Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

28/04/2014

Boltanski, os Imigrantes

 
 

Boltanski, os Imigrantes

 

Entro no espaço. Selva de pedra de papelão. Opressivo, um pouco. Vozerio. Vozes da cidade. Reconheço um sentimento que tive da minha janela do 30º do Copan: um mar de prédios e as vozes da cidade sem rosto. Eu sei que uma dessas vozes é a minha. Não conseguirei encontrar minha voz no meio desse formigueiro. Anonimato. Minha voz é anônima. Eu sou anônimo. Estar perdido no meio do vozerio é quase mágico.

 

Caminho sinuosamente em busca de minha voz, eu sei que é em vão. Cruzo com a voz de um americano. Ele diz o que eu poderia ter dito, que São Paulo é acolhedora para os imigrantes. Concordo com ele, simpatizo com ele.

Meu amigo está parado perto de um prédio, me aproximo, reconheço a minha voz. Ele a achou. Identificada e localizada a minha voz, perco o anonimato e a exposição perde a magia.

Afasto-me. A magia vai se reorganizando em volta de mim. Deparo-me com uma uruguaia, veio a SP para viver com o marido que trabalha com cinema. Ela fala de um horizonte infinito de prédios, o que a assustou na chegada. Com outras palavras é o que falou minha mãe quando chegamos a SP e ela viu a cidade do alto do Hotel São Paulo: “Essa cidade me dá medo”. A vivência da uruguaia não é só dela, é também minha. A do americano também é minha. Esse vozerio é um coro, conta as histórias de todos os imigrantes, a experiência que achamos que é de cada um é a experiência de todos, só a maneira de dizer é pessoal, somos coletivos.

Continuo meu percurso urbano. Uma voz masculina, ele fazia com freqüência a viagem Montevideo / SP ida e volta e acabou se fixando em SP porque, como cineasta, aqui encontrava mais trabalho. Só pode ser o marido da uruguaia assustada. A impressão de que cada voz era solitária se matiza. Nesse panorama de solidão, há contatos, há ligações, há redes. Como percebi? Caminhando ao acaso entre os prédios de papelão. Por acaso.

 

[Exposição de Christian Boltanski, 19 924 458 +/– , SESC Pompeia]

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h32
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07/07/2011

Mario Chamie, um comentário

 
 

Mario Chamie, um comentário

 

 

Há uma pergunta à qual Mario Chamie não responderá:

Quando publiquei CAMINHOS DE KIAROSTAMI, Mario me disse: “Você inventou o ‘ensaio bate-papo’.” Não sei se era crítica ou elogio. Provavelmente uma crítica, mas gostei e tomei o comentário como um elogio. Crítica ou elogio, tanto faz, Mario foi um ótimo leitor: acertou no alvo.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h52
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19/10/2010

José Serra e o metrô

 
 

José Serra e o metrô

  

Em 1º de julho deste ano O Estado de S. Paulo, em página interna do jornal, com material da Agência Estado e confirmando “As informações são do jornal O Estado de S. Paulo”,  publicou um artigo cujo primeiro parágrafo informava:

“Ao contrário do que a população imagina e do que o próprio governo estadual promete, a entrega de cinco estações da Linha 4-Amarela, prometidas para 2012, não tem mais prazo. Isso porque as obras civis e o acabamento delas não fazem parte do contrato de construção dos 12,8 quilômetros e das 11 estações do ramal considerado mais moderno de São Paulo.” O texto acrescenta que não há nenhuma irregularidade jurídica na situação.

A abertura do texto é clara: o que o governo estadual prometeu em matéria de metrô não vai acontecer.

Acontece que o candidato à presidência da República, que era chefe do governo que prometeu o que não vai acontecer em matéria de metrô, reitera promessas de, se eleito, construir ou colaborar para a construção de metrôs pelo Brasil afora. Como confiar nessas promessas se no estado que ele mesmo governou não está dando certo?

