Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

05/11/2009

O boom do documentário – 3

 
 

O boom do documentário – 3

 

O romance “tem como finalidade, valendo-se de uma ação verossímil, pintar os homens e a natureza na sua verdade” (1866) – “O romancista vai em busca de uma verdade” (1879)

Durante anos, o romancista francês Émile Zola refletiu sobre o romance naturalista. Uma de suas convicções era que o romance, embora não possa atingir totalmente a verdade, tem o dever de buscá-la sempre e de se aproximar dela o quanto possível.

Conforme Zola, o romance naturalista é regido também por outros princípios, entre os quais o seguinte, fundamental na concepção do escritor: “E, uma vez levantados os documentos, seu romance, como eu já disse, se estabelecerá por conta própria” (1878):

O romance prescinde do romancista para se escrever, desde que a documentação necessária tenha sido coletada e reunida.

 “O romancista naturalista faz como se desaparecesse completamente atrás da ação que narra” (1875).

O completo desaparecimento do romancista, Zola sabe que é impossível, inclusive porque ele pensa o romance como a verdade vista através de um “temperamento”, que é o escritor e sua personalidade. No entanto, o romancista deve se esforçar para que sua intervenção seja a menor possível, para que sua presença não seja – ou quase – percebida. Ao limite, como se não houvesse romancista e o romance existisse por si só.

Uma narração que chega bem pertinho da “verdade”, e um narrador que intervém o menos possível, se torna quase imperceptível e ao limite some, são ideias que Zola defendia na segunda metade do século XIX. No entanto, essas ideias permanecem vigentes entre nós. A arte que tangencia a “verdade” e o artista que some fazem parte de um discurso que se organizou há décadas. Atualmente, para se manter vivo e atuante, ele só precisa de HOSPEDEIROS que o repitam – eventualmente com algumas pequenas atualizações. Ele é tipicamente um meme conforme a concepção de Richard Dawkins (ver crônica “O milho 3” neste blog).

“Meu problema era não atrapalhar o Kiko [Enrique Diaz] e que os atores estivessem o mais próximo da verdade. Mas, para mim, que estou acostumado a fazer filmes em que tenho o controle até no descontrole, foi difícil alcançar essa não interferência”.

Esse texto encontra-se na matéria “Abrindo as cortinas” da revista PLANO B [passou a chamar-se BETA], no 4, de 2009. Ele se refere ao filme MOSCOU e é atribuído a Eduardo Coutinho.

Que Coutinho tenha dito exatamente essas frases ou que elas tenham sido um tanto copidescadas, pouco importa: o meme encontrou seu veículo para se manter vivo.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h38
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

31/08/2009

O fantasma da literatura – 6

 
 

O fantasma da literatura – 6

 

 

 

No ônibus barulhento o rapaz ouve uma voz caótica pelo seu rádio de comunicação. Agora é a vez de ele responder. Ele diz: Não copiei.

Tradução: Não entendi.

Passamos parte da nossa vida copiando, xerocando, enviando e-mail que são cópias, duplicando, salvando, salvadando como, fazendo back-up, cópias de segurança em pen drive etc.

Copiar é uma das principais atividades do presente momento da nossa civilização.

A gíria do garoto tá em cima.  

Oh Bartleby...

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h38
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

O Fantasma da literatura – 5

 
 

O Fantasma da literatura – 5

 

 

ATENÇÃO V (1981-82) : a obra se compõe de uma fotografia PB e 25 desenhos grafite que reproduzem detalhes da foto. Não há relação analógica entre a foto e a disposição dos desenhos. Quem quiser procura na foto um detalhe desenhado, pode encontrar ou não, e o movimento inverso também é possível: escolher um detalhe na foto e verificar se ele foi selecionado e desenhado pela artista. Os desenhos remetem à foto e a foto sem os desenhos não teria o que fazer na exposição.

 

ATENÇÃO I (1980-2007) se compõe de uma foto PB abaixo da qual foi disposto um painel eletrônico, onde desfilam palavras e frases que remetem a detalhes da foto.

