O fantasma da literatura – 4

 

 

 

Meu amigo Zeca Palaghano me escreve:

 

“Eu já havia pensado nisso que você chama de literatura Google. Quando li Bartleby e Cia., fui correndo ao Google ver quem era Derain, com quem o narrador (o próprio Vila-Matas) se correspondia. Quando descobri que o cara não existia, caí do cavalo. Gosto bastante do estilo de Vila-Matas. Ele tem ironia e bom humor”.

 

 

O que seria o que chamo de EFEITO GOOGLE na literatura? Ele é provocado por contos, novelas, romances, ou seja narrativas que se consideram ficcionais, mas geram no leitor intensa dúvida quanto a realidade ou ficcionalidade dos personagens e situações narradas. O efeito é provocado pelo estilo do narrador (tipo reportagem, resenha, verbete enciclopédico etc.) e a inserção de pessoas famosas ou menos famosas mas existentes ou tendo existido. Esses nomes conhecidos e o estilo contaminam personagens cujo nome é desconhecido. Como a narrativa se dá num plano que mescla em proporções incertas verossimilhança, veracidade e paródia, o leitor, ao se deparar com personagem de nome desconhecido mas que poderia ser real,  corre verificar no Google. Se muitas vezes chega-se à conclusão que o personagem é uma criação do escritor, outras – e não poucas – constata-se que a pessoa realmente existiu. Por outro lado, a confirmação pelo Google da existência de um personagem/pessoa não assegura que os fatos narrados a seu respeito o sejam, então investiga-se um pouco mais. A poeta Angelica Font realmente existiu? Ela realmente publicou tal livro? Realmente recebeu tal prêmio? O Bolaño de OS DETETIVES SELVAGENS é mestre em criar esse chão movediço que desestabiliza o leitor e o deixa em dúvida sobre o status do texto que está sendo lido, e portanto em dúvida sobre a consistência de sua relação com a realidade. Essa literatura trabalha a nossa hesitante relação com a realidade.

NOVE NOITES de Bernardo Carvalho foi o primeiro livro a provocar em mim o efeito Google com intensidade, sua leitura foi decisiva. Leitura marcante também para Zeca Palaghano.