Basílico - Josimar Melo UOL Blog

Blog de Jean Claude Bernardet

04/08/2008

Milho – 5

Milho – 5

  

Em textos anteriores usei a expressão “autonomia relativa” para me referir a sistemas criados pela atividade dos homens em sociedade, mas que a partir de determinado momento de seu desenvolvimento passam a gerar necessidades próprias, o que os distancia das causas iniciais da sua formação (sem que estas deixem completamente de atuar). Nesta evolução eles podem retroagir sobre o sistema que lhes deu origem e passar a usá-lo em benefício próprio. E se assim não for, é “como se” fosse.

Esta idéia, fui pescá-la numa carta de Fredrich Engels enviada a um certo senhor Schmidt no final do Séc. XIX. Esta carta, que usa a expressão “independência relativa” (Marx/Engels: Obras escolhidas, Ed. Vitória), é às vezes citada em estudos sobre arte e cultura, porque ela suaviza as relações mecânicas que um marxismo dogmático estabelece entre infra e superestrutura, na qual se encaixaria a cultura.

Nesta carta, em momento algum Engels se refere à arte. Ele explica a Schmidt:

“Ali onde a divisão do trabalho já existe em escala social, os diferentes ramos da atividade tornam-se independentes uns dos outros. A produção é, em última estância, o fator decisivo. Uma vez, porém, que o comércio de produtos se torna independente da produção propriamente dita, passa a obedecer à sua dinâmica própria e esta, embora submetendo-se, em termos gerais, à dinâmica da produção, rege-se, em seus aspectos particulares e no quadro desta dependência geral, por suas próprias leis, as quais correspondem à natureza específica desse novo fator. A dinâmica do comércio de produtos tem etapas especiais e reage, por sua vez, sobre a dinâmica da produção”.

Engels acrescenta: “O mesmo ocorre com o mercado de dinheiro. Quando o comércio de dinheiro se separa do comércio de mercadorias, passa a seguir um desenvolvimento independente, com suas fases próprias que decorrem de sua própria natureza, e com suas leis especiais, embora subordinando-se a determinadas condições impostas pela produção e dentro desses limites”.

“A sociedade cria certas funções comuns de que não pode prescindir. As pessoas indicadas para estas funções passam a constituir um novo ramo da divisão do trabalho DENTRO DA SOCIEDADE. Assim, passam também a defender interesses especiais, opostos aos interesses dos que lhes outorgaram esses mandatos: tornando-se independentes frente a estes...” (grifo do autor).

“Os homens que se ocupam disso [a ciência] pertencem, por sua vez, a órbitas especiais da divisão do trabalho e crêem desenvolver um domínio independente. E à medida que passam a formar um grupo autônomo dentro da divisão social do trabalho, suas produções, inclusive seus erros, influem sobre todo o desenvolvimento social e mesmo sobre o desenvolvimento econômico. Apesar disso, porém, eles continuam sob a influência dominante do desenvolvimento econômico”.

O que penso ser interessante nessas considerações, cuja preocupação básica é a divisão do trabalho e suas conseqüências, é que um sistema, sem se tornar totalmente independente das causas que o criaram, passa a se comportar conforme leis e interesses próprios, podendo inclusive, para isso, agir sobre as causas iniciais. Podemos imaginar o seguinte: uma sociedade ou grupos sociais, que se sentem ameaçados pela chamada “violência urbana” e pelo chamado “terrorismo”, passam a desenvolver mecanismos de proteção. Estes tornam-se um sistema amplo e complexo. É só pensar no exército de vigias que nos controlam (uma extensa mão-de-obra), nas câmeras de vigilância, nos detectores de metais, portas-giratórias, carros blindados, grades, feira de novidades etc etc. Esse sistema passa a desenvolver interesses próprios e poderia chegar, se cessassem a violência urbana e o terrorismo (o que não vai acontecer), até a gerar violência para continuar a se manter e a se expandir. As empresas precisam continuar a lucrar. É o que pode estar acontecendo com empresas que produzem detectores de vírus informáticos: se os hackers deixassem de produzi-los, elas teriam de gerá-los para continuar a desenvolver seus produtos.

