No tempo (5)

O amigo e a vida

 

 Depois de umas duas décadas de autodestruição sistemática, um amigo meu foi-se – quase. Levaram uma hora para reanimá-lo e o trouxeram de volta. Ele está vivo. É o que importa.

É o que importa? Atualmente cultuamos a vida. Somos imersos numa espécie de vitalismo, da “alma no útero” até a eutanásia, na medicina ou na religião. Os seres vivos parecem menos relevantes do que a vida em si. Ou melhor, eles são relevantes por serem portadores da vida, são os hospedeiros da vida.

Mas esses mesmos seres vivos não devem exercer nenhum poder sobre a vida de que são portadores. O seu único direito é continuar a ser hospedeiros da vida enquanto a tecnologia e a medicina conseguirem mantê-la neles.

Meu amigo está se recuperando bem e a vivacidade de seu olhar sinaliza sua satisfação em estar vivo. Recobrou o uso da fala e disse que ia preparar seu testamento.

Hoje ele está felissíssimo de estar vivo.