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h31
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18/10/2010

Maria Rita Kehl e o Estado de S. Paulo

 
 

Maria Rita Kehl e o Estado de S. Paulo

 

 

A demissão (uns dizem defenestração, outros dizem troca de cronista) de Maria Rita Kehl do jornal O Estado de S. Paulo levanta algumas perguntas:

É esse o jornal que denunciou ter estado durante não sei quantos dias SOB CENSURA, impedido de divulgar informações que julgava relevantes?

É esse o jornal que diz defender a liberdade de expressão? De quem?

É esse o jornal que parece recear desvios autoritários de parte do governo federal, que poderiam cercear a imprensa?

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h55
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24/09/2010

A arte da palestra

 
 

A arte da palestra

 

 

“A crença no espelho” foi o título da palestra de abertura do curso Mutações-A invenção das crenças, coordenado por Adalto Novaes.

O palestrante foi José Miguel Wisnik na mais brilhante de seuas formas.

Palestra não é uma simples comunicação de texto previamente escrito, mesmo que o palestrante se atrapalhe nos seus papéis ou não consiga ler sua caligrafia, o que sempre pode dar alguma vitalidade a uma palestra acadêmica.

Palestrar implica encantar o público e se encantar com o seu próprio encantamento de palestrar diante de um público. Isto ocorria com Paulo Emílio Salles Gomes que era mestre nessa arte. E ocorreu com Zé Miguel neste dia de abertura em São Paulo. No meio da palestra, após uma frase, os olhos brilhando, os braços levantados, um sorriso luminoso, ele perguntou se tinhamos anotado porque essa frase ele não conseguiria repetir. Estávamos, nós e ele, enfeitiçados.

A palestra de Zé Miguel teve a forma de uma elipse cujos dois centros foram espelhos, um de Machado de Assis e o outro de Guimarães Rosa. Esses centros lançaram raios que atingiram galáxias como a psicanálise lacaniana ou a cultura popular brasileira, tecendo uma rede fosforescente.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h31
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05/11/2009

O boom do documentário – 3

 
 

O boom do documentário – 3

 

O romance “tem como finalidade, valendo-se de uma ação verossímil, pintar os homens e a natureza na sua verdade” (1866) – “O romancista vai em busca de uma verdade” (1879)

Durante anos, o romancista francês Émile Zola refletiu sobre o romance naturalista. Uma de suas convicções era que o romance, embora não possa atingir totalmente a verdade, tem o dever de buscá-la sempre e de se aproximar dela o quanto possível.

Conforme Zola, o romance naturalista é regido também por outros princípios, entre os quais o seguinte, fundamental na concepção do escritor: “E, uma vez levantados os documentos, seu romance, como eu já disse, se estabelecerá por conta própria” (1878):

O romance prescinde do romancista para se escrever, desde que a documentação necessária tenha sido coletada e reunida.

 “O romancista naturalista faz como se desaparecesse completamente atrás da ação que narra” (1875).

O completo desaparecimento do romancista, Zola sabe que é impossível, inclusive porque ele pensa o romance como a verdade vista através de um “temperamento”, que é o escritor e sua personalidade. No entanto, o romancista deve se esforçar para que sua intervenção seja a menor possível, para que sua presença não seja – ou quase – percebida. Ao limite, como se não houvesse romancista e o romance existisse por si só.

Uma narração que chega bem pertinho da “verdade”, e um narrador que intervém o menos possível, se torna quase imperceptível e ao limite some, são ideias que Zola defendia na segunda metade do século XIX. No entanto, essas ideias permanecem vigentes entre nós. A arte que tangencia a “verdade” e o artista que some fazem parte de um discurso que se organizou há décadas. Atualmente, para se manter vivo e atuante, ele só precisa de HOSPEDEIROS que o repitam – eventualmente com algumas pequenas atualizações. Ele é tipicamente um meme conforme a concepção de Richard Dawkins (ver crônica “O milho 3” neste blog).

“Meu problema era não atrapalhar o Kiko [Enrique Diaz] e que os atores estivessem o mais próximo da verdade. Mas, para mim, que estou acostumado a fazer filmes em que tenho o controle até no descontrole, foi difícil alcançar essa não interferência”.