O que interessa na carta de Engels é que ela aponta para o conceito de sistema relativamente autônomo, que passa a atuar não apenas em função das causas iniciais, mas em favor de sua própria sobrevivência e expansão. Ela se encontra assim na linha genealógica que leva aos sistemas relativamente independentes do “milho” e dos “seres de espírito”.

Teço com linhas alheias.

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h26
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14/07/2008

Milho – 4

Milho – 4

 

Os “objetos de espírito” de Edgar Morin, os “objetos ideais” * de Jacques Schlanger, os memes de Richard Dawkins – considerados como entidades relativamente autônomas e até como seres vivos – se inserem num longo percurso que teve um momento decisivo no séc. XVIII quando apareceu a “ideologia”, isto é, a “ciência das idéias” “consideradas em si mesmas”, ciência que seria uma “parte da zoologia”.

Essa “ciência” não demorou muito para chegar ao Brasil: a Biblioteca Mário de Andrade preserva um exemplar da terceira edição, publicada em Niterói em 1837, de ELEMENTOS D’IDEOLOGIA. IDEOLOGIA PROPRIAMENTE DITA, obra de Destutt de Tracy, um dos papas dos “ideólogos” ou “ideologistas”. Para eles, tratava-se basicamente de entender “o que é pensar”, a “inteligência humana”, e de perceber que as idéias tinham uma “formação” e que havia uma “filiação” entre elas.

No séc. XIX começa-se a questionar a relação entre as idéias e os homens que as pensam. É o que se pode verificar numa carta de Fredrich Engels a um certo Heinz Starkenburg, datada de 1894. Engels reflete sobre as idéias de Marx, que  “descobriu a concepção materialista da história, mas Thierry, Mignet, Guizot e todos os historiadores ingleses, até 1850, mostram que já se marchava nesse sentido. E a descoberta dessa mesma concepção por Morgan demonstra que já existiam todas as condições para que ela fosse descoberta e que, exatamente, ela tinha que ser descoberta”.

Portanto o materialismo histórico não surge apenas do cérebro de Marx. Ele se encaixa numa filiação que se desenvolveu no decorrer de um determinado período histórico e econômico. Essa concepção apresenta uma necessidade em si (“tinha que ser descoberta”). E se não fosse Marx, teria sido um outro. É o que pode se deduzir de outro trecho da mesma carta, em que Engels tece considerações sobreo o “grande homem”: “E aqui surgem os chamados grandes homens. O fato de que surja um deles – precisamente este; num momento dado e num dado país – constitui, naturalmente, puro acaso. Se, porém, o suprimirmos, far-se-á sentir a necessidade de substituí-lo e surgirá um substituto: será pior ou melhor – mas acabará por surgir mais cedo ou mais tarde. Foi um acaso que coubesse precisamente ao corso Napoleão o papel de ditador militar, exigido pela República francesa, esgotada por sua própria guerra. Mas, caso não tivesse existido um Napoleão, outro teria vindo ocupar seu posto. É o que nos demonstra o fato de que, sempre que foi necessário um homem – fosse ele César, Augusto, Cromwell etc. – esse homem surgiu”.

Portanto o aparecimento e a elaboração das idéias não dependem apenas do pensador. Elas aparecem em função de uma necessidade gerada pelo momento histórico e econômico: “A necessidade que assim se impõe através de acasos [ou seja, o aparecimento do “grande homem”] é também, em última instância, a necessidade econômica”, escreve Engels. Nada mais distante do pensamento de Dawkins ou Morin (o qual não cita Engels na sua bibliografia).

No entanto, as reflexões de Engels não consideram mais o pensador como a causa do pensamento. A idéia, que tem de aparecer, aparecerá independentemente de quem a pense. A idéia não nasce de uma necessidade interna ao sistema das idéias, sem dúvida, mas em Engels já se abre um fosso entre o pensamento e o homem que pensa. A idéia, fruto da necessidade histórica, já não é mais fruto do pensador. Este se torna um instrumento de que se vale o momento histórico para que apareça a idéia que lhe é necessária.

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* A expressão “objet idéel”, cunhada por Schlanger e retomada por Morin, foi traduzida por “objeto ideal” na versão brasileira de O MÉTODO, o que provoca alguma confusão. A expressão de Schlanger significa “objeto de idéia”, “idéia como objeto”. A tradução brasileira evoca um objeto que se aproximaria de uma perfeição.  