 

TESTARTE VI – MUROS (1977-2003) se compõe de dez fotos apresentando detalhes de muros manchados, mofados. As fotos são ativadas pelo conhecido texto de Leonardo da Vinci que convida o observador a olhar fragmentos de muros e a perceber paisagens, batalhas e seres estranhos. Ou seja: olhe muros e veja outra coisa.

 

Estas obras de Vera Chaves Barcelos podem ser vistas na bela exposição Imagens em migração no MASP.

 

Pois pois, dirão, o que isto tem a ver com literatura? Certo. Mas tem a ver com fantasmas.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h20
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

17/08/2009

O Fantasma da literatura – 3

 
 

O Fantasma da literatura – 3

 

 

 

Diversos pesquisadores se debruçam sobre a obra de Roberto Bolaño e estudam paródia, duplo, espelhamento, intertextualidade, palimpsesto, reescritura, ressignificação e, acrescento eu, auto-intertextualidade (La escritura como tauromaquia) .

Sobre a obra de Bolaño e sua escrita, eu sei agora muita coisa que ignorava quando comecei a ler compulsivamente OS DETETIVES SELVAGENS e a seguir outros romances e contos. Se, ao iniciar a leitura, tivesse sabido o que eu sei agora, é provável que a intensa experiência de leitura que continua sendo a base do meu relacionamento com a literatura de Bolaño não teria ocorrido ou teria sido tênue. Mas não tenho a ingenuidade de pretender ter feito uma leitura ingênua:

A história dessa mulher trancada durante dias num banheiro da Universidade de Mexico, que de vez em quando olha pela janela enquanto as tropas invadem e ocupam a universidade em 1968, eu já li. Conheço essa história, num texto de Bolaño, certo, mas qual? Ou teria sido em alguma resenha? Não li nada sobre Bolaño.

E também essa exposição de fotografia no quarto de um apartamento. Os convidados se amontoam, mas o fotógrafo não deixa entrar ninguém. Agora ele deixa, mas um por um. E essa mulher que sai do quarto onde ela terá visto as fotografias, meio tonta, ela precisa de ar. Isso tudo também eu já li. Num texto de Bolaño, certo. Mas qual? Não lembro em que romance ou conto dos muitos que já li desse autor.

E o que realmente estou lendo? A narração dessa história por Bolaño? ou a narração é o que já tinha lido, e agora estou lendo um reflexo, uma reescritura? Ou o reflexo é o que li primeiro? A situação é a mesma, personagens e fatos são os mesmos, mas a maneira de contar é ligeiramente diferente, onde está a diferença?

Essa extraordinária experiência de leitura me faz duvidar da realidade, onde está a realidade? Estou perdido num jogo de espelhamentos e reflexos literários e não consigo perceber qual é a realidade, a verdadeira.

Essa leitura é uma experiência sensorial que trabalha nossa problemática relação com a realidade numa sociedade de virtualidades.

Uma sensação semelhante e tão poderosa eu tive assistindo a JOGO DE CENA: no meio do filme uma mulher conta uma história de vida; essa história já a ouvi, ela já foi contada, tenho certeza. Mas não consigo pôr um rosto sobre a narração anterior. Fico desequilibrado, dividido entre acompanhar essa re-narração e o movimento da minha memória que vasculha o passado recente para encontrar um rosto, que finalmente eu não encontro, o filme vai seguindo e seu ritmo me leva. Quem está fazendo o atual relato a pessoa que vivenciou a situação? uma atriz?

Sylvia Molloy (citada por Cecilia Manzoni: La literatuca como tauromaquia), encontrou uma expressão que feliz para se referir à essa sensação de vacilo da realidade, esse vacilo que não me permite pisar em terra firme, como se o chão me fugisse debaixo dos pés. Ela escreve: un reconocimiento pero no una identificación.

