Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

10/11/2014

Cristiano Burlan: entre Hamlet e a Elegia

 
 

 

Entrevista realizada no Copan dia 15.10.2014        

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JC – Do quê você quer falar?

CB – Não tô muito a fim de falar hoje, dormi mal, vim pensando nas perguntas que você ia fazer.

JC – Que perguntas você acha que vou fazer?

CB – Coisas relacionadas ao cinema e depois perguntas pessoais bem constrangedoras, que vão me tirar do eixo.

JC – Em conversa pessoal você disse que nas entrevistas anteriores não tinha dito tudo. O que é ‘tudo’? Primeira pergunta constrangedora.

CB – Passamos por situações que a memória não pode resgatar, que são inexprimíveis. Vi coisas que se eu tentasse te verbalizar, se usasse a pintura, a poesia ou o próprio cinema, eu nunca conseguiria atingir a dimensão dessas questões. São tão traumáticas. Não sei se é incapacidade minha de lidar com as coisas. Você não consegue colocar a vida dentro do filme, mesmo num documentário. As coisas no filme são ínfimas perto do real, do cotidiano. – Antes eu queria te perguntar: por que você me entrevista? Por que minhas tragédias familiares te interessam? Eu não sou uma pessoa interessante, você conhece muita gente interessante para conversar.

JC – Eu não penso sobre você a mesma coisa que você pensa sobre você. Aliás, eu não sei bem o que você pensa sobre você. Eu não penso sobre você o que você pensa que eu penso sobre você. Além do mais, eu não tenho que justificar, eu te convido, você aceita ou recusa. Por que você não é uma pessoa interessante?

CB – O cinema nos deixa um tanto cínico, tenho tentado ficar atento em relação a isso. O meio do cinema é um pouco venenoso. Tenho me entediado bastante, tenho pensado em não fazer mais filmes.

JC – Você pode fazer filmes sem frequentar pré-estreias, reuniões de associações profissionais etc. Não tem nada a ver você achar as pessoas cínicas e deixar de produzir, você teria outros motivos.

CB – Pode ser.

JC – Quais?

CB – Essa grande distância entre a ideia, a sensação forte que você tem, a energia que você gasta para realizar a ideia, e depois uma impressão de fracasso. Quando você percebe que o que queria expressar não chega às pessoas.

JC – Em todos os teus filmes?

CB – Todos.

JC – Inclusive o Mataram?

CB – Inclusive, num grau ainda maior. Não tem nada a ver com aceitação, prêmios ou indiferença. Tem a ver com o que te falei: não ter contado tudo, é essa relação externo / interno. O que nós somos realmente e o que tentamos parecer e o que percebemos que as pessoas não percebem. Essa distância, conteúdo e forma, entre público e privado, eu acabo sofrendo muito.

JC – Quando vi Mataram, fiquei muito emocionado, mas minha emoção não é a tua.

CB –Fui contemplado num edital do Ministério da Cultura para um BO  de documentário.

JC – Para?

CB – Para um filme que encerra a trilogia. Eu a chamo carinhosamente de Trilogia do Luto. Ela se iniciou em 2007 com um documentário sobre meu pai, depois Mataram meu irmão, e agora sobre o assassinato da minha mãe.

JC – O titulo?

CB – Elegia de um crime. O pressuposto do filme é que vou atrás do assassino da minha mãe. Foi brutalmente assassinada pelo namorado em 2012. Ele tá foragido até hoje.

JC – Você sabe onde ele está?

CB – Eu tenho uma ideia. Fiz uma pesquisa sobre o ocorrido. Eu nunca me coloquei numa situação tão perigosa. Dessa vez é como se eu estivesse olhando para o abismo. Fico me questionando, por que fazer esse filme?

JC – Encontrou uma resposta?

CB – Não! Tem uma força grande dentro de mim me levando a realiza-lo. Paguei um preço alto por ter feito o Mataram, mas esse é um caminho sem volta, tenho certeza absoluta.

JC – ‘Sem volta’ quer dizer o quê?

CB – Porque tô entrando num lugar donde não tenho como voltar.

JC – Você acha que elevai te matar?