 

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h27
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06/06/2008

O milho – 3

O milho – 3

 

Em O GENE EGOÍSTA (1976), o biólogo Richard Dawkins, que se confessa “darwinista entusiasta”, cria um conceito que corresponde aproximadamente ao “objeto de espírito” de Edgar Morin: o “meme” de Dawkins pode ser uma idéia, uma teoria, uma melodia etc, ou parte de. O autor se expressa da maneira seguinte: a idéia de Deus é o “meme para Deus”. A tese proposta é que os memes se comportariam de modo análogo aos genes. O meme é uma entidade que luta pela sua sobrevivência, para ter vida própria e se expandir. Para tal, ele se vale dos homens como hospedeiros e veículos.

Ele vai assim conquistando uma vida relativamente autônoma. Embora entidade viva, ele não é dotado de consciência, vontade ou capacidade de planejamento. Ele não é um ente intencional. No entanto, comporta-se como se fosse, e como se tivesse estratégia de expansão e dominação. “Se um meme quiser dominar a atenção de um cérebro humano, ele deve fazê-lo às custas de memes rivais. Outros artigos nos quais os memes competem são tempo de rádio e televisão, espaço para anúncios, espaço de jornal e espaço de estantes de biblioteca”, escreve Dawkins. Nesse mesmo sentido, as editoras Itatiaia e Edusp colaboraram ou foram usadas para a sua propagação no Brasil.

Esse trabalho de dominação exige do meme não apenas uma capacidade de replicação (de se repetir de cérebro em cérebro), mas principalmente de ser um replicador flexível, maleável, que pode se associar a outros.

A idéia do meme, ou seja, “o meme para o meme” está caminhando lentamente, mas está caminhando. Para isto, além de ter cunhado o conceito, Dawkins lhe deu um pequeno empurrão inicial. Ele pediu ao colega N. K. Humphrey que resumisse seu texto sobre os memes, o que foi feito nos seguintes termos:

“... os memes devem ser considerados como estruturas vivas, não apenas metafórica mas tecnicamente. Quando você planta um meme fértil em minha mente, você literalmente parasita meu cérebro, transformando-o num veículo para a propagação do meme, exatamente como um vírus pode parasitar o mecanismo genético de uma célula hospedeira. E isto não é apenas uma maneira de falar – o meme, por exemplo, para crença numa vida após a morte é, de fato, realizado físicamente milhões de vezes, como uma estrutura nos sistemas nervosos dos homens, individualmente, por todo o mundo”.

Após isso, não sei como frutificou a idéia de Dawkins. A analogia do meme com o gene e o vírus foi considerada altamente duvidosa. O que não o impediu de seguir caminho e atingir o cérebro de Edgar Morin, que o cita numa nota do quarto volume de O MÉTODO, o qual trata da vida das idéias. Por vias totalmente diversas Dawkins e Morin chegam a concepções bastante semelhantes, sendo que Morin lhe  acrescenta uma característica a que Dawkins não se refere, a saber que ele goza de “autonomia relativa”, conceito fundamental no pensamento de Morin.

 Mas é muito provável que para se expandir o meme de Dawkins não precise que o conceito seja nomeado, o que lhe permite criar laços entre pensamentos de várias fontes e de referentes diversificados:  Dawkins, Morin, e também Aragon. Neste último caso é como se o meme, cujo conceito foi gerado na década de 1970, anexasse um território que o precedeu, já que o texto de Aragon data de 1930. Assim o milho, os “objetos de espírito”, o “vasto raciocínio” e o meme são vistos como produções humanas que se afastaram da causa de sua criação e lutaram para ter uma vida própria relativamente autônoma, operação essa que os leva a usar o seu criador e a dominá-lo.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 15h30
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30/05/2008

O milho - 2

O milho - 2

 

A colcha de citações continua:

“Já é tempo, aliás, de entender que tudo o que parecia piada nas Poèsies de Ducasse [Lautreamont] deve ser considerado a expressão profética de uma reviravolta de que somos os operários cegos. Mas esqueçamos isso. Basta reter que a arte verdadeiramente deixou de ser individual, mesmo quando o artista é um individualista ferrenho, isso porque é possível acompanhar – deixando de lado os indivíduos –, por meio de momentos de seu pensamento, um vasto raciocínio que só recorre aos homens como intermediários e de modo totalmente passageiro, e se, desta frase que estou escrevendo, só chegar aos ouvidos dos jornalistas a proposição fragmentária a arte verdadeiramente deixou de ser individual, não sou eu que ficaria incomodado com isso.” (trad. JCB/HJ)

