Hoje

 

 

Tata Amaral está finalizando HOJE, adaptação de PROVA CONTRÁRIA de Fernando Bonassi. Há quinze anos ela realizava UM CÉU DE ESTRELAS, adaptado de outro romance do mesmo autor. Os dois filmes são muito diferentes, mas há entre eles similitudes que vou tentar apontar sem tirar nenhuma conclusão.

A estrutura dramática se apóia sobre o projeto do personagem principal que é uma mulher: em CÉU Dalva quer realizar um curso em Miami; em HOJE Vera quer tomar posse de seu novo apartamento. Nos dois filmes um homem ligado ao passado vem atravancar o desenvolvimento do projeto. A diferença é que CÉU “acaba mal” e HOJE “acaba bem”.

Os dois enredos se desenvolvem em ambiente fechado (huis-clos), casa ou apartamento. É o lugar dessas mulheres. CÉU inicia com Dalva já dentro da casa, enquanto em HOJE a câmera recebe Vera que está entrando.

O espelho marca a relação desses personagens com o seu espaço: a primeira aparição do rosto de Dalva é o seu reflexo num espelho; em HOJE um dos primeiros planos mais importantes na seqüência de abertura é o reflexo de Vera num espelho.

 Esse espaço é invadido por um homem, gerando uma tensão insustentável. Em busca de algum alívio, elas escapam por um momento, Dalva no quintal da casa e Vera numa praça arborizada. Depois dessa breve pausa, elas retornam à tensão interna. Essa aproxinação me parece válida embora a motivação dos personagens seja diferente nos dois filmes.

Passar água no rosto é outra maneira de aliviar a tensão.

Outro recurso consiste em preparar um café para os homens. Parece que Tata considera a cena de HOJE uma autocitação. Embora diferentes, as cenas têm pontos em comuns: a mulher faz café sob o olhar sardônico do homem.

Neste ambiente fechado, janelas são importantes. Dalva e Vera olham para fora, e nos dois filmes a refração (?) do vidro e o movimento da câmera fazem ondular a paisagem urbana.

Janelas e portas. Embora de forma diferente, por um momento o homem é dono da porta nos dois filmes. Não dou maiores informações sobre HOJE. Em CÉU Victor tranca a porta e surrupia as chaves. Dalva tenta lhe arrancar o chaveiro da mão, mas ele se esquiva rapidamente e ela não consegue. Essa mesma gestualidade se repete em HOJE quando Vera tenta arrancar um objeto das mãos de Luis.

O homem considera ameaçador o possível contato da mulher com o exterior: nos dois filmes há um plano em que ele a segura por trás, pressionando violentamente as costas dela contra seu peito. Num dos filmes ele a imobiliza com uma chave de pescoço, e no outro lhe tapa a boca com a mão.

Intrusos podem penetrar ou tentar penetrar no espaço, uma vizinha que traz um bolo em CÉU, a síndica em HOJE. Essas pequenas intervenções são consideradas inoportunas pelos personagens, embora de forma diversa nos dois filmes.

As mulheres rejeitam os homens e querem expulsá-los, mas ao mesmo tempo sentem por eles forte atração erótica. Essa contradição é essencial na construção dos personagens femeninos. Quando elas insinuam um carinho amoroso, elas são rejeitadas: “chega dessa bobagem” diz o homem num dos filmes, e “Não é hora de desbunde” no outro.

As relações sexuais se desenvolvem de forma bem diferente nos dois filmes, mas sempre violentas e pouco amorosas.

O cúmulo da invasão masculina é a ocupação da cama da mulher. Embora as situações dramáticas sejam diferentes, essa ocupação ocorre nos dois filmes, e sempre numa grande desordem de roupas que vão sendo guardadas atabalhoadamente.

Esses homens pretendem conhecer essas mulheres: “Não te conheço eu?” diz Luis a Vera, e Vitor a Dalva: “Te conheço aqui” diz ele apontando a palma da mão.

A versão de UM CÉU DE ESTRELAS de que disponho acaba na cozinha, portanto dentro do espaço fechado. Mas existe outra em que Dalva sai da casa, agasalhada com um cobertor e protegida pela polícia. É um plano noturno em que ela está definitivamente derrotada. O final de HOJE é luminoso e Vera sai para a rua vitoriosa.

Provavelmente a mais surpreendente e enigmática relação entre os dois filmes: em UM CÉU DE ESTRELAS Dalva e Vitor se enfrentam numa espécie de duelo em que ele a ameaça com revolver e ela encosta uma faca na bochecha esquerda dele.  Em HOJE a bochecha esquerda de Luis aparecerá ferida e sangrando. Tudo indica haver uma intensa conexão entre esses dois planos distantes de quinze anos, como se o segundo desse continuidade e aprofundasse o primeiro.

E para fechar com chave de ouro: em UM CÉU DE ESTRELAS, Dalva pergunta: “Por que justo hoje, meu deus?”