 

P.S. – A mulher que ficou no banheiro da UNAM é Auxilio Lacouture e o fotógrafo é Carlos Wieder. As trajetórias desses personagens na obra de Bolaño já foram rastreadas. Ainda bem que eu não sabia.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h39
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

14/08/2009

O fantasma da literatura – 4

 
 

O fantasma da literatura – 4

 

 

 

Meu amigo Zeca Palaghano me escreve:

 

“Eu já havia pensado nisso que você chama de literatura Google. Quando li Bartleby e Cia., fui correndo ao Google ver quem era Derain, com quem o narrador (o próprio Vila-Matas) se correspondia. Quando descobri que o cara não existia, caí do cavalo. Gosto bastante do estilo de Vila-Matas. Ele tem ironia e bom humor”.

 

 

O que seria o que chamo de EFEITO GOOGLE na literatura? Ele é provocado por contos, novelas, romances, ou seja narrativas que se consideram ficcionais, mas geram no leitor intensa dúvida quanto a realidade ou ficcionalidade dos personagens e situações narradas. O efeito é provocado pelo estilo do narrador (tipo reportagem, resenha, verbete enciclopédico etc.) e a inserção de pessoas famosas ou menos famosas mas existentes ou tendo existido. Esses nomes conhecidos e o estilo contaminam personagens cujo nome é desconhecido. Como a narrativa se dá num plano que mescla em proporções incertas verossimilhança, veracidade e paródia, o leitor, ao se deparar com personagem de nome desconhecido mas que poderia ser real,  corre verificar no Google. Se muitas vezes chega-se à conclusão que o personagem é uma criação do escritor, outras – e não poucas – constata-se que a pessoa realmente existiu. Por outro lado, a confirmação pelo Google da existência de um personagem/pessoa não assegura que os fatos narrados a seu respeito o sejam, então investiga-se um pouco mais. A poeta Angelica Font realmente existiu? Ela realmente publicou tal livro? Realmente recebeu tal prêmio? O Bolaño de OS DETETIVES SELVAGENS é mestre em criar esse chão movediço que desestabiliza o leitor e o deixa em dúvida sobre o status do texto que está sendo lido, e portanto em dúvida sobre a consistência de sua relação com a realidade. Essa literatura trabalha a nossa hesitante relação com a realidade.

NOVE NOITES de Bernardo Carvalho foi o primeiro livro a provocar em mim o efeito Google com intensidade, sua leitura foi decisiva. Leitura marcante também para Zeca Palaghano.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h50
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

24/07/2009

O fantasma da literatura

 
 

O fantasma da literatura

 

 

 

Resumir o enredo de um conto, um romance ou um filme dá na mesma, se o ato significativo for “resumir a ação de”. Que o conto, o romance ou o filme existam ou não, pode ser irrelevante, se o que importa for “o estilo de resumir a ação de”. Deste ponto de vista: “é a ação de” ou “é como se fosse a ação de” dá na mesma.

“Como se fosse resumo da ação/enredo de” pode se chamar de “estilo argumental” (no sentido de argumento cinematográfico)

O estilo argumental é sempre referencial, i.e., remete necessariamente a um outro texto a ser criado (o enredo de um filme, um roteiro cinematográfico). Eventualmente o “outro texto” pode já existir e o argumento ser deduzido dele (o que é costume na preparação de projetos cinematográficos para enviar a comissões). De qualquer forma o argumento conta uma história que remete a essa mesma história, porém ampliada e contada diferentemente.

O “outro texto” é necessariamente um passado ou um futuro. Quando não há texto passado nem haverá texto futuro, o “estilo argumental” continua referencial, só que o “outro texto” é virtual. Isto quer dizer que não existe nem existirá, ele só existe como evocação do “estilo argumental” e, embora só exista como evocação, é o “texto evocado” (inexistente) que sustenta o texto argumental. Em outras palavras, o “estilo argumental” dá realidade ao “outro texto”, sem lhe dar atualidade.

No caso de um texto referencial com texto referido existente, o conhecimento deste último pode enriquecer a leitura ou até ser indispensável para melhor compreensão do texto referencial. É o que acontece com A GAIVOTA de Tchekov encenada por Henrique Diaz ou a Oréstia de Sófocles na interpretação do grupo teatral Societá Raffaello Sanzio.

