Boltanski, os Imigrantes

 

Entro no espaço. Selva de pedra de papelão. Opressivo, um pouco. Vozerio. Vozes da cidade. Reconheço um sentimento que tive da minha janela do 30º do Copan: um mar de prédios e as vozes da cidade sem rosto. Eu sei que uma dessas vozes é a minha. Não conseguirei encontrar minha voz no meio desse formigueiro. Anonimato. Minha voz é anônima. Eu sou anônimo. Estar perdido no meio do vozerio é quase mágico.

 

Caminho sinuosamente em busca de minha voz, eu sei que é em vão. Cruzo com a voz de um americano. Ele diz o que eu poderia ter dito, que São Paulo é acolhedora para os imigrantes. Concordo com ele, simpatizo com ele.

Meu amigo está parado perto de um prédio, me aproximo, reconheço a minha voz. Ele a achou. Identificada e localizada a minha voz, perco o anonimato e a exposição perde a magia.

Afasto-me. A magia vai se reorganizando em volta de mim. Deparo-me com uma uruguaia, veio a SP para viver com o marido que trabalha com cinema. Ela fala de um horizonte infinito de prédios, o que a assustou na chegada. Com outras palavras é o que falou minha mãe quando chegamos a SP e ela viu a cidade do alto do Hotel São Paulo: “Essa cidade me dá medo”. A vivência da uruguaia não é só dela, é também minha. A do americano também é minha. Esse vozerio é um coro, conta as histórias de todos os imigrantes, a experiência que achamos que é de cada um é a experiência de todos, só a maneira de dizer é pessoal, somos coletivos.

Continuo meu percurso urbano. Uma voz masculina, ele fazia com freqüência a viagem Montevideo / SP ida e volta e acabou se fixando em SP porque, como cineasta, aqui encontrava mais trabalho. Só pode ser o marido da uruguaia assustada. A impressão de que cada voz era solitária se matiza. Nesse panorama de solidão, há contatos, há ligações, há redes. Como percebi? Caminhando ao acaso entre os prédios de papelão. Por acaso.

 

[Exposição de Christian Boltanski, 19 924 458 +/– , SESC Pompeia]