CB – Não. Não tenho medo da morte, tenho mais medo da vida, medo de me relacionar, medo de fazer um filme pelo qual ninguém se interesse. Da morte não, até porque já tive contato com ela várias vezes. Quando você decide enfrentar seus demônios, cê não volta da mesma maneira, nem sei se volta, é um caminho só de ida. É tão assombroso o que vou te falar agora. Eu tava no velório com uma amiga que tinha esses celulares modernos que filmam, você acredita que me passou pela cabeça o desejo de filmar minha mãe morta? Eu não filmei, até hoje me lembro que eu tive esse desejo, me assombra até hoje. Por isso tô em crise, se realmente eu quero continuar a fazer filmes.

JC – Você lastima não ter filmado?

CB – Lastimo ter pensado em filmar.

JC – Por quê?

CB – Convencionalmente eu deveria tar vivendo o luto ali, mas tive vontade de registrar a imagem dela morta. É como se instintivamente eu já percebesse que ia acontecer o que aconteceu com meu irmão. Um dos motivos por que realizei o filme, eu precisava corporificar, precisava de uma imagem. O corpo é inteligente, você passa por uma tragédia, a morte de um ente querido, é como se o corpo apagasse essa memória. Eu não me lembro do rosto da minha mãe. Mesmo olhando fotos, é como se eu não a reconhecesse. Mas eu tenho imagem dela morta.

JC – Você tem?

CB – Quando minha mãe morreu, ela morava na periferia de Uberlândia, um desses programas popularescos do final da tarde, uma repórter foi até lá falar sobre o assassinato e filmaram o corpo da minha mãe. É uma imagem apavorante, tá na internet até hoje. Me assombra desde 2012. Me lembro de uma pintura, de um livro, não sei, O homem que ri de Victor Hugo. A imagem desse quadro tá no meio do livro, cortada na boca, é uma imagem apavorante.

JC – Cê fica olhando essa imagem?

CB – Não olho, mas está guardada no computador.

JC – Cê imprimiu?

CB – Não. É uma reportagem sobre o assassinato, eles filmaram minha mãe morta no lugar onde ela foi encontrada, na casa dela. É uma imagem que me apavora. Minha crise tem a ver com essa produção de imagens, independentemente de serem pessoais ou de outros. – Esse ano eu recebi uma proposta  para trabalhar para um pool de TVs públicas na Europa. Eu filmaria zonas de conflito.

JC – Na Europa?

CB – Residiria na Europa mas viveria em zonas de conflito, como a Faixa de Gaza, a Síria, faria documentários curtos para TV. Iria sozinho, um computador e uma câmera, é uma proposta interessante. Por que eu recusei? Não foi por medo da morte, de filmar num campo de batalha e cair uma bomba. Vi uma reportagem sobre a fotografia da menina que tava morrendo de fome, chegou um urubu perto dela e ele continuou a fotografar. Eu me lembro de uma fotografia de Capa na Espanha, a bala que entra na cabeça... Minha pergunta é: se alguém leva um tiro, o que eu faço? Continuo filmando ou socorro essa pessoa? Por mais que eu seja uma pessoa aparentemente do bem que se interessa pelo outro, eu não tive essa resposta. Aí me lembro do momento em que tive vontade de filmar minha mãe. Será que sou inescrupuloso, que me interesso mais pela produção dessas imagens? Não sei lidar com essa contradição, mas vou fazer o filme.

JC – Vai usar o material da TV?

CB – Não sei. Não sei sobre o que é o filme. Eu escrevi para o edital, acho que tá bem escrito porque vão me dar o dinheiro, pela primeira vez. É muito dinheiro para um documentário, R$ 450.000. Em contrapartida eu tenho que entrar com R$ 90.000, ou seja, eu vou gastar R$ 350.000,00 para fazer um documentário. Pela primeira vez vou pagar meus parceiros, que sempre trabalharam de graça. Como também um milhão é muito dinheiro para uma ficção BO, que você faz num apartamento. Esses valores são inflacionados. Não sei se vou usar a imagem. Posso estar falando tudo isso para parecer uma pessoa legal, em crise, e no fundo ter certeza que vou colocá-la no filme.

JC – Cê tem certeza que vai?

CB – Não, não tenho, tenho muitas dúvidas.

JC – Que dúvidas?

