Viagem ao fim do mundo

 

 

Luis Abramo e Patrícia Morán trabalham sobre a obra do pai de Luis: Fernando Coni Campos. Me procuraram. Meu contato com FCC foi breve, se deu principalmente durante a filmagem de LADRÕES DE CINEMA. Pedi que, antes do nosso encontro, me mandassem um DVD de VIAGEM AO FIM DO MUNDO, filme de FCC de que guardei uma excelente memória.

Hoje tenho certeza de que, quando vi o filme pela primeira vez, percebi que não havia nada semelhante no panorama cinematográfico brasileiro, que ele abria perspectivas em direção ao cinema-ensaio, à possibilidade de elaborar ensaios em filmes, que o pensamento no cinema não precisava se ater à ficção, que o pensamento no cinema podia recorrer à ficção entre outros instrumentos.

Quando revi o filme neste mês de  junho de 2011, fiquei petrificado: como era possível que eu não tivesse escrito sobre esse filme? Tentei recompor as circunstâncias da época:

- vi o filme pouco depois de sua realização, mas quando? 1968? Antes ou depois do AI 5?

- ainda escrevíamos Paulo Emilio Salles Gomes e eu no jornal A Gazeta, ou já tínhamos sido expulsos? N’A Gazeta publiquei 5 crônicas sobre Bressane. No júri do festival de Brasília de 1968 batalhei até O BANDIDO DA LUZ VERMELHA conseguir o prêmio. No jornal Opinião, escrevi sobre TRISTE TRÓPICO de Artur Omar, batalhei pelo filme. Eu batalhava pelos filmes que me pareciam renovadores. Por que não aconteceu com       VIAGEM?      Teria assistido a VIAGEM AO FIM antes do início de Opinião (novembro de 1972)? Teria assistido logo depois do AI 5, quando minha situação ficou particularmente difícil?

Não consigo reconstituir as circunstâncias mas um fato é certo: sobre esse filme eu não escrevi, e isso eu preciso entender, pois VIAGEM é exatamente o tipo de filmes pelos quais batalhei. Revendo-o, senti um enorme buraco na minha carreira de crítico por não ter escrito e por não ter participado da sua carreira.

Quando Luis e Patrícia chegaram, eu lhes disse que eu queria falar desse enorme buraco. Esse filme foi esquecido e eu contribui para isso, embora o tenha amado quando  o vi e tenha percebido nele um desabrochar futuro. Como é possível que o filme tenha caído no esquecimento? Como é possível que, quando dei um curso sobre cinema-ensaio em Porto Alegre, eu não o tenha incluído na programação? Não havia cópia? Então o citasse como um pioneiro do ensaio cinematográfico na filmografia brasileira.  Nem isso. Como explicar?

Sem dúvida as circunstâncias foram adversas. Mas eu teria encontrado um meio de fazer ecoar esse filme. Um temor me perturba, 43-44 anos depois: o motivo profundo pelo qual silenciei sobre VIAGEM AO FIM DO MUNDO. Silenciei não por causa das adversidades,  mas por causa da sua importante vertente religiosa. Não há outra explicação aceitável.

O pensamento inquieto de Simone Weil não me era de todo desconhecido. Nem a sua ida à fábrica. Nem o catolicismo operário. A fé angustiada e em dúvida, embora eu não fosse religioso, não me era totalmente estranha. Pascal era um dos autores do século XVII que eu mais tinha lido e com mais paixão. O poema de Aragon “Rien n’est jamais acquis à l’homme”, eu o sabia de cor.

Então por quê?

Por que eu era um crítico de esquerda, na militância contra a ditadura, num meio cinematográfico e intelectual em que a religião era o ópio do povo, o que afirmaram vários filmes dos anos 60, numa década em que não demos a devida atenção ao filme do Vaticano II (O PAGADOR DE PROMESSAS). A revirada religiosa do cinema brasileiro se daria nos anos 70 com IAÔ de Geraldo Sarno, O AMULETO DE OGUM de Nelson Pereira dos Santos e ANCHIETA JOSÉ DO BRASIL de Paulo César Saraceni.

Não vejo outro motivo consistente para ter relegado o filme ao esquecimento, ao meu esquecimento, senão a incapacidade em que eu estive de assimilar a sua angústia religiosa. E com isso ter ignorado toda a sua potencialidade estética. Pior do que isso: não ignorei, pois me lembro de ter percebido essa potencialidade, simplesmente a rejeitei e tranquei o filme a sete chaves por causa da sua religiosidade.

Revendo VIAGEM AO FIM DO MUNDO, percebi uma falha grave na minha carreira e me senti culpado. Hoje quero colaborar para a reabilitação do filme de FCC.