Esse texto encontra-se na matéria “Abrindo as cortinas” da revista PLANO B [passou a chamar-se BETA], no 4, de 2009. Ele se refere ao filme MOSCOU e é atribuído a Eduardo Coutinho.

Que Coutinho tenha dito exatamente essas frases ou que elas tenham sido um tanto copidescadas, pouco importa: o meme encontrou seu veículo para se manter vivo.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h38
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31/08/2009

O fantasma da literatura – 6

 
 

O fantasma da literatura – 6

 

 

 

No ônibus barulhento o rapaz ouve uma voz caótica pelo seu rádio de comunicação. Agora é a vez de ele responder. Ele diz: Não copiei.

Tradução: Não entendi.

Passamos parte da nossa vida copiando, xerocando, enviando e-mail que são cópias, duplicando, salvando, salvadando como, fazendo back-up, cópias de segurança em pen drive etc.

Copiar é uma das principais atividades do presente momento da nossa civilização.

A gíria do garoto tá em cima.  

Oh Bartleby...

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h38
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O Fantasma da literatura – 5

 
 

O Fantasma da literatura – 5

 

 

ATENÇÃO V (1981-82) : a obra se compõe de uma fotografia PB e 25 desenhos grafite que reproduzem detalhes da foto. Não há relação analógica entre a foto e a disposição dos desenhos. Quem quiser procura na foto um detalhe desenhado, pode encontrar ou não, e o movimento inverso também é possível: escolher um detalhe na foto e verificar se ele foi selecionado e desenhado pela artista. Os desenhos remetem à foto e a foto sem os desenhos não teria o que fazer na exposição.

 

ATENÇÃO I (1980-2007) se compõe de uma foto PB abaixo da qual foi disposto um painel eletrônico, onde desfilam palavras e frases que remetem a detalhes da foto.

 

TESTARTE VI – MUROS (1977-2003) se compõe de dez fotos apresentando detalhes de muros manchados, mofados. As fotos são ativadas pelo conhecido texto de Leonardo da Vinci que convida o observador a olhar fragmentos de muros e a perceber paisagens, batalhas e seres estranhos. Ou seja: olhe muros e veja outra coisa.

 

Estas obras de Vera Chaves Barcelos podem ser vistas na bela exposição Imagens em migração no MASP.

 

Pois pois, dirão, o que isto tem a ver com literatura? Certo. Mas tem a ver com fantasmas.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h20
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17/08/2009

O Fantasma da literatura – 3

 
 

O Fantasma da literatura – 3

 

 

 

Diversos pesquisadores se debruçam sobre a obra de Roberto Bolaño e estudam paródia, duplo, espelhamento, intertextualidade, palimpsesto, reescritura, ressignificação e, acrescento eu, auto-intertextualidade (La escritura como tauromaquia) .

Sobre a obra de Bolaño e sua escrita, eu sei agora muita coisa que ignorava quando comecei a ler compulsivamente OS DETETIVES SELVAGENS e a seguir outros romances e contos. Se, ao iniciar a leitura, tivesse sabido o que eu sei agora, é provável que a intensa experiência de leitura que continua sendo a base do meu relacionamento com a literatura de Bolaño não teria ocorrido ou teria sido tênue. Mas não tenho a ingenuidade de pretender ter feito uma leitura ingênua:

A história dessa mulher trancada durante dias num banheiro da Universidade de Mexico, que de vez em quando olha pela janela enquanto as tropas invadem e ocupam a universidade em 1968, eu já li. Conheço essa história, num texto de Bolaño, certo, mas qual? Ou teria sido em alguma resenha? Não li nada sobre Bolaño.

E também essa exposição de fotografia no quarto de um apartamento. Os convidados se amontoam, mas o fotógrafo não deixa entrar ninguém. Agora ele deixa, mas um por um. E essa mulher que sai do quarto onde ela terá visto as fotografias, meio tonta, ela precisa de ar. Isso tudo também eu já li. Num texto de Bolaño, certo. Mas qual? Não lembro em que romance ou conto dos muitos que já li desse autor.

