Djalioh

 

O filme de Ricardo Miranda será apresentado na próxima Mostra do Filme Livre em São Paulo. É a adaptação de um conto escrito por Flaubert aos 16 anos.

Por adaptação, costuma-se entender uma transposição da trama da obra literária. Então DJALIOH não é uma adaptação. Pode-se dizer que o filme cria um espaço cinematográfico para instalar o texto narrativo ou, em outras palavras, trata-se de encenar o texto. O trabalho de Ricardo Miranda tem a ver com o teatro narrativo de Aderbal Freire Júnior, que culminou com o PÚLCARO BÚLGARO.

O conto de Flaubert trabalha uma variante do tema da Bela e a Fera. No filme a Bela é desdobrada por duas atrizes (lembrar ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO de Buñuel, LADRÕES DE CINEMA de Fernando Coni Campos).

Leva um tempo para o espectador começar a penetrar no filme mas, uma vez essa etapa superada, há momentos em que conseguimos nos distanciar dos narradores (as duas atrizes, o ator que figura Djalioh e o cientista louco, a voz off) e intuimos a preseça da narração na tela.

Um desses momentos ocorre (para mim) na altura da dança e da lareira, uma narradora se refere a um vestido branco visto por Djalioh, o vestido passa pelo campo mas o olhar da narradora não se conecta com ele. A presença desses elementos em campo mas uma certa desarticulação espacial fazem aflorar a narração.

Outro momento, quase no final, se dá num jogo de três planos, o primeiro com voz off e uso da primeira pessoa do singular; o segundo com uma das narradoras que usa a terceira pessoa mas se refere à personagem que ela figura. No terceiro plano a segunda narradora dá prosseguimento à narração, mas seu olhar abaixado sugere um ato de leitura. A narração se torna personagem. Belíssimo momento que vale o filme. Ao apresentar o filme no festival de Tiradentes, Ricardo Miranda pediu paciência. É isso, ser paciente com a obra, ela irá se desvendando.