O Roteirista

É possível fazer um filme de entrevistas – talking –  heads  - inteligente.

A prova é O ROTEIRISTA de Lucas Paraizo.

Opções claras foram feitas:

- trata-se de um roteirista que escreve histórias e se preocupa com personagens (não é um roteirista de dispositivo).

- o fundo escolhido para quase todos os entrevistados são prédios do outro lado da rua (as caixinhas onde moram os personagens e suas histórias).

 - relativa homogeneidade de enquadramento dos falantes.

-   desvincular os roteiristas de filmes, diretores e produtores, graças a uma minuciosa seleção de falas. Disso resultou uma massa de falas bastante genéricas, distantes das circunstâncias. É essa fala que será montada, a montagem é regida pela palavra (e com muita fluência). Essa montagem leva a um inesperado resultado: surge um novo personagem produzido pela montagem do conjunto das falas, um  personagem  coletivo que justifica o singular do título (uns 40 roteiristas foram filmados). Estes entrevistados acabaram ficando numa espécie de segundo plano, pois se tornaram matéria prima para a construção do personagem coletivo.

- o sistema que desvincula o roteirista de filmes é quebrado apenas uma vez: o que valoriza a ruptura e reforça o sistema. Essa quebra é irônica: trata-se de uma cena de OS MATADORES, sendo que os dois roteiristas estão de acordo sobre o fato de que essa cena não é deles mas do ator Chico Diaz.

Outros momentos irônicos arejam esse filme brilhante.