No desconhecimento por parte do leitor ou espectador do texto referido, ou na inexistência dele, reside a solidão do texto referencial. Na inexistência de texto referido, reside uma dimensão trágica da literatura referencial. Quando o texto referido não existe, o texto referencial se sustenta num texto referido que ele cria virtualmente e que é seu esteio.

Essas reflexões me foram sugeridas pela leitura de alguns dos textos que compõem a coletânea LLAMADAS TELEFÓNICAS de Roberto Bolaño.

Acrescento que o comentário sobre meu livro AQUELE RAPAZ que mais me seduziu dizia aproximadamente o seguinte: AQUELE RAPAZ é um roteiro para um romance que não foi escrito (peguei isso como um elogio, mas talvez o comentarista estivesse apontando uma deficiência minha). 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h14
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

23/06/2009

Cosas de España

 
 

Cosas de España

 

 

Primeira versão:

Em 1986, o escritor espanhol Javier Marías publicou EL HOMBRE SENTIMENTAL. Neste romance pode-se ler: “los teléfonos españoles funcionan tan mal”.

Em 1998-99, a Telebrás e a Telesp são privatizadas, e a empresa espanhola Telefonica se consolida no Brasil e passa a atuar principalmente em São Paulo.

Se os brasileiros que negociaram a telefonia tivessem mais cultura literária, a história poderia ter sido diferente.

 

Segunda versão:

Por ocasião do programa de privatizações do governo FHC, a empresa espanhola Telefonica adquire a estatal paulista Telesp e se instala fortemente em São Paulo.

Em 2004, a editora Companhia das Letras publica O HOMEM SENTIMENTAL do espanhol Javier Marías, onde se lê: “os telefones espanhóis funcionam tão mal”.

Era tarde demais.

 

Terceira versão:

Em 1986, o escritor...

Em 1998-99, a Telebrás...

Em 2004, a editora...

No romance, a frase está entre parênteses: terá sido este o problema?

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h41
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

02/06/2009

Rudá 4

 
 

Rudá 4

 

Rudá é uma marca de deliciosos biscoitos produzidos em Itaipava pela Rudá Brazil Alimentos LTDA. Seus ingredientes são 99,5% orgânicos (mas Cuidado: contém glútem).

A Rudá Brazil avisa que seu nome vem do Tupi-Guarani e significa “Deus do amor”.

O sabor dos biscoitos é dos mais requintados, por exemplo “queijo com hibiscus”.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h39
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

04/05/2009

Rudá 3

 
 

Rudá 3

 

Quando O Ministério da Justiça baixou a lista dos 25, aplicando o AI5 (Ato Institucional no. 5) a professores da Usp, eu me encontrava em Brasília. Como não se sabia que medidas seriam tomadas pelos militares, me escondi por uns dias. Voltei a São Paulo, onde eu era professor na então Escola de Comunicações Culturais.

Rudá, chefe do departamento que abrigava teatro, cinema, tv e rádio, me convocou para que eu retirasse meus pertences da escola e lhe apresentasse um balanço dos cursos já dados e os projetos que eu tinha.

Dias depois, Rudá recebeu um ofício do senhor diretor comunicando-lhe que eu tinha sido visto nas dependências da escola, e que tal situação não deveria se repetir.

Rudá respondeu ao senhor diretor com uma longa carta em que expunha que eu de fato tinha ido à escola a pedido dele, chefe do departamento; que ele ignorava qualquer dispositivo legal que me proibisse de circular pelas dependências da escola; e que, se o senhor diretor julgava que eu não devia entrar na escola, ele que tomasse as providências cabíveis, pois tomar tais providências não fazia parte das atribuições de um chefe de departamento.

Essa carta é um exemplo de coragem, de resistência contra a opressão, e da dignidade que Rudá sempre manteve nas instituições com as quais colaborou ou que dirigiu. Um dia ainda encontrarei a cópia dessa carta que Rudá me deu, momentaneamente extraviada.