 

Nesta frase de Louis Aragon, poeta e romancista, dadaísta e comunista, ecoa a idéia de história da arte sem nome de artistas, como Nelson Werneck Sodré tentou escrever a história da literatura brasileira sem citar os autores. Mas eu vou reter dessa frase que somos os operários e não os criadores dessa reviravolta artística, e operários cegos, isto é, que não sabem o que fazem. Vou reter também a idéia de que existiria um vasto raciocínio que não é produzido pelos homens, mas que se serve deles para se desenvolver.

Esse pensamento, essa forma de pensar é estranhamente próxima do que Michael Pollan afirma a respeito do milho: ele  usa o homem para se desenvolver e consegue domesticá-lo (ver Milho – 1). Como se coisas ou sistemas criados pelo homem tivessem conquistado uma autonomia ou relativa autonomia que lhes possibilitasse se tornar sujeitos de sua ação e, em favor de seu próprio benefício, instrumentalizar os homens.

No quarto volume de O MÉTODO (Ed. Sulina), Edgar Morin propõe  a tese conforme a qual “os sistemas de idéias dispõem de uma relativa autonomia nas sociedades complexas”. Citando Jacques  Schlanger, ele afirma que “os conceitos e as teorias [são] mais do que objetos dotados de realidade objetiva: têm um ser próprio, uma existência”.

Morin: “Os seres de espírito retiram e sugam sua substância vital da vida dos espíritos/cérebros e da vida das sociedades; ao fazê-lo, tornam-se vivos. Como os seres vivos, têm os seus próprios fins, ao mesmo tempo em que são meios de outras instâncias vivas”. Tudo se passa como se existisse, ou temos a impressão de que existe um mundo de idéias (noosfera) que teria uma dinâmica própria – assim como o milho – para se expandir, se transformar, se desenvolver. E esses objetos usam os homens para pôr em funcionamento essa dinâmica. Podemos pensar que nós criamos e divulgamos idéias e conceitos. Mas temos razões de sobra para imaginar que pode não ser assim. Seríamos então usados pelas idéias para sua evolução, expansão etc, e inclusive para gerenciar as contradições existentes entre elas. Desse modo, ao escrever um artigo ou um livro, ao dar uma aula ou fazer uma palestra, e inclusive no próprio ato de leitura, seríamos hospedeiros e veículos usados pelas idéias na sua luta pela existência – e a isso não escapa este texto. (a seguir)

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h25
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23/05/2008

O milho – 1

O milho – 1

 

 O milho certamente só se desenvolveu graças ao homem. Foi ele quem tirou a palha que envolve a espiga e plantou os grãos. Sem essa intervenção, os grãos teriam tido dificuldade em germinar e  a planta poderia não ter sobrevivido. Portanto, é ao homem que o milho deve o seu sucesso.

Essa idéia encontra-se no estudo sobre a indústria do milho nos Estados Unidos, que constitui a primeira parte do livro de Michael Pollan, O DILEMA DO ONÍVORO (Ed. Intrínseca):

“Se não tivesse caído nas graças dos conquistadores, o milho correria o risco de se extinguir, pois sem homens que o semeassem a cada primavera, em alguns anos teria desaparecido da face da terra. A insólita composição entre palha e espiga que torna o milho tão conveniente para nós torna a planta totalmente dependente: para a sua sobrevivência ela necessita de um animal de posse de um polegar que o torne capaz de remover a palha, separar as sementes e plantá-las”.

Mas neste mesmo estudo encontra-se também o seguinte:

“A planta milho colonizou cerca de 320 km quadrados do continente americano, uma área duas vezes maior do que o estado de Nova York”.

Aqui houve um deslocamento: a redação da frase deixa entender que a colonização resulta da ação do próprio milho.

Mas, como ele não podia sobreviver por si, o milho teve que montar uma estratégia que viabilizasse sua ação: “as plantas sempre souberam que um dos caminhos mais seguros para o sucesso evolutivo é saciar o desejo nato que o mamífero onívoro [entenda-se: o homem] demonstra pelos adoçantes”.