E o que realmente estou lendo? A narração dessa história por Bolaño? ou a narração é o que já tinha lido, e agora estou lendo um reflexo, uma reescritura? Ou o reflexo é o que li primeiro? A situação é a mesma, personagens e fatos são os mesmos, mas a maneira de contar é ligeiramente diferente, onde está a diferença?

Essa extraordinária experiência de leitura me faz duvidar da realidade, onde está a realidade? Estou perdido num jogo de espelhamentos e reflexos literários e não consigo perceber qual é a realidade, a verdadeira.

Essa leitura é uma experiência sensorial que trabalha nossa problemática relação com a realidade numa sociedade de virtualidades.

Uma sensação semelhante e tão poderosa eu tive assistindo a JOGO DE CENA: no meio do filme uma mulher conta uma história de vida; essa história já a ouvi, ela já foi contada, tenho certeza. Mas não consigo pôr um rosto sobre a narração anterior. Fico desequilibrado, dividido entre acompanhar essa re-narração e o movimento da minha memória que vasculha o passado recente para encontrar um rosto, que finalmente eu não encontro, o filme vai seguindo e seu ritmo me leva. Quem está fazendo o atual relato a pessoa que vivenciou a situação? uma atriz?

Sylvia Molloy (citada por Cecilia Manzoni: La literatuca como tauromaquia), encontrou uma expressão que feliz para se referir à essa sensação de vacilo da realidade, esse vacilo que não me permite pisar em terra firme, como se o chão me fugisse debaixo dos pés. Ela escreve: un reconocimiento pero no una identificación.

 

P.S. – A mulher que ficou no banheiro da UNAM é Auxilio Lacouture e o fotógrafo é Carlos Wieder. As trajetórias desses personagens na obra de Bolaño já foram rastreadas. Ainda bem que eu não sabia.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h39
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14/08/2009

O fantasma da literatura – 4

 
 

O fantasma da literatura – 4

 

 

 

Meu amigo Zeca Palaghano me escreve:

 

“Eu já havia pensado nisso que você chama de literatura Google. Quando li Bartleby e Cia., fui correndo ao Google ver quem era Derain, com quem o narrador (o próprio Vila-Matas) se correspondia. Quando descobri que o cara não existia, caí do cavalo. Gosto bastante do estilo de Vila-Matas. Ele tem ironia e bom humor”.

 

 

O que seria o que chamo de EFEITO GOOGLE na literatura? Ele é provocado por contos, novelas, romances, ou seja narrativas que se consideram ficcionais, mas geram no leitor intensa dúvida quanto a realidade ou ficcionalidade dos personagens e situações narradas. O efeito é provocado pelo estilo do narrador (tipo reportagem, resenha, verbete enciclopédico etc.) e a inserção de pessoas famosas ou menos famosas mas existentes ou tendo existido. Esses nomes conhecidos e o estilo contaminam personagens cujo nome é desconhecido. Como a narrativa se dá num plano que mescla em proporções incertas verossimilhança, veracidade e paródia, o leitor, ao se deparar com personagem de nome desconhecido mas que poderia ser real,  corre verificar no Google. Se muitas vezes chega-se à conclusão que o personagem é uma criação do escritor, outras – e não poucas – constata-se que a pessoa realmente existiu. Por outro lado, a confirmação pelo Google da existência de um personagem/pessoa não assegura que os fatos narrados a seu respeito o sejam, então investiga-se um pouco mais. A poeta Angelica Font realmente existiu? Ela realmente publicou tal livro? Realmente recebeu tal prêmio? O Bolaño de OS DETETIVES SELVAGENS é mestre em criar esse chão movediço que desestabiliza o leitor e o deixa em dúvida sobre o status do texto que está sendo lido, e portanto em dúvida sobre a consistência de sua relação com a realidade. Essa literatura trabalha a nossa hesitante relação com a realidade.