CB –Primeiro uma exposição muito grande, mas é um contrassenso dizer isso, porque se eu faço o terceiro filme de uma pessoa da minha família morta de maneira trágica, já tô exposto. A outra, talvez a principal, é a relação entre ética e estética. Não vou levar para o campo pessoal, não vou fazer terapia, então não tô me expondo tanto assim. O que me afeta profundamente é a gente lidar sozinho. Nascemos, vivemos e morremos sozinho, quanto mais cedo descobrimos isso, menos se sofre. Mas não fui eu que produzi essas imagens. Como no filme do meu irmão, as fotos dele morto são dos  autos do processo. Não fui até o corpo da minha mãe, não filmei ela morta ali na cena do crime, são imagens de outros. Isso me traz uma reflexão sombria sobre o ato de se fazer filmes.

JC – Que relação você vê entre essa reportagem sensacionalista sem vínculo pessoal com o fato, e o teu desejo de filmar a mãe no velório? A imagem da mãe morta existe, você a negou e a TV a produziu. Ausência de imagem pessoal e presença de imagem industrial?

 

CB – O desejo de filmar minha mãe no velório foi porque eu queria guardar aquele momento, guardar ela para mim. Como aconteceu com meu irmão, eu tinha certeza que ia se tornar uma imagem obscura, eu não a reconheceria. Queria guardar para mim o último registro dela. É diferente do filme que vou fazer agora, não sei ainda o que é. A imagem da TV é o registro da brutalidade. É o lugar do público e de como esse público é tratado. No Mataram, um personagem diz que quando aparece na TV uma pessoa assassinado, é só uma imagem explorada, como acontece todo dia. Para quem tá dentro da situação é um retrato que te acompanha, te assombra, é num lugar pessoal. Não tô dizendo que, por eu realizar as imagens, tenho mais competência para isso, não! É minha mãe, mas também a imagem de uma pessoa assassinada. Sempre comparam Mataram meu irmão com Elena de Petra Costa. Vários repórteres acharam meio parecido. Não! Não é nada parecido! Meu irmão foi assassinado no Capão Redondo por uma quadrilha comandada por Policiais Militares do Governo do Estado de São Paulo, comandado pelo nosso grande governador, agora reeleito, Geraldo Alckmin, com 7 tiros pelas costas – e a irmã dela se matou em NY, é diferente! No fundo é a mesma coisa, dois irmãos fizeram filmes sobre irmãos que morreram, se é melhor ou pior, se é mais ético ou menos ético, não tenho capacidade de julgar. Acaba caindo no mesmo lugar comum, pessoas usam situações pessoais para falar de coisas, a questão é se essas coisas se tornam universais ou não, se eu saio do meu privado e atinjo o público, eu não sei se isso aconteceu no filme. – Acabo de ver um filme de que você falou bem, eu fui disposto a não gostar, odiei o trailer.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h23
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Cristiano Burlan: entre Hamlet e a Elegia

 
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JC – Qual?

CB – Sem pena. Saí tão abalado, questionando meu próprio desejo de fazer meu filme ou filmes estetizados com historinha, quando existem questões bem mais urgentes. O cinema acaba ficando num último plano.

JC – O rosto de sua mãe morta no velório, você disse que ela foi ferida na boca.

CB – Na boca. Ela foi enforcada pelo namorado, tem uma marca no pescoço, mas a boca dela tá ensanguentada, tá tudo roxo, parece que cortaram... [* ilustração]

JC – No caixão o rosto tava exposto?

CB – Tava, mas ela estava plácida! Serena.

JC – E o ferimento da boca?

CB – Tinha maquiagem, esconderam um pouco o pescoço. Quando eu tinha 15 anos, o meu amigo Tiago, que dá um depoimento forte no Mataram, me emprestou um livro intitulado Meus lugares escuros do James Ellroy. Sempre fui fã da literatura noir, Dashiell Hammett, Elmore Leonard , muito por causa do cinema. O Falcão Maltês eu li porque vi o filme primeiro. Ellroy adaptou um livro seu, Dália Negra, para o cinema, um dos crimes mais célebres dos Estados Unidos, faz parte do inconsciente coletivo americano. Em Meus lugares escuros, Ellroy faz um paralelo entre o assassinato da própria mãe e o crime da Dália Negra, dois crimes nunca elucidados, os assassinos nunca foram encontrados. A mãe do Ellroy foi assassinada como a Dália Negra. Eu fiquei impactado pelo livro e mal sabia que minha história ia ser parecida.