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 11h47
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

Rudá 2

 
 

Rudá 2

 

No dia 1.o ou 2 de abril de 1964, após longas horas de vigília, resolvi ir até a casa de meus pais tomar banho, seria mais seguro do que no centro onde eu morava. Chegando lá, meu pai me disse que uma amiga minha tinha telefonado avisando que a polícia me tinha procurado no jornal Última hora, no Teatro de Arena e na Faculdade de filosofia, e que era melhor eu desaparecer por uns tempos. No dia seguinte, meu pai me levou para a casa de um amigo, perdida no interiorzão do estado de São Paulo. E lá fiquei.

Semanas mais tarde, sem pré-aviso, Rudá de Andrade apareceu. Queria saber se eu estava bem. Ele tinha uma grande dúvida: se a polícia ainda estava à minha procura ou se me tinha esquecido. Para sondar a polícia e saber se seria possível retornar a uma vida cotidiana mais ou menos normal, embora com restrições e precauções (voltar à Cinemateca, por exemplo, estava excluído), se poderia fazer uma provocação e esperar a reação da polícia. Rudá queria saber se eu concordava e se eu o deixaria articular essa provocação. Ok.

Tempos depois, a Cinemateca Brasileira anunciou a exibição um filme de Einsenstein, apresentado por JCB. A programação se daria num auditório do então prédio dos Diários Associados, na rua 7 de abril. Rudá tinha contatos na imprensa e tinha providenciado a presença de fotógrafos para que minha fotografia pudesse ser publicada nas colunas mundanas no fim de semana seguinte.

No dia D, me levaram até o prédio dos Diários e, acompanhado, fiquei esperando dentro do carro que o auditório lotasse. Meu acompanhante recebeu um sinal, e rapidamente saimos do carro e entramos num elevador. Quando cheguei ao andar, todos os elevadores foram desligados. Fiz a minha palestra (provavelmente não a melhor da minha vida, tempos depois Vlado Herzog me disse que eu tinha sido bastante confuso).

Quando acabei, a sala se apagou e a projeção foi iniciada (teria sido Alexandre Nevsky?). Me pegaram, me fizeram sair do auditório por uma outra porta, me botaram num outro elevador, o único que tinha sido religado, me botaram dentro do carro e me devolveram ao meu esconderijo. No fim de semana, fotos minhas foram publicadas e a polícia não reagiu. Esperou-se mais alguns dias. Eu podia voltar cautelosamente a vida civil.

Esse epsódio rocambolesco foi planejado e orquestrado por Rudá.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 11h42
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

30/04/2009

Rudá 1

 
 

Rudá 1

 

1 – Quando comecei a trabalhar na Cinemateca Brasileira, Paulo Emílio, Rudá e equipe gastavamos muito tempo redigindo e datilografando cartas para convencer autoridades do interesse do cinema nacional e da importância de uma cinemateca para preservar o patrimônio cinematográfico, parte integrante da cultura brasileira.

2 – Nessa época, o som nas salas de cinema era péssimo. Projetando quase que exclusivamente filmes legendados, os exibidores pouco se preocupavam com a qualidade de repredução sonora de suas salas, pois os diálogos eram lidos e não ouvidos. E os diálogos dos filmes brasileiros resultavam ininteligíveis. O que se atribuia a má qualidade técnica dos filmes e dos estúdios (hoje ouve-se um filme da Vera Cruz tão bem quanto qualquer outro).

3 – Numa reunião com autoridades para convecê-las do interesse do... e da importância de uma..., um nobre deputado ou vereador externou sua proposta: já que os diálogos dos filmes nacionais eram inaudíveis, ele propunha que tais filmes fossem legendados em português. Rudá reagiu imediatamente e não poupou elogios a tão inovadora proposta. Ele, Rudá, achava a idéia tão boa, mas tão boa, que propunha estendê-la ao rádio.