NOVE NOITES de Bernardo Carvalho foi o primeiro livro a provocar em mim o efeito Google com intensidade, sua leitura foi decisiva. Leitura marcante também para Zeca Palaghano.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h50
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24/07/2009

O fantasma da literatura

 
 

O fantasma da literatura

 

 

 

Resumir o enredo de um conto, um romance ou um filme dá na mesma, se o ato significativo for “resumir a ação de”. Que o conto, o romance ou o filme existam ou não, pode ser irrelevante, se o que importa for “o estilo de resumir a ação de”. Deste ponto de vista: “é a ação de” ou “é como se fosse a ação de” dá na mesma.

“Como se fosse resumo da ação/enredo de” pode se chamar de “estilo argumental” (no sentido de argumento cinematográfico)

O estilo argumental é sempre referencial, i.e., remete necessariamente a um outro texto a ser criado (o enredo de um filme, um roteiro cinematográfico). Eventualmente o “outro texto” pode já existir e o argumento ser deduzido dele (o que é costume na preparação de projetos cinematográficos para enviar a comissões). De qualquer forma o argumento conta uma história que remete a essa mesma história, porém ampliada e contada diferentemente.

O “outro texto” é necessariamente um passado ou um futuro. Quando não há texto passado nem haverá texto futuro, o “estilo argumental” continua referencial, só que o “outro texto” é virtual. Isto quer dizer que não existe nem existirá, ele só existe como evocação do “estilo argumental” e, embora só exista como evocação, é o “texto evocado” (inexistente) que sustenta o texto argumental. Em outras palavras, o “estilo argumental” dá realidade ao “outro texto”, sem lhe dar atualidade.

No caso de um texto referencial com texto referido existente, o conhecimento deste último pode enriquecer a leitura ou até ser indispensável para melhor compreensão do texto referencial. É o que acontece com A GAIVOTA de Tchekov encenada por Henrique Diaz ou a Oréstia de Sófocles na interpretação do grupo teatral Societá Raffaello Sanzio.

No desconhecimento por parte do leitor ou espectador do texto referido, ou na inexistência dele, reside a solidão do texto referencial. Na inexistência de texto referido, reside uma dimensão trágica da literatura referencial. Quando o texto referido não existe, o texto referencial se sustenta num texto referido que ele cria virtualmente e que é seu esteio.

Essas reflexões me foram sugeridas pela leitura de alguns dos textos que compõem a coletânea LLAMADAS TELEFÓNICAS de Roberto Bolaño.

Acrescento que o comentário sobre meu livro AQUELE RAPAZ que mais me seduziu dizia aproximadamente o seguinte: AQUELE RAPAZ é um roteiro para um romance que não foi escrito (peguei isso como um elogio, mas talvez o comentarista estivesse apontando uma deficiência minha). 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h14
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23/06/2009

Cosas de España

 
 

Cosas de España

 

 

Primeira versão:

Em 1986, o escritor espanhol Javier Marías publicou EL HOMBRE SENTIMENTAL. Neste romance pode-se ler: “los teléfonos españoles funcionan tan mal”.

Em 1998-99, a Telebrás e a Telesp são privatizadas, e a empresa espanhola Telefonica se consolida no Brasil e passa a atuar principalmente em São Paulo.

Se os brasileiros que negociaram a telefonia tivessem mais cultura literária, a história poderia ter sido diferente.

 

Segunda versão:

Por ocasião do programa de privatizações do governo FHC, a empresa espanhola Telefonica adquire a estatal paulista Telesp e se instala fortemente em São Paulo.

Em 2004, a editora Companhia das Letras publica O HOMEM SENTIMENTAL do espanhol Javier Marías, onde se lê: “os telefones espanhóis funcionam tão mal”.

Era tarde demais.

 

Terceira versão:

Em 1986, o escritor...

Em 1998-99, a Telebrás...

Em 2004, a editora...

No romance, a frase está entre parênteses: terá sido este o problema?

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h41
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02/06/2009

Rudá 4

 
 

Rudá 4

 

Rudá é uma marca de deliciosos biscoitos produzidos em Itaipava pela Rudá Brazil Alimentos LTDA. Seus ingredientes são 99,5% orgânicos (mas Cuidado: contém glútem).

A Rudá Brazil avisa que seu nome vem do Tupi-Guarani e significa “Deus do amor”.