JC – Quando você leu Dália Negra?

CB – Eu li depois. Li primeiro esse que é a busca dele pelo assassino da mãe, 40 anos mais tarde. Depois eu fui ler o Dália Negra. Foi adaptado por Brian de Palma, com um plano sequência de abertura...

JC – Esse primeiro livro, você leu quando?

CB – Eu tinha15 ou 16 anos.

JC – Portanto, tua mãe tava viva.

CB – Tava viva. – Você voltou a ler esse livro recentemente?

CB – Já li umas 5 vezes, tá na minha cabeceira, como todos os outros livros que eu encontro com titulo de Mãe. Agora descobri que Barthes tem um livro sobre o luto da sua mãe, ainda não encontrei.

JC – Você acha que é o caso de voltar a Hamlet?

CB – Sim.

JC – Hamlet tem a ver com Elegia de um crime. Agora que foi projetado publicamente, qual a tua relação com o filme?

CB – Tenho duas possibilidades de analisar esse filme: uma como filme realizado por mim e minha turma, junto com você. É a mais sombria. Não sei se foi você ou fomos nós: durante a filmagem, percebi que eu voltava a questões pessoais, assassinato, tragédia familiar. Me assustei quando tive essa consciência. Antes não me dei conta, até falamos sobre isso.

JC – Foi.

CB – Foram só palavras, eu só tive a dimensão disso quando filmei cenas de assassinato. Eu não sei filmar um ser humano matando outro, tentei várias vezes e parece que eu filmo de forma convencional, eu tento filmar de maneira errada até, quase uma alegoria do que seria a morte. A cena do assassinato no Hamlet é até meio boba, mas tinha que ser assim. Coloquei em seguida uma cena real encontrada na internet em que um filho assassina o pai na Turquia. Agora cê quer fazer perguntas pelo viés do cinema?

JC – Não. O filme já pertence a teu passado?

CB – Minha sensação, já te falei em relação ao Amador, é que de novo cheguei até a arrebentação mas não passei dela.

JC – Da onda?

CB – Da onda. Não consigo ver o outro lado, talvez por falta de rigor. Depois do Mataram, eu precisava fazer filmes, precisava me esquecer. Amador fala de questões desenvolvidas com a turma. Hamlet volta às questões trágicas. Eu tô sempre falando de mim, esse meu falacentrismo [sic] me cansa.

JC – Cansa?

CB – Eu não me aguento mais. Por isso procuro novos parceiros, principalmente roteiristas. Quero falar de coisas de que não sei nada. Não vou te dizer que tenho a sensação de fracasso no Hamlet, seria injusto com meus parceiros. Eu acho o filme irregular como todos os que eu fiz. Tem cenas de que eu gosto, são até muito fortes para mim, sinto uma evolução no domínio da linguagem. Outras cenas são ruins. Não é um problema de montagem, eu fiz o máximo, não se resolve um filme na montagem. Se existe um erro, não é uma questão de erro, foi na concepção da ideia, não na montagem. Eu poderia ter feito outra montagem, seria uma maquiagem, molestaria o filme muito mais. É cruel você ter que assumir que fracassou, cê não foi até onde poderia.

JC – Até onde?

CB – Um filme mais interessante em termos de discurso, trazer o filme mais perto da vida. Quando se filma uma cena, percebe-se naquele momento o quanto tá próximo do fluxo contínuo da vida e quando é só mais um enredo.

JC – Hamlet tem os dois tipos de cena?

CB – Tem.

JC – Qual é a cena mais distante e outra mais próxima da vida?

CB – São as cenas onde me prendo ao texto, às questões shakspearianas. Talvez eu não tenha tido habilidade para esse embate. Tenho certeza absoluta, me faltou maturidade. Eu fui pretensioso, mas eu desde moleque tenho esse ímpeto. Essas grandes obras devem ser destruídas, mas ao mesmo tempo em que você destrói uma obra dessas, ela te destrói. Não se passa impune por elas. Mas eu não tô frustrado com o filme, foi uma experiência enriquecedora para todos os que participaram e eu fiz o filme. Muita gente diz que vai fazer, eu tô fazendo, pago um preço por fazer esses filmes. Eu não queria falar de cenas especificas.

