grande questão que se colocaria para mim então: seria possível ao filme referendar a expressão subjetiva dos personagens, endossar e compartilhar de sua experiência de vida, dividir com eles a alegria genuina dos momentos vividos, mas ao mesmo tempo se manter crítico a alguns valores ali expressos, à fórmula de felicidade irrefletida e compulsória oferecida pelo navio, à espetacularização das relações sociais e outras questões mais?

Esse pra mim foi o cerne do delicado trabalho de montagem do filme. Cheguei a ter um primeiro corte em que, ao rever, senti uma mão muito pesada, senti que os personagens ficavam muito expostos. Refiz completamente a estrutura do filme para chegar ao que seria para mim um estado de equilíbrio.

Então, existe um olhar que se sobrepõe aos outros? Sim, o meu. Mas não concordo que seja um olhar meramente detrator, que queira expor os personagens ao ridículo. De forma alguma, para mim é um olhar que cultiva o afeto e ao mesmo tempo pretende problematizar algumas questões. Eu me reconheço no Pacific, de alguma maneira, eu estou ali tomando caipirinhas na festa tropical ou tirando fotos das tartaruguinhas em Noronha. Isso faz parte de minhas referências de mundo, eu cresci nesse meio, em bailes de debutantes e festas de formaturas orquestradas pelas mesmas músicas que estão no filme, as mesmas pessoas, meus vizinhos, meus parentes, eu mesmo...

E esse pertencimento me coloca numa situação delicada para olhar para aquela realidade. O que procurei fazer da maneira mais coerente possível.
 
Sobre suas hipóteses com relação ao que provocaria a acusação de falta de ética no filme, devo dizer que concordo com todas: a "evasão de privacidade" proporcionada por imagens que talvez não tenham sido feitas para serem vistas daquela forma causam sim um certo constrangimento. Mas eu propus o jogo e os personagens toparam. Mandei o filme para todos eles depois que ficou pronto, a maioria nunca respondeu, mas alguns se monstraram grandes entusiastas, defendendo o documentário inclusive em redes sociais da internet.

Também concordo que a extrema atualidade das imagens, que foram feitas no ano passado e não nos nostálgicos anos 70 registrados pelo super-8, causa uma certa dificuldade. Imagens antigas, sobre as quais o tempo já agiu com um certo verniz embalsamador e que agregam o artifício da memória, se tornam mais fáceis até pelo distanciamento contido nesse processo.

Mas o que tenho achado muito legal nesses debates sobre o Pacific, sempre que essa questão da ética e do ridículo vêm à tona, é a possibilidade de realizar um exercício singular de olhar para o outro e para si próprio. Precisamos entender os personagens do filme dentro da excepcionalidade do momento que eles estão vivendo. São férias de gente que passou o ano inteiro pagando prestações para estar no navio. Estão realizando um sonho e querem levar o aproveitamento disso ao paroxismo. Isso é um momento de exceção na vida deles, não seria presunçoso julgá-los? E o quanto de nós mesmo há ali dentro?

O valor de ridículo é algo socialmente construído. O que é ridículo para nós certamente não o é para os personagens do filme. Ou talvez também o seja, mas neste caso eles me parecem bem conscientes e auto-paródicos dos momentos que estão vivendo. Como uma encenação de Titanic no convés do navio. É claramente auto-irônica, não é uma simples reprodução do clichê. Está mais para uma apropriação dele, com vistas a uma diversão espontânea. E neste sentido, também concordo com você quando você diz que o ridículo pode estar nos olhos de quem vê, da maneira como olha. Não quero com isso isentar o filme. Pelo contrário, assumo minha posição de observador daquilo tudo, mas acho que precisamos ficar atentos para como olhamos para os fatos.

Enfim... acho que teria muita coisa a falar ainda, mas não quero prolongar tanto o email, até porque gostaria de te enviar também um texto sobre o filme. Trata-se de um artigo de André Brasil que problematiza essas questões e algumas outras com bastante sobriedade. Eu pedi a ele permissão para enviar o artigo (que ainda não foi publicado) e ele topou, mas pediu encarecidamente que não o divulguemos para mais ninguém. Está em anexo.

Jean-Claude, o Pacific está participando da Bienal de São Paulo e devo ir para debater o filme numa sessão na segunda-feira, 29 de novembro. Quem vai mediar a mesa é Ilana Feldman. Para mim, seria um grande prazer e honra se você topasse quisesse aparecer. Fica o convite. :)

Um forte abraço e muito obrigado por suas generosas considerações sobre o filme. Repito o quanto teus escritos foram importantes para minha formação e para a própria gênese do Pacific.

Marcelo Pedroso

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h13
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12/01/2011

Pacific – 1

 
 

Pacific – 1

 

Marcelo Pedroso e eu trocamos várias mensagens sobre o filme dele: PACIFIC.

 

De JCB a Marcelo Pedroso (09.11.2010)

 

Marcelo

 

Te escrevo para te colocar uma dúvida em relação ao Pacific.

Não sei se vc já ouviu este comentário, eu ouvi de pessoas diferentes mas todas pertencentes mais ou menos ao mesmo meio (professores, cineastas): o filme olharia com superioridade as pessoas que fizeram os filminhos e que aparecem neles. Haveria um olhar que deixaria essas pessoas um pouco ridículas, o filme proporia que se olhe o brega com ironia, proporia que nós nos divirtamos às custas dessas pessoas. Se colocaria então um problema ético por falta de respeito a essas pessoas.

Devo reconhecer que de vez em quando me senti um tanto invasivo em relação à vida dos outros, desses outros.

Mas eu não consigo concordar com essa falta de ética. Ela não provém de palavras já que não há comentário over. Então estaria na seleção e montagem. Revejo agora trechos do filme e não consigo captar em que momento, em que procedimento estaria tal desrespeito. Talvez esteja no próprio dispositivo que consiste em montar documentos que provêm da intimidade, de organizar um espetáculo com isso, de expor as pessoas à espetacularidade enquanto os filminhos teriam sido feitos para se divertir na família e entre amigos – mas os filminhos foram cedidos.

Mas podemos levantar outra hipótese: o que torna brega e desrespeitoso o filme seria o próprio olhar das pessoas que o acusam de faltar à ética. São todas elas pessoas cultas, de bom gosto e com boa imagem de si mesmas. Se elas vissem o material bruto, o achariam provavelmente brega e ridículo. Mas como o vêem através do filme, atribuem o olhar superior e julgador ao filme e não a si mesmas.

Quando essas mesmas pessoas vêem filminhos de família dos anos 20... 50-60, que não são menos brega nem menos ridículos, elas não os acham brega porque o tempo deixou uma pátina que elas respeitam, portanto os filmes já viraram documentos dignos de respeito e de estudo.

As pessoas sempre atribuem todas as características à obra e nunca questionam seu próprio olhar e sua relação com a obra. Como se ainda estivéssemos no sec XIX.

Acho que quem acusa o filme de ter um olhar superior simplesmente não consegue perceber que as pessoas que fazem o cruzeiro estão se divertindo, curtindo e curtindo inclusive os equipamentos que a moderna indústria de consumo coloca a seu alcance.

Vc já teve a oportunidade de discutir esse assunto? O que vc acha?

um abraço

Jean-Claude

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h18
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