O sabor dos biscoitos é dos mais requintados, por exemplo “queijo com hibiscus”.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h39
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04/05/2009

Rudá 3

 
 

Rudá 3

 

Quando O Ministério da Justiça baixou a lista dos 25, aplicando o AI5 (Ato Institucional no. 5) a professores da Usp, eu me encontrava em Brasília. Como não se sabia que medidas seriam tomadas pelos militares, me escondi por uns dias. Voltei a São Paulo, onde eu era professor na então Escola de Comunicações Culturais.

Rudá, chefe do departamento que abrigava teatro, cinema, tv e rádio, me convocou para que eu retirasse meus pertences da escola e lhe apresentasse um balanço dos cursos já dados e os projetos que eu tinha.

Dias depois, Rudá recebeu um ofício do senhor diretor comunicando-lhe que eu tinha sido visto nas dependências da escola, e que tal situação não deveria se repetir.

Rudá respondeu ao senhor diretor com uma longa carta em que expunha que eu de fato tinha ido à escola a pedido dele, chefe do departamento; que ele ignorava qualquer dispositivo legal que me proibisse de circular pelas dependências da escola; e que, se o senhor diretor julgava que eu não devia entrar na escola, ele que tomasse as providências cabíveis, pois tomar tais providências não fazia parte das atribuições de um chefe de departamento.

Essa carta é um exemplo de coragem, de resistência contra a opressão, e da dignidade que Rudá sempre manteve nas instituições com as quais colaborou ou que dirigiu. Um dia ainda encontrarei a cópia dessa carta que Rudá me deu, momentaneamente extraviada.

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 11h47
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Rudá 2

 
 

Rudá 2

 

No dia 1.o ou 2 de abril de 1964, após longas horas de vigília, resolvi ir até a casa de meus pais tomar banho, seria mais seguro do que no centro onde eu morava. Chegando lá, meu pai me disse que uma amiga minha tinha telefonado avisando que a polícia me tinha procurado no jornal Última hora, no Teatro de Arena e na Faculdade de filosofia, e que era melhor eu desaparecer por uns tempos. No dia seguinte, meu pai me levou para a casa de um amigo, perdida no interiorzão do estado de São Paulo. E lá fiquei.

Semanas mais tarde, sem pré-aviso, Rudá de Andrade apareceu. Queria saber se eu estava bem. Ele tinha uma grande dúvida: se a polícia ainda estava à minha procura ou se me tinha esquecido. Para sondar a polícia e saber se seria possível retornar a uma vida cotidiana mais ou menos normal, embora com restrições e precauções (voltar à Cinemateca, por exemplo, estava excluído), se poderia fazer uma provocação e esperar a reação da polícia. Rudá queria saber se eu concordava e se eu o deixaria articular essa provocação. Ok.

Tempos depois, a Cinemateca Brasileira anunciou a exibição um filme de Einsenstein, apresentado por JCB. A programação se daria num auditório do então prédio dos Diários Associados, na rua 7 de abril. Rudá tinha contatos na imprensa e tinha providenciado a presença de fotógrafos para que minha fotografia pudesse ser publicada nas colunas mundanas no fim de semana seguinte.

No dia D, me levaram até o prédio dos Diários e, acompanhado, fiquei esperando dentro do carro que o auditório lotasse. Meu acompanhante recebeu um sinal, e rapidamente saimos do carro e entramos num elevador. Quando cheguei ao andar, todos os elevadores foram desligados. Fiz a minha palestra (provavelmente não a melhor da minha vida, tempos depois Vlado Herzog me disse que eu tinha sido bastante confuso).

Quando acabei, a sala se apagou e a projeção foi iniciada (teria sido Alexandre Nevsky?). Me pegaram, me fizeram sair do auditório por uma outra porta, me botaram num outro elevador, o único que tinha sido religado, me botaram dentro do carro e me devolveram ao meu esconderijo. No fim de semana, fotos minhas foram publicadas e a polícia não reagiu. Esperou-se mais alguns dias. Eu podia voltar cautelosamente a vida civil.

Esse epsódio rocambolesco foi planejado e orquestrado por Rudá.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 11h42
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