NÃOTEMNEMNOME

 

NÃOTEMNEMNOME, espetáculo da Cia. das Inutilizas em cartaz no SESC Pompéia, é da linhagem de JOGO DE CENA.

À tarde fui entrevistado durante 1h1/2 por um membro do elenco. A entrevista foi gravada e ele tomava notas nas três folhas do roteiro de perguntas. Inicialmente ele me narrou uma situação pela qual tinha passado na infância com a mãe, o que de algum modo dava o à entrevista.

O espetáculo apresentado à noite incorpora materiais recolhidos durante as entrevistas vespertinas (o que pode ser adiado caso o entrevistado venha assistir ao espetáculo outro dia).

O espetáculo ou sessão ou apresentação ocorre em espaço que poderia ser o salão da sua tia (se você tivesse tia) com direito a bolachinhas, água, vinho e até uísque. Após o diretor explicar as regras do jogo, os atuantes contam histórias, vivências, reminiscências etc., podem até ler o jornal do dia. Ocorre um estranhamento quando você identifica numa das histórias relatadas em primeira pessoa por um atuante elementos que provêm evidentemente da entrevista da tarde. Esses fragmentos integram agora outra história, estão inseridos em outro contexto. Á tarde eu tinha falado da minha janela no 30º andar do edifício Copan, à noite apareceu uma janela semelhante à minha mas diferente e com bastante ironia, o que achei bom, visto que eu tinha comentado com o entrevistador que o papo da tarde tinha ficado soturno. É um fiapo da verbalização de uma experiência de vida que passa a integrar uma ficção que é apresentada pela narradora como o relato de uma experiência vivida por ela. A sua expressão verbal vira matéria prima para um outro, o que torna perceptível que o relato migrou de corpo e que o primeiro corpo narrador foi despossuído. A sua fala foi, com seu consentimento sem dúvida, desapropriada e reciclada.

Além do reconhecimento do seu material reciclado, o espetáculo propõe outra brincadeira: paira dúvida sobre se determinados elementos provém ou não do material que você forneceu. Uma atuante usa o repertório 1.000 filmes para se ver antes de morrer; como à tarde eu tinha falado em morte e em cinema, pensei que esse livro tanto podia fazer parte da estrutura de base do espetáculo como ter sido sugerido pela minha fala. O filme do repertório a que a atuante se referiu não tinha sido citado por mim, e para completar o jogo de ambiguidades ela transcreveu (?) um trecho da sinopse num papelzinho que ela me entregou para ler mais tarde (e o texto escolhido tem tudo a ver comigo). Até onde meu material continua sendo meu? Até onde esse material de que sou a fonte, vai se transformando e ficando de outrem à medida que ele se infiltra em outros terrenos.

Até agora me concentrei no entrevistado da tarde e espectador da noite. Mas o espetáculo oferece outra vertente não menos estimulante.

Em alguns relatos você reconhece fiapos retrabalhados de suas próprias narrativas, mas você sabe que nesta mesma tarde outras pessoas passaram pela entrevista e forneceram material para as narrativas da noite, e você sabe que estas pessoas estão presentes nesta sala e que você não tem como identificá-las (talvez a moça sentada a seu lado) nem como identificar os elementos narrativos que elas forneceram e estão sendo aproveitados. Portanto há um mistério: quem são os outros? É possível e até provável que materiais provenientes de outrem tenham sido entrelaçados com a minha janela. E você não tem como diferenciar materiais eventualmente proveniente de outrem de outros introduzidos pelos próprios atuantes a partir de suas vivências, leituras, imaginações, laboratórios etc.

E aí se abre outra vertente. Você não pode identificar os materiais do outro que certamente estão amalgamados nas narrativas dos atuantes: essa situação se espelha, a saber, os outros não identificam nas narrativas dos atuantes materiais que você terá fornecido à tarde. O espectador a seu lado ou na sua frente pode e deve provavelmente estar percorrendo todo o labirinto mental em que você está meio perdido e meio se achando. Portanto você é um enigma e sabe que é um enigma para o outro.

Graças a esse jogo de espelho, você consegue intuir que pode ser um enigma para o outro, isto é, o espetáculo permite que você delete momentaneamente o sujeito-centro que você é e intua que pode ser o outro do outro, o que me parece ser um dos fundamentos da alteridade. O outro é você.