Five de Kiarostami V
O pássaro preto
Na terceira parte de Five - o plano dos cachorros - um pássaro preto cruza o campo a cerca de dois terços da altura da tela, ele entra pela esquerda, segue uma linha reta e sai pela direita. Quando ele entra, aproximadamente aos 9' 36" do início do plano, o longuíssimo esbranquiçamento,que dissolve a imagem já se iniciou, o que ressalta a cor preta do pássaro. Sua travessia dura uns 4 segundos.
Que questão o pássaro levanta? Aparentemente nenhuma. Ele é um elemento de ambientação, de que podemos constatar a presença, ele faz parte da paisagem marítima, e, enquanto tal ele pode ser descrito. A dificuldade começa quando tentamos ultrapassar este nível e nos perguntamos se o pássaro faz sentido, se ele se integra a um sistema de significações que construimos a partir do filme. Esta integração não parece possível. Ele não parece contribuir em nada para pensar o filme. Sua ausência em nada alteraria a ou as significações que podemos elaborar a partir do filme. Devemos ignorá-lo?
Não, simplesmente porque está presente na imagem. A linha traçada pelo vôo, paralela à borda inferior da tela, se harmoniza com a linha do horizonte desenhada pelo mar nos quatro primeiros planos, e com a do parapeito, também paralela, do plano dos homens. Seu deslocamento obedece ao princípio que organiza o movimento nos planos precedente e posterior, o dos homens e o dos patos: entradas e saídas pelas bordas laterais do quadro. Mas ele entra em tensão com o movimento dos cachorros. Estes formam um aglomerado, que se abre, se condensa, se desloca confusamente, sem a nitidez de movimento que marca os homens e os patos.
Ele também entra em tensão com outro princípio que rege em grane parte a elaboração do filme: o controle exercido pelo realizador sobre o movimento, por exemplo, dos homens e dos patos. O pássaro é um acaso, independe da vontade e das previsões do diretor. Em contrapartida, não é impossível que o momento de seu vôo tenha sido levado em conta para calcular o início do esbranquiçamento.
Portanto, quer pela sua inserção harmoniosa, quer pelas suas tensões, o pássaro está perfeitamente integrado ao sistema do filme. Ao sistema visual, plástico e rítmico, mas não ao sistema de significações, já que não se consegue inseri-lo em um mecanismo que faça sentido. Ou mais precisamente: um mecanismo de significações que pode ser expresso verbalmente. O que não impede que ele esteja plenamente integrado ao filme, que ele tenha sentido no filme, que ele contribua à sua organização plástica e rítmica. Só que este sentido não é verbalizável.
O pássaro é irredutível, não se deixa apreender por palavras. Nossas palavras conseguem conectá-lo com outros elementos do filme, e assim ele faz parte do sistema do filme. Mas elas não conseguem atribuir-lhe uma significação. O pássaro é irredutível ao pensamento verbal que elaboramos a partir do filme. Ele pertence ao pensamento cinematográfico do filme. Não é a simples presença do pássaro no plano que permite falar em pensamento cineamtográfico, mas a possibilidade de estabelecer relações entre ele e outros elementos do filme, tanto no plano em que ele comparece como em outros. São estas relações que permitem falar em pensamento, elas são a significação, que não pode ser expressa verbalmente.