JC – Tá bom.

CB – Eu queria te perguntar, você se sente frustrado com o filme?

JC – Não. Eu já te falei, acho a montagem desequilibrada, você acha que o problema não é esse. Eu queria te perguntar sobre o pós-Hamlet...

CB – Não é que não tem problema de montagem, é que uma remontagem não salvaria o filme, não o levaria a outro lugar.

JC – Você vê relação entre o Hamlet tal como foi montado e a Elegia de um crime?

CB –São matérias completamente distintas, também a maneira como me debruço sobre elas é diferente. Amador e Hamlet não têm rigor. O filme da minha mãe só pode ser austero e rigoroso, não vejo outra possibilidade.

JC – Te perguntei se você via relação...

CB – Não vejo relação.

JC – Por que eu te faço essa pergunta?

CB – Porque você é um ser humano extremamente emocional e profundamente analítico e cerebral, isso deve ser uma contradição para você.

JC – Não.

CB – Cê tá vendo por um viés psicanalítico. Eu não consigo ter tanto distanciamento. Eu te pergunto: você acha que tem?

JC – Eu acho

CB – Qual?

JC –Os dois filmes estão visceralmente ligados. Me surpreende em Hamlet tal com foi montado (não conheço o material bruto) o tratamento dado à rainha. Foi reduzida a um personagem bem secundário. O rei tem mais destaque. E há a surpreendente eliminação da morte da mãe, nem sei se você a filmou. A ausência dessa morte parece ligada a você. Também foi eliminada a morte de Polônio, não sei se você a filmou. É a cena mais incestuosa da peça. Em todas as versões modernas, Hamlet beija a rainha na boca na presença do fantasma, que é o pai. Talvez fosse usual no século 16, mas o beijo consta inclusive das versões com trajes contemporâneos.

 

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h21
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Cristiano Burlan: entre Hamlet e a Elegia

3/3

 

CB – Filmei a morte de Polônio e o beijo. A morte da rainha não filmei.([i])

JC – Se você filma e elimina o beijo, e não filma a morte, você não vê alguma relação com Elegia?

CB – Você falando, agora eu percebo. Eu não tinha consciência, não foi uma coisa pensada.

JC – Pode não verbalizar e pensar com o corpo. O quê essa conversa desperta em você?

CB – Mais uma reflexão sombria. Talvez seja uma defesa minha, não querer filmar a morte da mãe.

JC – Talvez você não quisesse filmar a morte dessa mãe.

CB – Mas vou filmar a morte da minha mãe agora.

JC – A eliminação da morte da mãe cria uma ausência no filme. Pode se pensar que você não quis abordar o assunto. Ou que esse assunto só pode ser abordado com tua própria mãe. Seria um sacrilégio filmar a morte de outra mãe. Estou a fazer psicanálise barata.

CB – Vou pensar, eu não conseguiria responder agora. Essas perguntas são pessoais e eu vejo até uma certa crueldade,  que é natural do ser human. Mas isso não me afeta. Isso de alguma maneira te leva para algum lugar, você também teve uma mãe que faleceu? Cê cria uma relação com isso?

JC – O problema com minha mãe foi a separação. Não sei responder.

CB – Eu tenho cada vez mais a sensação que o cinema  talvez não seja o lugar para essas coisas. Não se encerra ali, estamos em constante movimento.

JC – Não se encerra?

CB – O filme não é uma definição sobre essas coisas, é só uma passagem.

JC – Mas ele modifica.

CB – Se não modificasse eu seria uma pedra.

JC – Modifica?

CB – Eu era uma pessoa antes do Mataram e me transformei em outra.

JC – Que outra pessoa?

CB – Principalmente na minha relação com a morte. Eu a sinto cada dia mais presente, isso me traz serenidade, segurança, mas me torna uma pessoa perigosa. Quanto menos medo da morte você tem, menos freios sociais você tem. Também desperta uma paixão pela vida, parece filosofia barata, cê sente que talvez seja a ultima vez, então você se dedica mais às coisas, aos amigos, aos amores. É como se reapaixonar pela vida. Mais alguma pergunta?

JC –Hamlet é você?