4 – O nobre deputado pode ter sofrido súbita queda de pressão, mas disso eu não me lembro.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h43
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

03/04/2009

Sacro-cervical, reflexão 2

 
 

Sacro-cervical, reflexão 2

 

 

tudo é sempre

uma questão

de disciplina ou esbórnia

 

heloisa jahn

 

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h19
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

Sacro-cervical, reflexão 1

 
 

Sacro-cervical, reflexão 1

 

quem comete a infração

de trocar o ritmo da natureza

pela vida na, através da, pela

imaginação

comete-a

na juventude

e sua vida brilha.

se lhe acontece porém

levar uma existência de trabalho

com os anos vai se tornando

um boi no toco.

ele -- o boi. o toco -- suas características:

sua possível alegria,

a disciplina, a distração,

seu conhecimento,

a experiência,

até seus medos, a criança que foi, sua memória.

o toco.

anos depois,

quando as juntas endurecem,

o cabelo endurece,

as unhas endurecem

e a alma etérea que vestia sua cabeça

deixa de brilhar

verifica

que as idéias, conclusões, apanhados, conhecimento

que tantos anos antes também brilhavam

e eram chamados por seu nome

deixaram de ser

ele

e ficaram presos ao toco

como tudo mais.

 

resta o ritmo da natureza

que ele um dia desdenhou

com sua risada feliz.

 

heloisa jahn

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h17
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

02/12/2008

Milho 7

Milho 7

 

 

A respeito de afirmações de Michael Polan feitas em O DILEMA DO ONÍVORO e que relatei na crônica Milho 1, Adjalbas Macedo escreve:

 

“A simbiose entre homem - planta de milho, na concepção de seleção das espécies, não é válida. Os grãos de milho são polinizados via vento ou insetos, e após a maturação na espiga, mesmo estando envolvidas em palha de proteção, não empede a sua germinação na espiga e posterior dispersão para o solo, onde reiniciam o ciclo da vida. Portanto, não vejo a intervenção humana como necessária para a sobrevivência das espécie, mas sim o contrário, pois o advento do homem, selecionou várias cultivares de milho, iniobindo a sobrevivência de outras. Na atualidade não há mais do que 5% de cultivares de milho com combinação genética diferentes para determinadas caracteristicas”.

 

Adjalbas contesta Pollan e oferece boa oportunidade para explicar em que perspectiva eu tento colocar esse alinhavado de citações que essa série de textos. Em momento algum a preocupação incide sobre a verdade ou inverdade do conteúdo das citações.

Não se trata de saber se as afirmações de Pollan são verdadeiras ou falsas. Da mesma forma, a questão não é saber se os “seres de espírito” de Edgar Morin ou os memes de Richard Dawkinns existem ou não, embora os autores apostem nessa existência.

O critério de veracidade não se aplica na perspectiva que estou tentando construir. A interrogação é: por que é possível, na nossa época, pensar assim? por que há pessoas que elaboram hoje tais pensamentos, ou mais exatamente, tal forma de pensamento? por que encontramos uma similaridade nestes pensamentos que têm objetos díspares: o milho e as idéias. E mesmo que essa similaridade seja contestada ou até negada, por que alguém (no caso: eu) pode propor a existência de tal similaridade?

Por que não consideramos a reflexão de Pollan sobre a possibilidade de colonização do homem pelo milho uma boa piada, e não imaginamos os skrotinhos de Angeli com espigas lhes saindo por todos os orifícios? Por que o New York Times abre uma página inteira a uma pessoa que pensa desse modo para publicar uma carta dirigida ao futuro presidente dos Estados Unidos?

Independente do teor de veracidade do pensamento desses autores e dos objetos a que se referem, essa forma de pensamento – enquanto forma – é um discurso relacionado com o momento pelo qual passa a sociedade em que vivemos, ou parte dela. Com quê este pensamento está dialogando? O que pode nos revelar a nosso respeito? Para que direções ele aponta? Em que ele pode enriquecer nossa reflexão sobre nós próprios e nossas relações com a sociedade? Em que a nossa ação pode levar ou não em conta essa forma de pensamento, ou ela atuar sobre a nossa ação?

