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Blog de Jean Claude Bernardet

29/08/2011

Cópia Fiel de Kiarostami - 14

 

 

Que VIAGGIO IN ITALIA de Rossellini  tinha tido impacto sobre Kiarostami, se sabia há tempo. Aludi a esse filme em CAMINHOS DE KIAROSTAMI, bem antes da realização de CÓPIA FIEL.

Grandes temas do filme italiano ecoam no de Kiarostami, o carro, o desgaste do casal. Outros não: a vida e a morte, a procriação, a imanência de Deus. Temas importantes de CÓPIA FIEL não se encontram no de Rossellini, como a própria idéia de cópia, ou do filho opressor que provém de TEN.

Eu gostaria de sair dessas grandes estradas e perceber diálogos mais discretos.

Por exemplo, os planos de janela quando Ingrid Bergman e George Sanders visitam a casa podem ter sido uma motivação para a cena das janelas no albergue em que Juliette Binoche e William Shinell passaram sua noite nupcial. Os planos de janela, tanto os internos como o externo, são simplesmente descritivos em VIAGGIO mas  podem estar na origem de uma cena de tensão no outro filme.

 Ingrid Bergman solitária jogando paciência na cama dialoga com Juliette Binoche deitada só na cama do quarto nupcial. Outros planos estão provavelmente na mesma situação.

Em vez de partir de planos de VIAGGIO, que seria o filme matriz, para chegar ao filme posterior, podemos inverter o caminho.

Binoche se maquila ou melhor borra os lábios com batom acintosamente vermelho em plano frontal. Esse plano pode nos remeter  àquele  em que Bergman passa  batom .

O plano a apresenta de perfil e cumpre sua função de caracterizar a personagem e fazer evoluir a narração;  é interpretado por uma atriz competente e filmado por um diretor amoroso. Mas não passa de um plano  no fundo banal no contexto do cinema europeu dos anos 1950. Mas se o vemos iluminado pelo plano de CÓPIA e o gesto quase caricatural de Binoche, o plano de Bergman surge como um modelo de discrição, delicadeza, elegância. O plano é belíssimo. É o plano do filme posterior que valoriza o do filme anterior. Neste sentido Kiarostami cria ou recria o filme de Rossellini.

Quero ressaltar outro diálogo possível: Ingrid Bergman era alta (1,75 – muito para a época) e por isso não usava saltos, pelo menos nos filmes. Esta pode ter sido a origem dos altíssimos saltos de Binoche no CÓPIA e da cena em que ela não aguenta mais andar e se descalça.. Aludir à altura de Bergman parece bobagem, mas institui entre os dois filmes uma relação lúdica e irônica, mais estimulante que a relação um tanto manjada sobre o desgaste do casal.

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h53
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