Pacific – 4

 

De Marcelo Pedroso a JCB (22.12.2010)

 

 

Caro Jean Claude,

Fico feliz em ver essa interlocução fluindo e deveras grato por seus comentários ao Pacific e ao tempo que dispensou a sua análise. Suas observações têm me oportunizado a possibilidade de enxergar novos elementos do filme e do extra-filme, permitindo acessar outras camadas de sua significação.

É curioso notar que as imagens tenham sido produzidas justamente para serem compartilhadas em espaços como as redes sociais da internet, que superam a simples fruição no âmbito familiar ou de amigos próximos. De fato, eu não saberia dizer se as imagens produzidas pelos personagens do navio foram feitas com essa intenção ou se estariam contaminadas por esse espírito de encenação que busca a visibilidade das imagens da contemporaneidade. Acredito que, no Pacific, as imagens vêm carregadas desse espírito, mas que, no fim das contas, acabariam mesmo adormecidas numa gaveta, não chegariam a ser editadas. Quando muito, seriam retomadas daqui a dez ou vinte anos, num momento de redescoberta ou lembrança para os personagens.

Porém, mesmo que ontologicamente não fossem destinadas ao Facebook, elas carregam esse estatuto, que se tornou uma espécie de traço da nossa contemporaneidade. Ou seja, acredito que as imagens traduzem o desejo de reconhecimento e visibilidade dos personagens, mesmo que eles não fossem, de fato, postá-las nas redes sociais. Mas de alguma forma, a simples existência das redes sociais já condicionam a existência das imagens, já as incita.

Outra questão que acho cabível está ligada ao exercício lúdico de fazer imagens. Se antes havia limitações financeiras para se produzir imagens (negativos, revelação, equipamentos mais caros etc), hoje não há restrições dessa natureza. Então, pode-se filmar o tempo inteiro e a câmera se torna quase que uma interlocutora com o mundo real, através da qual seus portadores podem criar personagens (à frente ou atrás das objetivas) e exercer diferentes identidades sem muita seriedade ou compromisso com o que quer que seja, senão a livre fabulação. E neste jogo, a câmera se torna uma espécie de ativadora de realidades, pois passa a agenciar um repertório cultural que talvez não estivesse evidente ali.

Mas bem, mudando um pouco de assunto, quanto à possibilidade de postar no blog as três primeiras mensagens, acho muito bom. Sou leitor regular de teus textos e eles sempre me proporcionam boas reflexões. Se as questões em torno do Pacific puderem servir a isso, acho ótimo! :)

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Bem, vou indo lá e te deixo com meus votos de boas festas de fim de ano!

Um abração,

Marcelo Pedroso