Essa forma pode ser atuante independente do teor de verdade ou falsidade que atribuiremos às suas afirmações, independente de concordarmos ou não com ela. Ou seja: ao pensar a existência de sistemas originados pela atividade humana, que ganharam independência relativa e desenvolvem estratégias de sobrevivência e expansão para as quais instrumentalizam os homens – não a pergunta: é correto pensar isso?, mas: como podemos nos relacionar com este pensamento? Independentemente de qualquer verdade, que dinâmicas de ação, de reflexão, de compreensão da nossa sociedade e de nos como sujeitos tal forma de pensamento pode disparar?

 

É possível responder a estas perguntas? De que forma?

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 16h42
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]

05/11/2008

Milho – 6

Milho – 6

 

Continuemos.

Sempre em torno dessa forma de pensamento: um sistema originalmente criado pela atividade humana se torna ou se tornaria relativamente independente das causas que o originaram. Assim, ele gera necessidades próprias, em função das quais desenvolve estratégias de sobrevivência e expansão. Não só isso como, para o sucesso de suas estratégias, passaria a instrumentalizar os homens que estão na sua origem.

É possível que a primeira pessoa que tenha intuído o fenômeno seja Marx, é o que me parece no quadro dos meus conhecimentos.

Frases extraídas do Livro I do Capital:

“Mas a forma mercadoria e a relação de valor entre os produtos do trabalho, a qual caracteriza essa forma, não têm a ver com a natureza física desses produtos nem com as relações materiais dela decorrentes. Uma relação social definida, estabelecida entre os homens, assume a forma fantasmagórica  de uma relação entre coisas”.

Há “... formas que, à primeira vista, se apresentam como pertencentes a um período social no qual a produção e suas relações regem o homem em vez de serem regidas por ele...”.

“Por isso, descobrem nossos donos de mercadorias que a mesma divisão do trabalho, ao fazer deles produtores privados, torna independente de sua vontade o processo social de produção e as próprias relações que mantêm dentro do processo, e, ainda, que a independência recíproca das pessoas se integra num sistema de independência material imposta pelas coisas”.

“... mas, na verdade, o valor apresenta-se aqui como uma substância automática, dotada de uma vida própria...”.

Marx analisa os mecanismos produtivos e econômicos que geram essa “vida própria”. À margem da análise, para que o leitor consiga, não apenas compreender, mas sentir, intuir um fenômeno que não é fácil conceber, ele recorre à seguinte analogia:

“Para encontrar um símile, temos de recorrer à região nebulosa do mundo religioso. Aí, os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, figuras autônomas que mantêm relações entre si e com os seres humanos. É o que ocorre com os produtos da mão humana, no mundo das mercadorias”.

 

Na crônica Milho 1, extraí as seguintes frases do livro O DILEMA DO ONÍVORO, de Michael Pollan:

“De todas as espécies que descobriram uma maneira de prosperar no mundo dominado pelo Homo sapiens, por certo nenhuma outra foi tão espetacularmente bem-sucedida como a Zea mays,a gramínea que conseguiu domesticar seu domesticador [...] O milho é o herói de sua própria história e ainda que nós, seres humanos, tenhamos desempenhado um papel crucial na sua ascenção até o domínio do mundo, seria errado sugerir que nós é que estivemos dando as cartas até agora, ou que tenhamos agido de modo a defender da melhor forma nossos interesses. E, realmente, há razões de sobra para pensar que o milho conseguiu nos domesticar”.

E Marx:

“Não é mais o trabalhador que emprega os meios de produção, mas os meios de produção que empregam o trabalhador. Em vez de serem consumidos por ele como elementos materiais de sua atividade produtiva, consomem-no como o fermento de seu próprio processo vital”.

Genealogia de uma forma de pensamento.

 

[tradução de Reginaldo Sant’Anna, Ed. Civilização Brasileira, alterada à luz da trad. francesa de J. Roy, Ed. Flammarion]

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h03
 ] [ regras ] [ envie esta mensagem ]