Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

08/10/2014

Sem pena - 3


 



Assim como os presos, os juristas e cientistas sociais entrevistados não são vistos. Mas o efeito é diferente, não se cria um personagem coletivo. Essas vozes off despersonalizadas constroem a imagem de uma instituição: sistema carceral / sistema judiciário.

Trabalhar a instituição é raro no cinema brasileiro. O americano Frederick Wiseman ou o francês Raymond Depardon são mestres no assunto. No Brasil a ideia de trabalhar uma instituição em si talvez só no Justiça de Maria Augusta Ramos.

Sem pena desloca a discussão: ele mostra que os sistemas carcerário e judicial são ruins. Mas acredito que ele não diz que se melhorarem vai ficar tudo bem, alguma coisa do tipo: precisa reformar a instituição. Graças a uma série de pequenas informações, como “polícia joguete nas mãos de políticos” ou “encarcerar a pobreza”, fica claro que o problema não é a má qualidade desses sistemas, mas que eles são mecanismos estruturais de opressão social.

Todo esse discurso é embasado numa construção visual que ritma o filme: a reiteração dos corredores. A câmera mostra ou penetra no corredor: a repetição dessa forma conectam os dois universos, carceral e judicial. Forma corredor nas cadeias (beco, galeria de presídio feminino). Forma corredor no arquivo. Forma corredor nos palácios dos tribunais. Inicialmente o espectador não percebe a forma; é a repetição que a constrói. À medida que ela se constrói, associada aos discursos sem rosto, vai se formando a ideia de instituição. Sem pena é um belíssimo trabalho ensaístico.

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h25
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07/10/2014

Sem pena - 2

 
Já se comentou que os entrevistados de Sem pena não aparecem. É sem dúvida um esforço bem sucedido para escapar ao modelo desgastado das “cabeças falantes”. Mas o filme vai mais longe.

Há vários planos nas cadeias e arredores em que as cabeças são cortadas. Para preservar a identidade, as pessoas são filmadas do pescoço para baixo. Ou em plano aberto que não permita a identificação. Ou em plano desfocado. Ou em primeiro plano de costas (presídio feminino). Duas exceções: portas de cela em que presos se amontoam de frente e em foco.

Esses procedimentos, que desvinculam a cena ou a fala de um rosto, de uma expressão, de uma entonação, provocam um efeito de despersonalização fundamental para o filme. Ele gera o que podemos chamar de personagem coletivo. Contribui também para a construção desse personagem o depoimento de uma presa montado com planos de um arquivo com uma imensidão de caixas anônimas (tipo arquivo morto) cada uma remetendo a um preso ou processado.

O filme não trata deste ou daquele caso mas do conjunto dos presos e das presas.

Assim, quando, talvez já no último terço do filme, aparece o primeiro plano de um indivíduo, o espectador leva um choque: um juiz.

Antes do plano-choque há algumas digressões. O depoimento de um jurista oculto é acompanhado por bustos de bronze de autoridades judiciárias: enquanto o falante não é visto, as cabeças (do pescoço para cima) ficam mudas. Os bustos surgem depois desse longo processo de despersonalização: bela ironia. Esses bustos solenes e oficiais são o eco invertido de outras cabeças que apareceram anteriormente: o primeiro depoimento de um preso é acompanhado por pinturas em estilo digamos expressionista de rostos aterrorizados. E devemos acrescentar as duas portas de cela em que as pessoas não são individualizadas.

Na cena de audiência que abre com o plano-choque, a câmera se mantem próxima das pessoas envolvidas na situação, só o rosto da inculpada é ocultado. Essa sequência seria banal num filme de entrevistas ou de estilo observacional, forma comum do documentário atual. Aqui ela ganha uma força impressionante por ser o contraponto do processo de despersonalização que organizou o filme até então. Ela funciona como catálise.

Com a despersonalização / catálise , Sem pena contribui para a renovação da linguagem do documentário paulista.


 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h27
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