CÓPIA FIEL de Kiarostami - 11

 

Os personagens femininos demoram para chegar ao primeiro plano na  obra de Abbas Kiarostami. O primeiro foi Mãnia em DEZ.

Em CÓPIA FIEL, Juliette Binoche interpreta o personagem central e é, como diz Rubens Rewald, a luz do filme. Mas podemos nos perguntar se a problemática (uma das) do filme está com a mulher ou com o homem.

Elementos de resposta (como adoram dizer os âncoras de jornais da TV 5 Monde) com o ultimo plano do filme. É  o desfecho da cena  em que o casal visita o que teria sido o quarto da sua noite de núpcias há quinze anos.

William Shimell está em primeiro plano num enquadramento fechado, voltado para a câmera como se esta (ou nós, a sala, os espectadores, como diz Heloisa Jahn) fosse um espelho. Atrás, uma pequena janela abre para a paisagem toscana.

Onde William Shimell está? Provavelmente no banheiro da suíte nupcial. O que ele está fazendo? Se acreditarmos na sua imobilidade e no ruído aquático da trilha sonora, está urinando. O filme se encerra com um plano cruel e irônico: o homem, na câmara nupcial, usa seu órgão para urinar.

Esse plano final, não muito elogioso para a masculinidade do herói, é simétrico (mesma composição) a um plano anterior em que Juliette Binoche se maquia. Ela comentará esta ação mais tarde no diálogo: ela se embeleza para ele.

Colocando este díptico no centro do filme, chega-se a um dos seus temas e a ferocidade irônica de Kiarostami aniquila qualquer pretensão de masculinidade do persongem, a bom entendedor . . .