Isso nos ajuda a entender “como o milho pode ter chegado a dominar nossa dieta e, em seguida, expandir-se por uma área na superfície da terra maior do que a ocupada por qualquer outra espécie domesticada, inclusive a nossa própria espécie”.

Nas palavras de Pollan, esse processo evoluiu até chegar à situação atual, que ele assim descreve:

“De todas as espécies que descobriram uma maneira de prosperar no mundo dominado pelo Homo sapiens, por certo nenhuma outra foi tão espetacularmente bem-sucedida como a Zea mays,a gramínea que conseguiu domesticar seu domesticador”.

“O milho é o herói de sua própria história e ainda que nós, seres humanos, tenhamos desempenhado um papel crucial na sua ascenção até o domínio do mundo, seria errado sugerir que nós é que estivemos dando as cartas até agora, ou que tenhamos agido de modo a defender da melhor forma nossos interesses. E, realmente, há razões de sobra para pensar que o milho conseguiu nos domesticar”.

O que interessa nessa forma de pensamento é seu aspecto não-humanista. Ou seja: o homem deixou de ser sujeito para se tornar objeto do que ele julgava ser o seu objeto. Ele, o homem, que pensava ter instrumentalizado o milho em benefício próprio, se vê numa posição inversa: o milho é que o instrumentalizou em seu benefício.

Mais tarde, darei prosseguimento a essa colagem de citações, mostrando que esse pensamento de Michael Pollan está razoavelmente difundido. É tão difícil para nós pensar num agente cuja ação não dependa da consciência e da vontade, que esse pensamento pode ser considerado uma piada. Ou então se tenta relativizar o pensamento recorrendo a para-peitos do tipo “há razões de sobra para”, que evitam fazer afirmações categóricas.

O milho não pratica a filosofia “penso logo sou”, sua filosofia é outra. (a seguir)

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h06
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27/02/2008

Autoficção

Autoficção

 

 

Autoficção é um esporte praticado por Kiko Goifmam, Sandra Kogut, Teixeira Coelho, Mireille Abramovici, João Moreira Salles e muitas outras pessoas, entre as quais eu me incluo.

A autoficção pode ser praticada literária, cinematográfica e fotograficamente.

A autoficção é UM DOS termos – que resta a definir – que poderia nos ajudar a superar a lenga-lenga ficção/documentário documentário/ficção.

Com ele, poderíamos navegar num gigantesco universo atual, que abarca tanto produtos como BIG BROTHER (aliás, nada desprezíveis) quanto obras requintadas como A HISTÓRIA NATURAL DA DITADURA (Teixeira Coelho) ou SANTIAGO (Moreira Salles).

Da minha parte, eu pratico autoficção em trabalhos como A DOENÇA, UMA EXPERIÊNCIA ou participando de filmes como DIZEM QUE EU VOLTEI AMERICANIZADA (Vitor Ângelo), SOBREVIVENTES (Míriam Schnaiderman e Reinaldo Pinheiro) e FILMEFOBIA (Kiko Goifmam). E até no roteiro que Rubens Rewald e eu estamos escrevendo para Tata Amaral: HOJE.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 13h48
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28/06/2007

No tempo (5)

No tempo (5)

O amigo e a vida

 

 Depois de umas duas décadas de autodestruição sistemática, um amigo meu foi-se – quase. Levaram uma hora para reanimá-lo e o trouxeram de volta. Ele está vivo. É o que importa.

É o que importa? Atualmente cultuamos a vida. Somos imersos numa espécie de vitalismo, da “alma no útero” até a eutanásia, na medicina ou na religião. Os seres vivos parecem menos relevantes do que a vida em si. Ou melhor, eles são relevantes por serem portadores da vida, são os hospedeiros da vida.

Mas esses mesmos seres vivos não devem exercer nenhum poder sobre a vida de que são portadores. O seu único direito é continuar a ser hospedeiros da vida enquanto a tecnologia e a medicina conseguirem mantê-la neles.

Meu amigo está se recuperando bem e a vivacidade de seu olhar sinaliza sua satisfação em estar vivo. Recobrou o uso da fala e disse que ia preparar seu testamento.

Hoje ele está felissíssimo de estar vivo.

Escrito por Jean-Claude Bernardet às 14h57
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