CB – Sim, também sou Édipo, também Dom Quixote. Fazer filmes é meio quixotesco. – Deixa eu te perguntar uma coisa. Eu sinto que este momento seu de ator lhe trouxe um grande sopro de vida. Cuidado, dica de uma pessoa  que já foi ator, é muito venenosa a vaidade do ator. Que isso não te afete de nenhuma maneira.

JC – Você acha tô ficando vaidoso?

CB – Como ator, sim, não completamente, eu te conheço também fora da câmera. Não sei se sou seu amigo, mas eu me sinto na categoria de

JC – Sim.

CB – Esse lugar da projeção de si na tela não pode se levar a sério, isso afeta profundamente. O senhor é mais interessante como persona do que como ator. É isso que quero te dizer.

JC – Isso é perturbador. Outro dia, uma amiga me disse: você é vaidoso. Como é uma grande amiga, fiquei chocado, mas ela acrescentou: você lida com a vaidade de forma inesperada.

CB – Isso é verdade, mas somos todos vaidosos. Outra pergunta: o senhor acha que criticar é um tipo de expressão artística?

JC – Eu acho. A questão são essas palavras genéricas. Por exemplo, você diz: o cinema... palavra na qual eu acabo não acreditando.

CB – O cinema!?

JC – O que você faz não está no mesmo universo cultural do que faz um Spielberg. Existem cinemas. [...]

CB – Eu virei, inverti ..

JC – Agora você é o entrevistador... Já tem muito material, você gostaria de falar mais?

CB – Não, acho que já tá bom. Se quiser eu falo mais.

JC – Não.

CB – Não. Tô extenuado

JC – Eu também. As perguntas que lhe fiz a respeito de Hamlet e Elegia, você disse que precisa pensar, é uma proposta para outra entrevista?

CB – Sim, talvez antes do filme.

JC – Sim, antes de você iniciar a viagem. Você vai viajar com câmera?

CB – Tenho dúvida, no projeto eu coloquei que faria uma viagem de pesquisa e pré-produção. N verdade eu não tenho estomago para duas viagens. A viagem de pesquisa já será o filme.

JC – É.

CB – Eu não posso ir à cadeia, conversar com meu irmão e dizer que voltarei daqui um mês para filmá-lo. Uma das ideias que eu tive (provavelmente eu não vou fazer isso) é começar o filme com a bala que guardei para matar o assassino. Fico sempre me perguntando: se eu o encontrar, o que vou fazer, matá-lo, entrevistá-lo ou chamar a policia? Ou tudo isso? Eu o entrevisto, depois mato e chamo a policia, ou chamo a policia, mato e fujo? Me filmo matando ele? Ou eu só falo do meu desejo? Mas eu tenho essa bala guardada para matá-lo.

JC –Você tem a arma?

CB – Arma você consegue... odeio armas, mesmo sabendo atirar, atiro com as duas mãos, servi na Legião Estrangeira, como Jean Genet,. A grande questão é: esse filme é um ato de covardia?

JC – De covardia?

CB – Se meu pai e se meu irmão estivessem vivos, eles já teriam matado o assassino da minha mãe. Eu não tenho coragem, pelo menos não tive até hoje, por isso vou fazer um filme.

JC – Por que você pensa que teu pai e teu irmão teriam feito isto?

CB – Porque eram belicosos, principalmente meu irmão.

JC – Você tem um irmão vivo, ele não matou.

CB – Tenho dois irmãos, um preso e um solto.

JC – Eles não mataram, então são covardes?

CB – Porque sou primogênito. Eu tinha uma relação mais íntima com minha mãe, a responsabilidade era minha, entendeu? Nunca aquela frase que eu te falei teve tanto sentido para mim como agora: o ato de fazer filmes é um ato criminoso. Esse filme que vou fazer é um crime.

JC – Então, por vários motivos, a próxima entrevista será antes do filme.

CB – OK, JC, eu aceito! Terminamos?

JC – Foi bom para você?

CB – Não! Foi horrível! Não, foi muito bom falar, me trouxe pensamentos sobre a vida e sobre o filme, também porque eu tenho falado pouco sobre isso. As pessoas ficam assustadas, têm até medo de perguntar.

 

 

 



[i] Em conversa posterior com CB e a equipe do filme, apareceu a informação que o plano da morte de Polônio e do beijo, de que foi feito uma única tomada, apresentou defeito técnico.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h20
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